Entrevista à Legislatuna
- Sofia Marques
- 18 de dez. de 2020
- 7 min de leitura
A Legislatuna, Tuna feminina da Faculdade de Direito da Universidade do Porto, nasceu no dia 2 de novembro de 1998. Somou, no passado mês, 22 anos de existência. Conta, atualmente, com 20 membros ativos e com mais de 100 integrantes, que por ali passaram.

Com a atual situação pandémica, viu a sua normal dinâmica mudar.
Perante esta situação e de forma a compreender melhor as adversidades enfrentadas pela Tuna, o Jornal Tribuna esteve, no passado dia 3 de dezembro, à conversa com a atual Magister da Tuna, Beatriz Vigo.
Para quem ainda não conhece a Legislatuna, como a descreverias?
A Legislatuna é uma família. É um acumular de gerações que dura há 22 anos e que fica para sempre. Na semana passada, por exemplo, fizemos um vídeo comemorativo, no qual participaram pessoas que tinham entrado na Tuna em 2003. Isto mostra-nos que quem passa pela Legislatuna está sempre presente. Quando estamos todas juntas, parece que nem existe uma diferença de idades, somos um verdadeiro grupo e é mesmo isso que a Legislatuna representa: uma casa longe de casa. É um sentimento bonito, porque acaba por ser contratual a forma como estamos aqui umas para as outras, como sentimos a Tuna.
Quais são os valores que a Tuna incute?
Os três maiores valores são a amizade, o espírito de sacrifício e a capacidade de trabalhar em equipa. Começando pela amizade, sabemos que esta é, de facto, um valor mais genérico. A verdade é que todos podemos fazer amizades fora da Tuna. Não é por alguém não por lá passar que deixará de ter verdadeiros amigos. No entanto, a Tuna ensina-nos a lutar em conjunto por algo que é maior do que o nosso próprio ser. Falamos aqui de um espírito comum. É um grupo que nos compele a renumerar prioridades, obriga-nos a alterar rotinas e a sacrificar o nosso conforto por algo que entendemos ser uma instituição. Ensina-nos a sacrificarmo-nos pela Tuna, trabalhando como se fôssemos todas uma só. Isso faz com que tenhamos de nos organizar bem. Eu, pessoalmente, sinto que foi uma das melhores qualidades que ganhei com a Tuna, fez-me crescer.
A propósito da vossa organização, é frequente ouvirmos que as Tunas ocupam muito tempo, sendo este muito precioso para a vida de um estudante universitário. O que pensas sobre isto?
Há um ditado muito referido na Tuna: quando temos muitas coisas para fazer, organizamo-nos melhor. E isto é totalmente verdade. A Tuna dá imenso trabalho, sim. Existe sempre algo para fazer, é como uma família que é imperativo manter. Para além de termos a constante gestão do trabalho institucional, que é comum a todos os grupos, necessitamos ainda de preservar o nosso espírito e tradições académicas. Tudo isto ocupa bastante espaço na agenda, mas também nos ensina a dar muitíssimo mais valor ao tempo. Aprendemos que o tempo é precioso e que o devemos gastar de forma organizada e consciente.
Como descreverias o papel da Legislatuna na FDUP?
A Legislatuna é um grupo que dá as boas vindas às novas estudantes da faculdade. A FDUP é maioritariamente composta por mulheres. Este é, então, um lugar onde as novas estudantes se podem refugiar, encontrar um espírito de união incrível e fazer novas amizades. Sinto que a nossa solidariedade feminina se reflete muito na faculdade, apoiamo-nos extremamente umas às outras. A nossa meta é, assim como a da TAFDUP, a de integração de novos alunos e de boa partilha musical. Tentamos ser inovação e principalmente união, um espaço de partilha e solidariedade.
Falando agora acerca da vossa performance: os vossos temas são essencialmente originais ou são mais reinterpretações de músicas tradicionais?
