A comercialização da música – uma paisagem monocromática
- Maria Queirós

- há 5 dias
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Nos últimos vinte anos, sensivelmente, a evolução tecnológica tem moldado significativamente a forma como se faz música. Se, no passado, produzir uma canção exigia estúdios, equipamentos caros, instrumentos, processos complexos de gravação e técnicos de som, hoje basta (mas não digo que seja aplicável a todos os músicos da atualidade) um computador, um software de produção e alguma vontade. A expansão da acessibilidade do ato de criação musical traz voz a inúmeros aspirantes a artistas e levou a um aumento exponencial do número de autores musicais, bem como ao surgimento de uma produção musical em larga escala.
Em princípio, este crescimento do mundo musical deveria refletir uma maior diversidade de sonoridades – mais ideias, mais abordagens, mais géneros. Para além disso, e como consequência da globalização, seria igualmente expectável um diálogo entre culturas ou, pelo menos, uma maior divulgação de géneros típicos de cada região – o fado, no caso português. Porém, em vez de assistirmos essa novidade e interação, aquilo que observamos no panorama mainstream é precisamente o contrário – uma homogeneização da música. É como se as ideias e diferentes musicalidades, por serem tantas, se anulassem, dando origem a um som monótono.
Acredito que uma das causas desta uniformização resulte da ascensão de plataformas como o TikTok e o Instagram, que muitas vezes (e, para ser honesta, cada vez mais) promovem conteúdo em formato curto, geralmente limitado a 15 segundos. Ora, esse conteúdo precisa de ser apelativo e, de certa forma, hipnotizante, o que nos deixa com um algoritmo que apenas promove músicas com trechos cativantes, imediatos e facilmente reconhecíveis, propícios a serem usados nas chamadas trends. Como consequência, a ambição de muitos artistas e produtores passa de ser a criação de músicas coesas e envolventes do início ao fim, à criação de momentos que “vendem” nas redes sociais.
Contudo, não se trata de falta de criatividade. Com um crescimento tão significativo do número de artistas, é inevitável a existência de mentes inovadoras, ouvidos apurados e novas paisagens sonoras. O problema reside no que o mainstream e a indústria musical promovem e privilegiam, que consiste naquilo que vende mais rapidamente e com o menor risco associado, gerando uma tendência repetitiva, familiar e de fácil processamento mental. E esta realidade não está longe de ser constatada: basta olhar para o cartaz de um festival com maior reconhecimento, ligar as rádios de maior alcance, ou, até mesmo, entrar nas próprias redes sociais – a trilha sonora é a mesma.
Com isto, de longe quero dar a entender que há algum mal na existência deste novo género pop, que logicamente, tal como todos os outros géneros, tem o seu lugar na esfera musical e satisfaz necessidades reais. Aquilo que considero grave e preocupante é a substituição, quase na totalidade, das restantes formas de expressão que não se enquadram no modelo de consumo rápido da música. A criatividade e diversidade não morrem sozinhas, é a falta de visibilidade que as mata.
Refletir sobre esta ideia da música enquanto mercadoria não é um mero capricho, mas uma forma de nos consciencializarmos de que a forma como consumimos música tem vindo a provar a perda da sua função enquanto expressão emotiva, narrativa e identitária dos artistas.
Maria Queirós
Departamento Cultural




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