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À conversa com Francisco Stone: O labor da Arte

Foto do escritor: José Pedro CarvalhoJosé Pedro Carvalho

Francisco Ferreira, cujo nome artístico é Francisco Stone, é um jovem ator português e, apesar de  o conhecer há bastante tempo, vejo que existem perguntas cujo teor qualquer redator do Tribuna deveria, eventualmente, colocar aos seus amigos num fórum público como este. 


 Figura 1. Fotografia de Francisco Stone
 Figura 1. Fotografia de Francisco Stone

Francisco formou-se na Academia Contemporânea do Espetáculo (“ACE, Escola das Artes”) do Porto, tendo já trabalhado em peças de teatro, feito dobragens para videojogos, como Horizon Forbidden West e, inclusive, tendo participado na série Morangos com Açúcar. É oriundo do Marco de Canaveses, tem 21 anos, adora tocar teclado e guitarra, pratica regularmente desporto físico, quiçá devido a um amor desmedido aos filmes do Rocky, e, como a maioria dos que nos leem, está a passar pelas tribulações do início da idade adulta. Suspeito que não sejam tão diferentes daquelas que assolam o resto dos mortais, mas deixo isso a vosso critério. 



Figura 2. Francisco Stone em Morangos com Açúcar, disponível no Prime Video 
Figura 2. Francisco Stone em Morangos com Açúcar, disponível no Prime Video 

  1. Não só de destreza natural se forma um ator. É preciso um trabalho extensivo de crítica e de reflexão. Como é que encaras a atuação: é perspetiva ou é ofício? É uma ferramenta ou parte integrante de ti? 


“O trabalho de ator é tanto perspetiva, como ofício. Um não consegue viver sem o outro. É construção e desconstrução. No fundo, são todas essas palavras e diversão que o trabalho assim exigir! Não sei se algum dia vou chegar a um consenso interno na questão de saber se o teatro interpreta a vida ou é uma extensão da mesma. Honestamente, acredito mais na segunda. Acredito que uma parte de estares vivo é aceitares que és um estudante perpétuo do que amas. Levo para a minha vida o que levo para o palco, e tiro de um palco novas lições e experiências que me levarão a outro palco e por aí fora”.


  1. A arte é algo que nos desafia, que nos impulsiona. De que forma é que ela já te desafiou dentro e fora dos palcos? 


“Quer seja num palco, num estúdio, quer seja à frente das câmaras, o que fazes é trabalho. E se o que fazes é trabalho, então, não é tanto a arte em si que me desafia, mas sim as minhas características individuais a trabalhar em determinada coisa. Não estou a dar uma de político e fugir à questão: conheço-me ao ponto de saber que a arte é “mais uma base” que me acompanha diariamente. O que realmente me desafia é o meu nervosismo periódico ou a minha exigência e autocrítica constantes. Tudo isso faz parte de mim, e, sinceramente, a arte é só um pequeno impulso dentro e fora do trabalho. Se calhar, a verdadeira arte são os impulsos que temos pelo caminho”.


  1. No fundo, Hollywood é uma cultura viva de pessoas. Nas produções em que participaste, sentes esse espírito de comunidade sui generis?


“Na esmagadora maioria dos casos, de facto, sentes um grande senso de comunidade. Quando me estava a formar, fazíamos vários espetáculos ao longo do curso e o senso de “comunidade” que sentia era derivado de um ambiente escolar. Não era a mesma coisa, há uma avaliação, há uma turma, professores e diferentes níveis. É escolinha, pronto. 

De repente, fazes o teu primeiro trabalho e, se não fores azarado, o mais provável é que vais chegar a um ensaio de manhã e vais ver os técnicos a beber um café ou a fumar com a restante equipa a rirem-se de uma piada qualquer. Há abraços longos, feedback e até dias exaustivos e calados em camarins, quer seja por cansaço geral, quer seja por um ensaio menos agradável. 

De repente, chega o dia da estreia, ou o fim do projeto, e o que não faltam são choradeiras, beijos, cartas e presentes entre a equipa. Houve um processo, e, pelo processo e pelo resultado, surge a gratidão. Não posso dizer palavrões, mas vamos só dizer que é bonito”.


  1. Como é que um jovem ator navega a entrada no mercado de trabalho? Ou, melhor dizendo, o que é que terias perspetivado de diferente para facilitar essa nova fase? 


“A melhor parte deste nosso “diálogo” é ter a noção de que ainda estou a subir e aprender, que sou um estudante perpétuo da arte e da minha voz. Sendo assim, faço parte da grande percentagem que está a procurar e perceber como é que vai fazer acontecer. 

