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O Debate Moderno

Foto do escritor: Duarte Santos
Duarte Santos
há 3 dias
4 min de leitura

O debate moderno degradou-se. Se recuarmos ao histórico embate de 1960 entre Kennedy e Nixon - o primeiro debate televisivo das eleições presidenciais americanas - lembramos que alguns críticos da época apontaram que a introdução das câmaras beneficiou a imagem de um Kennedy jovem e saudável, em detrimento de um Nixon que parecia cansado e suado. Muitos acreditam que este fator visual possa ter influenciado o resultado eleitoral. Contudo, se a televisão introduziu a ditadura da imagem, o advento das redes sociais colocou em risco o próprio conceito de debater ideias de forma séria.


Hoje, influenciados por táticas de comunicação altamente maquiavélicas e de baixo nível, popularizadas pela retórica de Donald Trump, os debates transformaram-se numa sucessão de ataques pessoais e frases de efeito (soundbites) fabricadas para viralizar. E não precisamos de olhar apenas para os Estados Unidos: em Portugal, não é raro os partidos políticos recorrerem cada vez mais ao TikTok, Reels e Shorts para promover os seus “melhores momentos” no Parlamento, que, sintomaticamente, se resumem quase sempre a “bocas” ou piadas de bancada.


Embora subsistam honrosos redutos de discussão civilizada, muitos dos “gladiadores” destas arenas mediáticas lutam pelo que é conveniente, e não pelo que acreditam. A discussão deixa de ser genuína e o palco serve apenas para angariar votos, visualizações ou likes. Trata-se de um teatro ativamente promovido pelo modelo dos algoritmos das plataformas digitais, desenhado para lucrar com a nossa indignação.


Grande parte da audiência, por seu turno, transformou-se numa autêntica claque desportiva: apoia o seu campo desde o primeiro minuto e trata o embate como um jogo onde o único objetivo é esmagar o adversário. Cada lado vive na ilusão de que possui o monopólio da razão, genuinamente convencido de que o opositor está cego e manipulado.


Este problema agrava-se com a atual crise epistemológica: com a proliferação de fake news e deepfakes, já não discordamos apenas sobre a interpretação dos factos; discordamos sobre o que é um facto.


Porém, a dura realidade é que ninguém está imune à manipulação da propaganda, por muito esclarecido que se julgue. Isolados nas nossas filter bubbles (conteúdo sugerido somente da mesma opinião) e alimentados pelo doomscrolling (o consumo compulsivo de publicações), as nossas defesas cognitivas baixam, e a propaganda infiltra-se na nossa mente como um Cavalo de Troia.


Consequentemente, os dogmas começam a enraizar-se, passando de simples crenças a elementos indissociáveis da nossa identidade. É precisamente aqui que a nossa agressividade condescendente, mesmo quando o outro lado está efetivamente equivocado, pode desencadear o Backfire Effect (efeito tiro pela culatra). Não importa quantas provas e contra-argumentos sejam apresentados: a partir do momento em que a opinião passa a definir quem somos, qualquer refutação é sentida como um ataque violento à nossa pessoa. Como mecanismo de defesa, o indivíduo rejeita a evidência e envolve-se ainda mais na sua fé irracional.


Neste ponto, a fusão entre pessoa e ideologia manifesta-se também na mente de quem ataca: torna-se muito mais fácil colar um rótulo extremo ao adversário do que desconstruir a sua tese. O exemplo mais icónico desta falência argumentativa é a Lei de Godwin, que dita que, à medida que uma discussão na Internet se prolonga, a probabilidade de alguém ser comparado a Hitler aproxima-se dos 100%. Esta comparação falaciosa reductio ad Hitlerum (ou, no outro extremo político, ad Marxismum) reflete o desespero de quem ficou sem resposta: “eu quero o bem, logo, se discordas da minha visão, queres o mal e és um monstro”. É precisamente esta arrogância moral que serve de motor à cultura do cancelamento, acabando por banalizar termos como “fascista” ou “comunista”, diluindo o seu real significado na mente coletiva e dificultando a identificação real destas ideologias.


Perante esta coação social, ocorre um efeito inibidor (chilling effect) e muitos optam pela autocensura. Este receio de revelar o pensamento torna-se uma estratégia de autopreservação que afeta diretamente o exercício do direito fundamental à liberdade de expressão. Além disso, diminui perigosamente o rácio entre vozes moderadas e radicais, entregando, novamente, o protagonismo aos extremismos nos debates nas redes sociais.


A resolução desta fratura exige regulação sistémica. É imperativo responsabilizar as gigantes tecnológicas e reformar os algoritmos sem estrangular a liberdade de expressão. Esta regulação revela-se uma das mais árduas tarefas para os legisladores, juristas e sociedade nos próximos tempos.


Contudo, a nossa ação individual, por mais pequeno que seja o seu impacto, também é relevante. O primeiro passo é saber escolher as nossas batalhas. O filósofo Epicteto alertava: “Podes ser invencível se não te envolveres em lutas nas quais vencer não depende de ti”. Esta sabedoria cruza-se com a Lei de Brandolini, segundo a qual “a quantidade de energia necessária para refutar a idiotice é uma ordem de grandeza maior do que a necessária para produzi-la”. Ou seja, como desmentir uma afirmação falsa é muito mais difícil do que criá-la, e como muitas vezes as pessoas nem sequer estão dispostas a mudar de opinião (algo que não podemos controlar), a maturidade reside em aceitar que nem todos os embates valem o nosso desgaste mental. 


De igual modo, é crucial resgatar o “toque humano” nesta sociedade digital e individualista. Em vez de atacarmos de imediato, precisamos de compreender que muitas ideologias extremistas são adotadas por cidadãos (e, cada vez mais, por jovens) assustados à procura de pertença num mundo caótico, onde tudo inspira medo e em nada se pode confiar plenamente. O acolhimento é muito mais eficiente do que a hostilidade. Uma das maiores referências contemporâneas desta postura é o músico afro-americano Daryl Davis que, armado apenas de diálogo e empatia, convenceu dezenas de membros do grupo racista Ku Klux Klan a abandonar as suas ideologias de ódio e a denunciar a própria associação.


Concluindo, devemos fazer o máximo esforço para preservar a integridade do debate face aos perigos levantados pelas novas tecnologias; não proteger a discórdia, mas a difusão e discussão de ideias. Precisamos, mais do que nunca, da lembrança de que estamos todos juntos, e não em oposição, a tentar desvendar as mesmas questões desde o início da humanidade, para conseguirmos, finalmente, enfrentar os novos problemas da modernidade.


Duarte Santos

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