A música pop é uma constante que já domina o mundo da música mesmo antes da viragem do século. Já interpretado por artistas cujo nome será para sempre lembrado — pense-se em Madonna, Michael Jackson e tantos outros —, certamente já teve os seus altos e baixos. Porém, o que devemos entender é que nem todo o pop produzido tem uma sonoridade específica e, desde a década de 2010, podemos notar uma tendência para os artistas principais deste ramo cada vez mais nele incorporarem elementos de diferentes estilos musicais, o que faz do pop um género musical verdadeiramente eclético.
Se recuarmos precisamente ao início da década passada, temos, no topo, nomes como Katy Perry, Lady Gaga, Rihanna, entre outros cantores que estiveram por trás dos maiores hits da época. Começámos estes anos com um pop dançante, influenciado pela produção mais energética, característica da EDM — o que era visível em álbuns como Talk That Talk (Rihanna, 2011), de onde surgiram hits como We Found Love e Where Have You Been. Para estes ritmos, foram criados os refrões mais inesquecíveis, como quando Katy Perry nos fez sentir eternamente jovens em Teenage Dream (2010) ou quando Lady Gaga nos levou a celebrar quem somos em Born This Way (2011).
Podíamos também falar, no que se refere ao pop cheio de energia, de obras como 1989 (Taylor Swift, 2014) ou Unorthodox Jukebox (Bruno Mars, 2012), que também nos deixaram vários hinos para a eternidade e que verdadeiramente são simbólicos de uma era. Mas, se temos esta vertente, também não nos podemos esquecer das baladas melancólicas criadas no seio deste género musical. De facto, uma simples música tocada apenas ao piano tem tudo para ser bem-sucedida — basta ter uma composição que permita às pessoas identificarem-se com o que é dito e que seja fácil de aprender a cantar. Assim o fez Adele com os seus álbuns 21 (2011) e 25 (2015), bem como John Legend quando lançou o clássico da sua carreira All of Me (2013). Também merece destaque neste domínio Sam Smith, por êxitos como Stay With Me (2014) e I’m Not The Only One (2014). Ao longo da década de 2010, também foram emergindo artistas como Billie Eilish, Lana Del Rey e Melanie Martinez, que, por meio de visuais invulgares e estranhos, vieram arrepiar milhões de fãs, conferindo ao pop um lado sombrio e vulnerável.
No final da década, o estilo trap ganhou grande visibilidade na indústria da música e isso também se repercutiu no mundo pop. Ariana Grande foi uma artista que incorporou este elemento de forma muito clara nos seus álbuns Sweetener (2018) e thank u, next (2019), tornando-se ambos projetos de grande importância na sua discografia e no panorama musical global.
A entrada na década de 2020 introduziu o início de uma nova era do pop, marcadamente voltada para a nostalgia. A inaugurá-la, tivemos The Weeknd, com o seu fenómeno Blinding Lights (2020), onde os sintetizadores tão característicos da música dos anos 80 se tornam os protagonistas. No mesmo ano, Dua Lipa lança o seu segundo álbum, Future Nostalgia (2020), uma verdadeira ode à música disco, o que é visível através da incorporação de elementos como as linhas de baixo, à moda do funk. Temos ainda Doja Cat, que, através da sonoridade tão típica dos anos de 1970, incorporada no seu hit Say So (2019), alcança popularidade a nível mundial, e vem a lançar juntamente com SZA, um outro sucesso, Kiss Me More (2021), que usa como sample o clássico de Olivia Newton-John, Physical (1981), tornando-se uma das maiores músicas do verão de 2021. Nos anos seguintes, a tendência continuou por força de artistas como Harry Styles [cfr. As It Was (2022)], Chappell Roan [cfr. The Rise And Fall of a Midwest Princess (2023)] e Sabrina Carpenter [cfr. Short n’ Sweet (2024)].
A música pop atual torna-se tão mais interessante quanto maior é a liberdade dos artistas de nela experimentarem introduzir novos sons. Olivia Rodrigo tem vindo a destacar-se pelas suas letras intimistas interpretadas sobre instrumentais inspirados no grunge e no punk-rock, como podemos ouvir no seu álbum GUTS (2023). Miley Cyrus demonstra, também, uma grande versatilidade, saltando do rock ousado de Plastic Hearts (2020) para o dance-pop mais descontraído de Endless Summer Vacation (2023). Do mesmo modo, podemos falar de Charli xcx, que, através do seu álbum BRAT (2024), deu nova vida ao electropop e criou um movimento que marcou o verão do mesmo ano — o BRAT Summer.
Por fim, não podemos deixar de referir Tyla, que, com o seu álbum de estreia autointitulado [cfr. TYLA (2024)], veio introduzir no cenário pop os ritmos animados de África do Sul, trazendo o Amapiano ao mundo ocidental. O sucesso do álbum e dos seus singles conferiu-lhe, inclusive, a possibilidade de submeter o seu trabalho para concorrer nos Grammys nas categorias destinadas à música pop, o que abre um incrível precedente para que outros artistas internacionais dedicados ao mesmo tipo de música possam ver as suas obras devidamente reconhecidas pela Recording Academy of the United States.
Assim, na última década, temos assistido a uma tremenda evolução do pop a nível mundial, com as linhas-mestras deste género a ser constantemente redefinidas pelos artistas que têm a coragem e a visão para o fazer. É muito para acompanhar, mas, enquanto ouvintes, apenas podemos aguardar com entusiasmo tudo o que ainda está por escutar.
André Mota
Departamento Cultural
Comentarios