O processo é simples: proatividade e deixar a tua pegada em cada trabalho, por mais pequeno que ele seja. Então: sais da formação (se a tiveres) e podes escolher continuá-la, ou saltas para a procura através de inscrições em agências, trabalhos freelance, etc. Ora, independentemente do que acontecer, é pouco provável que uses o Linkedin para alguma coisa neste contexto… Mas vais ter de ter um currículo, vais ter de saber escrever uma nota biográfica, vais ter de saber escrever um e-mail

Workshops, castings online, castings abertos, castings de agências, fotografias, registos de voz: são precisos todos estes elementos palpáveis e objetivos, mas com um complemento muito importante… Não quero parecer romanticamente ingénuo — daí ter começado com a questão prática da coisa —, mas só com o teu espírito único do que amas e a tua curiosidade, o que consomes, a tua imagem (seja ela carismática ou intensa), é que vais reparar que a tua pegada vai sendo verdadeiramente deixada e a tua bagagem vai-se recheando de experiências e pessoas. Eu acredito nisso.

Por isso, apaixonem-se também e vejam a vertente prática e a emocional. Façam sites ou partilhem o que sabem fazer e gostam. Façam vídeos, leiam e toquem. O que quiserem; se quiserem. Abracem a coragem de não perder o espírito e o amor. Sei bem que a paixão não deve guiar cegamente tudo o que fazes, mas não é um mero ponto de partida. É uma constante”.


  1. O teu ramo de atividade é extremamente romantizado. Como é lidar com as expectativas que gera naqueles que estão ao teu redor? 


“Numa peça de teatro, ou em câmara, há uma pesquisa e um estudo intensivo do objeto a ser explorado. Há horários, há suor, há dúvidas, atrasos, stress com transportes públicos. Acho que as minhas inseguranças são as mesmas que 90% dos jovens que procuram algo. 

Hoje em dia, não me deixo levar por expectativas ou pressões exteriores. Sei no que me estou a meter, mas também sei que, quando és mais novo e começas a entrar no ramo, dás por ti rodeado dos dois lados da moeda. O primeiro é a tal romantização, a tal ingénua fantasia de “Oh, wow, um casting? Que engraçado! É para uma novela da SIC?!”. Por um lado, percebes o encanto para quem está de fora. É algo que pode ser distante para a pessoa e está tudo bem. Mas, aí entra o outro lado da moeda, onde esse “engraçado”, muitas vezes, pode vir de um lugar paternalista de quem vê aquilo que parece ser um trabalho pouco digno de esforço ou quase de nicho. É uma condescendência automaticamente ligada ao ramo, como se não fosse legítimo, ou possível, pelo menos, tentar trabalhar e fazer algo. Claro que nem sempre vem de um lado cruel, mas sim preocupado. 

Afinal de contas, a nossa grande meta para o investimento cultural do Orçamento do Estado é por volta do 1%. É uma luta que continua, complicada, mas uma luta, assim como muitas outras de extrema importância. E a propósito disso, vejo testemunhos suficientes para alertar que a romantização nada faz, ou de pouco ajuda, os vários casos e movimentos de come out de vítimas de assédio no meio artístico. Esses movimentos têm acontecido através de meios comunicativos, jornalísticos e em plataformas como Telegram e páginas no Instagram (@weneedtoknowpt), fomentados por vítimas e profissionais habilitados nessas matérias. Acontece no “palco” e há de acontecer em escritórios ou onde quer que seja a indústria que ambicionam pertencer, e, portanto, façam-se ouvir, se assim sentem que devem. Não há romantização que tire voz.



Figura 3. Fotografia de Francisco Stone
Figura 3. Fotografia de Francisco Stone


  1. Que obras te impactaram enquanto alguém que não só admira a Sétima Arte, mas que ambiciona ser um ativo participante nela? 


“Eu sou o que amo e quem amo. Estando a viver ou a trabalhar em algo, dou por mim a usar micro-referências de coisas que gosto, por mais parvas ou insignificantes que elas pareçam. Gosto de fazer progressões de acordes e experimentar no piano, o que só me é possível a ouvir figuras como o Roy Ayers (RIP), Erykah Badu, Quincy Jones (RIP), ou Tyler, the Creator. Gosto de experimentar o riso de personagens cartoon, como de One Piece. Gosto de escrever em sites e usar palavras e expressões que leio em livros (Afonso Cruz) ou que vejo em filmes (Tabu de Miguel Gomes ou Before Sunrise de Richard Linklater). Em ensaios, gosto de me vestir e usar a fisicalidade de diferentes formas de entretenimento, que não só o teatro tradicional ou cinema, mas também as suas extensões, como Kabuki Theatre, Wrestling Profissional e afins. 

Em tempos, era-me difícil aceitar ser tão polivalente, tanto como profissional, tanto como fã de coisas, mas, atualmente, parece-me ser uma mais-valia. O que não faltam são pessoas com várias paixões. Gosto de coisas. É o que é”.


José Pedro Carvalho 

Departamento Cultural

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