A maioria são reinterpretações, mas temos dois temas originais. Levamos muitas vezes a palco a Soaram, um dos nossos originais. Aliás, a faculdade vai festejar os seus 25 anos na próxima semana e convidou-nos para apresentarmos este tema, que é inspirado na FDUP. Uma parte da música é «Entre as páginas dos livros, entre as leis e os artigos», o que reflete bem o peso da casa na nossa música.
O que deve inspirar alguém a juntar-se a vocês?
O necessário é querer vir e isto não é, de todo, porque a Tuna tem standards baixos, mas, sim, porque há algo de muito especial que nos caracteriza: a Legislatuna dá sempre uma oportunidade. Existe, acima de tudo, um lugar para qualquer uma de vós. Não é só para pessoas que sabem cantar, tocar ou ser coordenadas. A Tuna serve para sairmos da nossa zona de conforto. Eu, pessoalmente, não sei cantar.
Se não são necessários esses pré-requisitos musicais, como são capazes de fazer música?
Tudo acontece porque nós ensinamos, basta apenas haver vontade de aprender e esta aprendizagem é crucial para que, um dia mais tarde, quem aprendeu possa também vir a ensinar. Não esperamos apenas pessoas que estudaram no conservatório, que tenham algum tipo de base musical ou talento. A Legislatuna é um sítio onde há união e vontade de integração e isto gera tanto empenho que, posteriormente, vemos surgir qualidade musical. Tudo fruto do nosso trabalho. Por isso, afirmo novamente que o requisito é força de vontade, é querer vir. A Tuna é muito mais do que mero talento musical. É crucial que se perceba que a Tuna é musicalmente boa, mas que esta não é baseada em laços musicalmente construídos. Os laços verdadeiramente importantes são os da amizade. É com amizade, trabalho e dedicação que chegamos aqui. A Legislatuna celebra sempre as pessoas que dão o melhor de si, seja musicalmente ou não, razão pela qual o ensino que cá fazemos é tão importante. Aprendemos para no futuro instruirmos, é um ciclo de conhecimento. Todas as sementes que aqui recebemos servem para que um dia também as plantemos. Aqui lutamos por algo que é maior do que nós.
Quais são as vossas atividades e expectativas para este ano letivo?
Como já referi, atuaremos na celebração dos 25 anos da FDUP. Vamos ainda ter um Q&A no próximo sábado, por Zoom. Em relação às nossas expectativas, estas são neutras. Tentaremos continuar com o trabalho dos anos anteriores, mas sabemos que há moldes que têm de mudar. Estamos a descobrir-nos a cada passo que damos. Mantemos o espírito, continuamos com a qualidade musical e esperamos receber pessoas novas. O futuro é completamente imprevisível, mas estamos a tentar adotar uma perspetiva otimista.
A propósito desses novos moldes, numa das vossas primeiras publicações pós-confinamento, afirmou-se que a Tuna se iria reinventar. Sentes que essa reinvenção está a acontecer?
Sim, estamos a conseguir, dentro dos nossos limites. Já passámos um formulário e vamos fazer o referido Q&A. Estas são coisas muito diferentes do nosso habitual. O foco é conseguirmos mostrar quem somos, cativando novas estudantes. Por esta altura, já teríamos tido as audições, contudo, este ano, estamos a reinventarmo-nos e a ter um processo mais fragmentado.
Têm conseguido adaptar os vossos ensaios? Que soluções criativas têm encontrado para combater a distância física que atualmente vos separa?
Não temos tido ensaios gerais. Temos tentado fazer sempre ensaios de naipe, sendo estes muito espaçados. Não vão mais do que três e tentamos sempre ir com as nossas partes já ensaiadas. Impomos metas, para que quando cheguemos aos ensaios seja tudo mais fácil e eficaz. Os ensaios são o nosso maior ponto de encontro, mas têm sido o nosso maior desafio. Em relação às reuniões, estas têm sido por zoom. Quando estamos juntas presencialmente, fora do âmbito dos ensaios e reuniões, andamos sempre separadas, em grupos de cinco. Fizemos, há duas semanas, um peddy-paper, no qual separámos a Tuna em grupos de três pessoas. Andámos pela cidade, sempre de máscara e em grupos separados. Foi uma atividade muito interessante, com a qual conseguimos manter o espírito, cumprindo todas as regras de segurança.
