A ruína humana

She said: "What is history?"
And he said: "History is an angel
Being blown
Backwards
Into the future."
Progress, Laurie Anderson
Vivemos com a convicção de que a humanidade caminha inevitavelmente em direção ao progresso, arrastada por um movimento gradual de aperfeiçoamento; que a História é empurrada com vista ao paraíso ou como lhe chamou Fukuyama – ao fim da história. Além de errada, esta ideia é muitas vezes alimentada pelo grande poder económico, político e agora tecnológico. A ideia de que a humanidade deve continuar a expandir o seu conhecimento, produzir, desenvolver a técnica, criar ferramentas que a ajudem a desenvolver-se e a superar-se (sim, estou a falar da IA), porque isso a levará e a conduzirá necessariamente ao bem. Esta visão por ser preponderante, esquece aquela frase atribuída a Mark Twain, e tão apropriada para destruir este modo de pensar a humanidade: “a história nunca se repete, mas rima”.
Na semana passada estreou nos cinemas um filme/documentário – filme porque há ali qualquer coisa de Chantal Akerman e da Janela Indiscreta de Hitchcock, e documentário por lembrar (fazendo mesmo referência) o Shoah de Claude Lanzmann – de dois realizadores israelitas, Yuval Abraham e Rachel Szor, que investigaram os mecanismos de destruição em massa perpetrados pelas forças israelitas em Gaza. O filme está, desde a estreia em Veneza, envolto em grande polémica por ter motivado o governo israelita a ponderar a retirada da cidadania aos realizadores. NAZA – é este o nome do filme –, um acrónimo hebraico que significa danos colaterais, ou seja, o número de mortes de civis palestinianos que ocorrem durante os ataques a membros do Hamas.
Vemos as entrevistas a ex-operacionais e membros dos serviços de informação israelitas, que a câmara distorce para os seus rostos não serem identificados, caso contrário estariam em maus lençóis. É isto que acontece na chamada única democracia no Médio Oriente, onde os seus cidadãos vivem placidamente numa rotina alienada, alternando entre a passadeira no ginásio e o sofá com a televisão à frente, enquanto comem gelado. A sessenta quilómetros há famílias a ser bombardeadas, crianças a regressar da escola e a desaparecer assim, sem restar nada. Por vezes, debaixo dos escombros, atulhadas de ruínas. E o silêncio permanece, o sol põe-se, nasce outra vez, e não há ninguém que se lembre daquelas pessoas. Foram para sempre esquecidas, enterradas nesse contínuo que é a história onde só se veem ruínas. Mas há alguém que as resgata, há alguém que não esquece, há alguém que teima em não assobiar para o lado. Há alguém que não se conforma com as imagens repetidas ad infinitum pelos media, e que dá voz e corpo aos que foram reduzidos à categoria de inumano. É isso que é feito em NAZA. A começar pelos operacionais israelitas que descrevem o processo de extermínio em curso de palestinianos, concebido com recurso a mecanismos de inteligência artificial para identificar alvos do Hamas, e os atingir, nem que para isso morram cem inocentes. São os danos colaterais, apenas isso. “Nós estamos a cumprir a nossa missão” – dizem eles, e eu lembro-me de Hannah Arendt e da banalidade do mal. A mesma lógica burocrática que transforma as pessoas em números, em mera estatística ao serviço do horror. O assustador de tudo é o facto de neles não haver nada de diabólico ou monstruoso, é tudo demasiado humano (porque afinal “nada do que é humano me é estranho” dizia Terêncio) e funcional. “Mais perigosos são os homens comuns, os funcionários prontos para acreditar e agir sem fazer perguntas.” – escreveu Primo Levi. O vazio de pensamento e o cumprimento de ordens segundo critérios de zelo e eficiência são aquilo que os norteia, não há aqui nada de distorcido ou doentio. Por isso, precisamos obsessivamente de os transformar em monstros, e dizer a nós próprios que não podemos ser aquilo, nós somos diferentes. O problema é que não somos. As vítimas da história não estão impedidas de infligir o horror aos outros. E isto não é antissemitismo, nem sequer uma tentativa de igualar dores, mas de reconhecer que tudo isto é infelizmente demasiado humano. E nós nunca gostamos de nos ver sem máscaras, na nossa crueza e nudez (sem o “manto diáfano da fantasia” para citar o Eça).
“Ainda considero os nazis maus”, diz um dos operacionais entrevistados, “mas dito isto o que sou eu?”. É esta a pergunta que o filme nos faz, também a nós, espectadores da matança que se desenrola em direto diante dos nossos olhos. É a tecnologia moderna que permite a identificação dos palestinianos, a vigilância contínua numa espécie de Big Brother que o filme transporta para a realidade israelita, espreitando pela janela dos habitantes de Telavive. Estamos todos a ser vigiados, e basta um clique num botão – como num videojogo – para desencadear a barbárie. É o progresso tecnológico ao serviço do mais pérfido instinto humano.
Walter Benjamin, filósofo alemão judeu, tentou escapar da perseguição nazi na fronteira entre França e Espanha, pronto para fugir para os EUA. Foi impedido de passar a fronteira, e para não ser levado pelas forças nazis para os campos de concentração acabou por se suicidar. É dos mais importantes filósofos do século XX, com importantes contribuições em áreas como a estética e a filosofia da história. Numa passagem na obra “Sobre o conceito de História” faz referência a um desenho de Paul Klee intitulado de Angelus Novus (Anjo Novo). É preciso olhar para ele e ler as palavras de Benjamin, que aqui cito: “Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar de qualquer coisa que olha fixamente. Tem os olhos esbugalhados, a boca escancarada e as asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspeto. Tem o rosto voltado para o passado. A cadeia de factos que aparece diante dos nossos olhos é para ele uma catástrofe sem fim, que incessantemente acumula ruínas sobre ruínas e lhas lança aos pés. Ele gostaria de parar para acordar os mortos e reconstituir, a partir dos seus fragmentos, aquilo que foi destruído. Mas do paraíso sopra um vendaval que se enrodilha nas suas asas, e que é tão forte que o anjo já não as consegue fechar. Esse vendaval arrasta-o imparavelmente para o futuro, a que ele volta as costas, enquanto o monte de ruínas à sua frente cresce até o céu. Aquilo a que chamamos o progresso é este vendaval.”
O vendaval – esse vento forte e impetuoso – é o que Benjamin chama de progresso, que não por acaso vem do paraíso (ideia à qual associamos o progresso) e empurra o anjo que apenas vê ruína. Continuamos sempre em direção ao futuro, nessa marcha inexorável do tempo que vai acumulando destroços, injustiça e sofrimento. Preferimos tapar esses despojos, varrê-los para debaixo do tapete. Mas eles continuam lá para nos lembrar que não somos esses seres extraordinários e virtuosos que caminham irremediavelmente rumo à terra prometida, ou à terra dos sonhos (como nos cantou Jorge Palma).
“He said: History is a pile of debris/ And the angel wants to go back and fix things/ To repair the things that have been broken.” – lembrou-nos Laurie Anderson. NAZA é uma tentativa de reparar aquilo que foi quebrado e esquecido, como já tinha sido Shoah de Lanzmann. Procurar os despojos debaixo das ruínas, e enviá-los em direção ao presente. Eis o nosso dever.
Vicente Correia
Departamento Cultural

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