EUROBARÓMETRO: não se olvide uma base de dados sincrética e real
- Bruno Martins
- há 13 horas
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A contemporaneidade consubstancia-se, cada vez mais, como um período de ruturas fortes, indefinições, alheamento, e conjugação de um ardil binómio de pluralidade e individualismo. Com a ausência de lideranças capazes e fortes, sem exceder os ditames da ponderação, da democracia, e da inclusão, sem transigir nas normas da representação maioritária, da liberdade responsável em oposição à libertinagem, nem incorrendo nas tentações do sectarismo social, económico, ou etário, torna-se um hercúleo exercício de sociologia política a compreensão das pretensões dos eleitores – sobretudo num momento de constante crise política, e anomia social, como aquele de que somos parte.
Há, todavia, a ideia, mais ou menos clarividente, de que a democracia liberal (com a representação partidária que lhe é inerente) atravessa um período de hipercriticismo e, com ela, ensombrece-se o Estado-nação. Sabemos, ainda, que a política, na visão de uma “relação entre governantes e governados”, como a descreve Freitas do Amaral na sua História das Ideias Políticas, assume, hodiernamente, contornos muito mais difusos do que os que pautaram o século XX; e podemos afirmar saber, além disso, que o país, a condição social dos eleitores, a idade e uma multitude de fatores que poderíamos elencar já não constituem cumulações de um personagem-tipo com um desempenho eleitoral previamente esquematizado e, por isso, uniforme. Vemos, então, um crescimento inaudito do confronto entre movimentos progressistas e conservadores, revisionismos históricos e nacionalismos exacerbados, àa reivindicação da exclusão social por aqueles que foram outrora alvo da bonomia e do dever moral de inclusão por parte de outrem, e assim sucessivamente, até ao abandono da filial representação da classe trabalhadora por determinados setores político-sindicais, entre outras dissidências hoje conhecidas.
Aqui chegados, vimos, no rescaldo do processo eleitoral norte-americano, o senador Bernie Sanders fazer o canto de Verónica aos passos do demoliberalismo e, numa análise mais profunda, da social-democracia (no caso europeu) rumo ao cadafalso – e talvez assim seja, se não se retiver a sua mensagem de recentramento político literal, de uma relação quase simbiótica e permanente com a população, bem como de uma representação quase por transposição das suas prioridades quotidianas no ideário político em aplicação e não a inversa imposição de ideias que, por força de uma aprovação maioritária, condicionem a vida de quem, elegendo-o, se submete ao poder político.
E é talvez pelo reconhecimento de que o que supra se mencionou seja uma realidade que importa chamar à discussão o resultado recentemente revelado do Eurobarómetro, na sua vertente de inquérito aos jovens europeus (fevereiro de 2025), uma base de dados com atinência à realidade, que baliza o posicionamento das pessoas perante o fenómeno político que, em virtude dessa adesão ao modus vivendi dos inquiridos, assim como das suas condicionantes mais prementes, a par de um sincretismo de dados ímpar, não deve ser olvidada nem preterida por lógicas de revolução social/cultural, taticismos político-partidários ou imposições ideológicas, a bem da prorrogação da estabilidade e do sistema político vigente na Europa e no ocidente democrático.
Sem proselitismo algum, ou pruridos ideológicos debrucemo-nos, então, sobre “aquilo que realmente importa” às pessoas:
Os dados recolhidos elegem como prioridade política o aumento de preços, ex vi os conflitos bélicos e a inflação, traduzido num aumento do custo de vida, seguido das alterações climáticas, a criação e manutenção de emprego (o combate à precariedade ínsito), e, ainda, da educação e formação – compreende-se pois que verbos de encher, utopias, e arreigadas ambições perdem terreno por força da imperatividade com que se coloca a sobrevivência, a melhoria da qualidade de vida familiar, e ainda a sustentabilidade enquanto garantia de futuro para o indivíduo e os seus descendentes.
Por outro lado, menos animadora se apresenta a resposta à questão relativa a fontes de informação privilegiadas, com as redes sociais e os media a ocupar um lugar hegemónico, gerando dicotomias de acesso face à tirania dos algoritmos, o que impõe o debate da regulação deste território híbrido por parte dos Estados, com o contrapeso dos direitos fundamentais e da liberdade de expressão, evitando repetir casos como o Chinês, Russo, entre outros. Ainda neste sentido, cerca de 15% dos inquiridos afirma-se consciente da sua exposição à desinformação e preocupado com a qualidade da informação que recebe, fruto de campanhas contra as designadas Fake News, a par da consolidação do pensamento crítico.
O motivo da concessão do voto representativo a um partido aquando do último ato eleitoral – a comunhão de ideias – embora já esperado, pela natureza do comportamento sociopolítico é, também, revelador de um entrincheiramento e da falta de visão que torne competitiva a vida política, pela concorrência de ideias que faça mover verdadeiramente a placa de eleitorado móvel.
Em suma, a priorização da estabilidade económica, das condições de habitação e de uma manutenção do Estado social induzem a um movimento de subducção das designadas causas fraturantes, não irrelevantes, mas que apenas colhem disponibilidade para discussão por parte dos cidadãos, após um processo garantístico da anulação de preocupações de sustentabilidade económica, precariedade laboral, mesmo insegurança e condições de educação e progressão social dos seus dependentes.
São ainda colocadas no barómetro referido questões relativas à abstenção e alheamento político-partidário, cuja resposta se evidencia reveladora da resolução desta panóplia de tópicos essenciais à predisposição do indivíduo para a discussão política e à inerente preocupação com o outro, o bem-comum e a causa pública. A clivagem entre esta ausência de respostas por parte dos Estados, o descontentamento já considerado crónico com a errónea representação política, a descrença nas utopias que se digladiaram no último quartel do século XX, e no campo da moderação social-democrata e do socialismo, a falha evidente da designada terceira via dá ensejo à tração dos populismos que grassam um pouco por todo o globo, fazendo de 2024 o primeiro ano, em análise, com mais autocracias do que democracias no mundo, segundo dados do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral, após 8 anos consecutivos de queda do demoliberalismo.
Bruno Martins
Departamento Sociedade
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