Já consideraram atuar através de meios telemáticos?
Sim. O problema é que as formas que considerámos exigiriam que estivéssemos juntas na mesma. Ponderámos fazer um livestream, mas isso seria pouco seguro, pois obrigaria a presença de todas. No início de setembro tivemos uma serenata, mas a situação pandémica era diferente. Foi interessante perceber que conseguimos facilmente atuar de máscara. Por outro lado, fizemos um vídeo para o aniversário de outra Tuna, onde cantámos todas individualmente. O vídeo foi posteriormente editado para que estivéssemos todas a cantar juntas. No entanto, esta nunca seria uma forma de atuarmos, pois há várias questões técnicas neste tipo de atuações que nos ultrapassam.
Como serão repensados os vossos regressos aos palcos ou às ruas da ribeira?
Terá de obrigatoriamente haver uma reinvenção. Nem falo de uma reinvenção ao nível da Legislatuna, mas sim de uma reinvenção e adaptação ao nível das tunas em geral. Os festivais terão de continuar a existir, mas de forma diferente. Atuaremos, provavelmente, de máscara. A verdade é que continuam a existir atividades que envolvem um palco e uma plateia e é, no fundo, isso que a Legislatuna faz. Por isso, não vejo qualquer impasse no que toca à existência de festivais futuros. Porém, teremos sempre de ter em conta que um festival de tunas envolve muito espírito académico. Tudo passa por sair e estar com outras tunas. Isto seria, provavelmente, a maior vertente a repensar.
A esse propósito, é sabido que as tunas são conhecidas pelo seu forte espírito e tradição académica. Sentem que têm conseguido mantê-los ou temem que estes se encontrem enfraquecidos?
Dentro da Legislatuna, temos conseguido mantê-los bem. O facto de termos, atualmente, uma Tuna mais pequena também nos permite estar mais vezes juntas. Organizamo-nos melhor e isso ajuda a manter o espírito. Comparativamente com outros grupos académicos, temos uma atividade acrescida por termos de impor um espírito académico, enquanto socialmente distanciadas. Isso é muito complicado, mas creio que o temos conseguido fazer. Entre as diferentes tunas, a situação é diferente. Não tem havido o mesmo convívio de antes, o que nos entristece.
O interesse pela Legislatuna mantém-se igual aos anos anteriores, ou houve alguma quebra?
O espírito da Legislatuna é difícil de transmitir em tempos conturbados como este. No entanto, temos tentado mantermo-nos próximas das novas alunas. Ainda não fizemos audições este ano, portanto não conseguimos avaliar com precisão se a adesão se mantém, mas garantimos que temos feito muito por isso. Em princípio teremos duas fases de audições e, quem o desejar fazer, seja de que ano for, é sempre bem vindo.
Como se realizarão as vossas audições?
Os moldes serão diferentes. Não conseguimos, como em anos anteriores, colocar toda a gente numa sala e fazer audições presenciais. No entanto, reparo que as pessoas estão com muito mais vontade de sair, de fazer parte de um grupo, de explorar essa vertente da vida académica. Tudo isto porque viram essa oportunidade privada. Este desejo crescente faz com que nos mantenhamos otimistas. A vontade humana ultrapassa qualquer obstáculo.
Por fim, se, na qualidade de Magister, fosses ao reportório da Legislatuna escolher uma música que simbolizasse este ano de 2020, qual escolherias?
Pão P’ra Multidão. Esta música revela o espírito de luta, o seguir em frente. É a representação da solidariedade que temos vivido. Esta música enquadra-se muitíssimo bem na atual situação pandémica.

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