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O segredo das coisas

  • Foto do escritor: Vicente Correia
    Vicente Correia
  • 17 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

E é outra vez dezembro. Há qualquer coisa neste mês que me leva a Nova Iorque, apesar de nunca lá ter estado. Uma certa melancolia que associo a esta altura do ano, e que ligo à cidade do Woody Allen, da Patti Smith, do Leonard Cohen. Eles são uma espécie de rosto da nostalgia que me (nos?) invade nesta época. Ou então é só o reflexo da hegemonia da cultura americana nas nossas vidas. Prefiro acreditar na primeira. Mas não são só eles. Ando a ler “Os Passos em Volta”, de Herberto Hélder, e parece que só nesta altura o poderia ler. Compreendo-o melhor- talvez o frio e a chuva ajudem. Afinal é ele que o diz enquanto ama: “Choveu sempre. Sentíamos a chuva sobre a terra inteira. Éramos invencíveis”. 


Em “Famous Blue Raincoat”, Leonard Cohen canta a determinada altura: “New York is cold, but I like where I’m living”, na canção que é uma carta ao homem que o traiu com a sua mulher. O homem a quem ele chama “my brother, my killer”, alguém profundamente próximo e que, no entanto, destrói qualquer coisa de forma irreparável. Cohen nunca o acusa diretamente, não existe nele qualquer desejo de vingança (“I guess that I miss you, I guess I forgive you/ I'm glad you stood in my way” - “Acho que sinto a tua falta, acho que te perdoo/ Estou feliz que tenhas entrado no meu caminho”). Não o culpa, não o odeia, mas também não o perdoa. Há uma postura de reconhecimento da dor, mas também de desapego, e de aceitação de que, talvez, a culpa não esteja em ninguém quando o amor acaba. Quando canta “If you ever come by here, for Jane or for me/ Well your enemy is sleeping, and his woman is free/ Yes, and thanks, for the trouble you took from her eyes” (Se um dia vieres aqui, pela Jane ou por mim/ Bem, o teu inimigo está a dormir e a mulher dele está livre/ Sim, e obrigado, pelo ar de preocupação que tiraste do olhar dela), Cohen atinge um nível tal de desprendimento e até de gratidão pela traição, que me custa a acreditar na sinceridade desta carta. Talvez esta seja a carta que ele gostava de ter recebido. Talvez fosse ele quem tivesse traído. Será ele o homem da gabardine? Não passam de suposições minhas, talvez por ser difícil para mim reconhecer que alguém chegou a este nível de desapego, em que é possível esquecer essa coisa do ego. Não sei se estou certo. Isso também não interessa. O mais importante é a canção, e essa fica, superando o abismo do tempo. 


Tal como a Nova Iorque do Woody Allen, são indissociáveis, ele não existe sem ela, e suspeito que ela não exista sem ele. Allen criou a sua própria cidade nos seus filmes, até ao ponto em que não conseguimos separar uma da outra: a real e a cinematográfica. Misturam-se, complementam-se e transformam-se uma à outra. Na real, estamos sempre à procura da de Allen; e na de Allen, a tentar decifrar a real. Talvez não haja distinção possível, e isso é que distingue Nova Iorque do resto das cidades. Ela está em “Annie Hall” e em “Manhattan”. A idealização da cidade como espaço de liberdade, de encontros, de cultura, mas onde é evidente a solidão que acompanha as pessoas. Woody Allen, o neurótico, inseguro, obsessivo que “aspira ao amor” (como escreve Herberto), tem medo da intimidade e usa o humor como forma de defesa. Estes filmes falam-nos das relações humanas no meio do caos urbano e da distância entre aquilo que dizemos e o que queremos dizer ou fazer, como naquela cena inesquecível de Annie Hall onde vemos os diálogos reais e os pensamentos dos dois amantes, e como uma coisa não coincide com a outra. Quantas vezes passamos por isso nas nossas vidas? Vezes a mais, talvez. 


É também nessa Nova Iorque que anda Patti Smith, a mulher que não sabe conduzir, e caminha, ou usa os transportes públicos para se mover por ali, de gorro ou de chapéu na cabeça, casacos e t-shirts largas, um livro e, por vezes, uma câmara fotográfica. De preferência de metro, nas várias linhas que atravessam a cidade e que formam os caminhos dessa gente anónima que se cruza todos os dias sem reparar umas nas outras. A cidade - essa grande construção humana onde se juntam pessoas tão diferentes, que quase nunca se tocam nem se veem, mas que partilham o mesmo pedaço de terra. Patti Smith chama de “casa” a essa Nova Iorque onde encontrou gente que marcou a sua vida, os poetas do movimento Beat, e os músicos que com ela iniciaram o Punk. Foi lá que se libertou da província, com os seus preconceitos e estigmas, e se tornou na mulher que todos conhecemos: a cantora, poeta, artista plástica e escritora. Ela, a mulher que anda ao frio pelas ruas de Manhattan, com os amigos (agora poucos, porque muitos já se foram embora), ou nos cafés, com um bloco de notas, a escrever sobre aquilo que foi, quem encontrou e quem é. Em “M Train”, diz-se uma “mulher comum”. No comum, conseguiu o extraordinário. No comum da cidade, fez-se eterna. De gorro e com o café na mão, saiu de Nova Iorque, e é do mundo. 


Eterna como Herberto Hélder, cuja obra já transcendeu os limites do tempo, e é ele próprio que o reconhece quando escreve: “é na morte de um poeta que se principia a ver que o mundo é eterno”. Nesse lugar de “paixão e silêncio” que construiu ao longo dos anos, e que o tornou uma espécie de eremita envolto num certo misticismo, ergueu uma obra poética que o distingue dos demais. Em 1994, venceu o Prémio Pessoa e, recusando, respondeu o seguinte: “Não contem a ninguém e deem o prémio a outra pessoa”. Era o homem que rejeitava a exposição pública, não se deixava fotografar, e não dava entrevistas. Por isso, permanece obscuro, na personalidade e na divulgação da sua poesia. Na era da superficialidade e da hiperexposição pública, ler Herberto é entrar em contracorrente. Entremos, então. 


Este dezembro, fui entrando devagar, como um estranho que vai apalpando lugar desconhecido, e fui-me reconhecendo nele, nas suas fragilidades e contradições. Na sua prosa poética, que é como um fluxo de água, não para, faz-nos caminhar pela sua existência (que é também a nossa) nesses passos à volta da Europa (França, Holanda e Bélgica), que são, na verdade, os passos à volta de si mesmo. Num desses textos, termina dizendo “morrerei como se fosse numa retrete de Paris - só, com a minha visão, o pressentido segredo das coisas”, quando antes tinha escrito que “levava tudo para a retrete: o amor, o terror, a grande cidade, o anjo da guarda com quem atravessara o bairro atulhado de putas”. O poeta que experimenta e absorve tudo - o amor, o medo, o urbano, o místico, mas que apenas pressente. Não sabe o que move as coisas, porque há sempre qualquer coisa que permanece incompreensível e indecifrável. Escrever é o que lhe resta. E a nós, ler, reler e redescobrir (-nos) continuamente. 


É, enfim, dezembro, e há algo em mim que me leva, outra vez, a Leonard Cohen, a Woody Allen, a Patti Smith e a Herberto Hélder. E, por ordem, encontro (ou tento decifrar) o amor, o medo, o urbano e o místico. No frio de dezembro, numa noite de insónia, com eles a “vislumbrar a confusa maravilha do mundo”.

Vicente Correia

Departamento Cultural

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