Entrevista ao Núcleo de Estudantes Católicos (NEC)
- Inês Moreira
- 23 de dez. de 2020
- 4 min de leitura
Pouco depois de assinalar um ano desde a criação do NEC - Núcleo de Estudantes Católicos, Inês Carvalho, um dos membros fundadores esteve à conversa com o Tribuna para refletir sobre o percurso deste grupo inovador.
O que é o NEC?
Em primeiro lugar, gostava de agradecer o convite do Jornal Tribuna para esta entrevista. Respondendo à tua pergunta, o NEC é um grupo que pretende divulgar os ideais católicos e permitir uma vivência destes valores católicos, na faculdade. Eu sinto que na transição do secundário para a faculdade desvanece um bocadinho aquilo que é a nossa convivência com a comunidade católica e tendo em conta especialmente que a universidade é um espaço de diversidade, de partilha de ideias e também de crescimento, eu sinto que é a oportunidade para restaurar essa ligação.
O NEC é um dos mais recentes grupos académicos da nossa faculdade e em termos de objetivo, acaba por ser algo inédito na FDUP. De onde surgiu a ideia da sua criação?
A ideia surgiu, não de mim, mas do Júlio Ventura, a quem eu agradeço imenso a confiança. Eu vi logo que fazia sentido, desde já, porque tal como disseste, não tínhamos nada de parecido na FDUP e, por outro lado, exatamente por ser um espaço de partilha de ideias, eu senti que a minha fé podia crescer juntamente com a de outras pessoas.
Não é segredo que o ano passado houve muita controvérsia à volta da criação deste grupo, isso foi um desincentivo?
Não, vi-o mais como um desafio, sabes? Claro que ia haver e nós até já estávamos à espera que houvesse um bocadinho de discussão. O novo às vezes assusta, ainda não se percebe, não se conhece, mas depois eu acho que as pessoas começaram a ver o que era o grupo, quais eram as atividades que fazíamos, qual era o nosso objetivo, começaram também a conhecer um bocadinho as pessoas que estavam empenhadas no projeto e foram aceitando melhor, viram que o NEC tem alguma coisa para dar à comunidade académica.
Há efetivamente lugar para a religião no direito?
Há, sim, ainda esta segunda-feira (dia 7/12/2020), vamos fazer uma conferência com o Professor Lamas Leite relacionada com o assunto. Pensamos que muitos destes temas de que falamos em direito podem colidir com a religião católica, mas, na verdade, podemos encontrar muito da religião católica no direito. O direito também tem por detrás dele valores inerentes que, por si mesmos, têm muita influência cristã, aliás, nós estudamos vários autores que deram um grande contributo para o direito, procurando incorporar os valores católicos.
Como descreverias o NEC se o tivesses de apresentar a um ateu, agnóstico ou crente de outra religião?
O NEC é sobretudo um grupo de partilha, de vivência do sentimento cristão, de fé, de experiências que nos ajudam enquanto católicos a entender o lugar da nossa fé no mundo, a pôr em prática a teoria, ver o que é que, em tempos de constante mudança, podemos fazer enquanto grupo. Sinto que nós vamos conseguindo aprender um bocadinho com todos. Este é sobretudo um grupo de crescimento, não só de fé, mas especialmente um crescimento enquanto pessoas na fé.
Especialmente com um grupo tão recente, consideras que o covid veio dificultar as atividades planeadas?
Sem dúvida que veio mudar um bocadinho o nosso calendário, até porque nós ficámos com um segundo semestre muito reduzido em termos de atividades, especialmente tendo em conta que o grupo foi criado apenas no fim do primeiro semestre. Dito isto, tal como os outros grupos académicos tiveram de o fazer, tivemos de reinventar a forma como chegávamos a outras pessoas, viver a fé mesmo não estando próximos. Por exemplo, uma das atividades que fizemos no segundo semestre do ano passado foi uma oração online, que teve bastante adesão. No fundo é deixar as vias tradicionais, compreender que às vezes não precisamos de sair do conforto da nossa casa para estarmos em contacto com Deus.
Como foi a tua experiência no NEC?
Eu comecei por estar muito entusiasmada com esta criação, depois comecei a ver os tais entraves e aquelas polémicas todas à volta do grupo. Enquanto comunidade, enquanto equipa, trabalhamos todos em conjunto e eu sinto que também cresço. Este ano, por exemplo, abrimos o NEC a novos colaboradores, o que faz com que o grupo tenha imenso para dar. Eu tenho muita coisa para aprender com eles, coisas que eu nem sequer imaginava. O meu principal objetivo é definitivamente tentar levar a fé. Ainda noutro dia fui questionada sobre esta questão da pandemia, mantenho a minha resposta, nós temos de estar próximos sem estarmos próximos fisicamente. Dentro do meu grupo cresço imenso, aprendo coisas novas todos os dias e solidifico a minha crença, que é o mais importante. Construo a casa na rocha e não na areia, onde se pode destruir.
Como esperam viver esta época natalícia enquanto grupo?
O Natal é sempre muito especial para os católicos, acredito que o seja para toda a sociedade, porque é um momento de convívio familiar, mesmo para os que não acreditam. Mas enquanto católicos assume um outro significado, é uma renovação da esperança nesse menino que nasce todos os anos, para que fique bem presente na nossa ideia o exemplo de alguém que nasceu do nada, numas palhas e concretizou tantos feitos. Temos de ter a noção de que por mais insignificantes que pensemos ser, podemos sempre tentar mudar o mundo, podemos fazer algo pelos outros. Nós estamos agora a fazer uma caminhada de advento, que para nós não é só um tempo de espera, mas também um momento de reflexão sobre o nosso ano, um ano certamente mais difícil. Trata-se de uma preparação para receber este menino. Isto não significa somente deixá-lo entrar, implica também mostrá-lo e dá-lo aos outros. A nossa fé não pode ser apenas interior, temos também de fazer aquilo que pregamos.
O que podemos esperar do NEC no futuro?
Independentemente de serem ou não crentes, podem sempre esperar um grupo aberto para todos, com muitas atividades para pessoas que não são crentes. Estamos cá, nem que seja para responder a questões sobre fé, sobre a nossa religião, ou outras. Queremos ser também um grupo que ajude a comunidade a crescer, fornecendo ferramentas para que possamos mostrar ao mundo estes nossos valores.
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