A Exaustão como Virtude
- Leonor Mendonça
- 30 de nov. de 2024
- 2 min de leitura
Nos corredores das universidades, nas reuniões de trabalho e nos fóruns virtuais, a frase "Estou a sobreviver" tornou-se um refrão contemporâneo. Exprime o sentimento de uma geração que vê a sua energia drenada e os seus dias consumidos numa espiral de produtividade incessante, onde o cansaço crónico e a exaustão parecem o preço a pagar pelo valor social e profissional. Mas como chegámos a este ponto, em que a dignidade parece mediada pela capacidade de suportar o desgaste?
Para compreender este fenómeno, é útil recorrer a Max Weber, que explorou a relação entre a ética protestante e o espírito do capitalismo. Segundo ele, o capitalismo industrializou não apenas o trabalho, mas a própria ideia de realização humana, enraizando a noção de que a virtude se encontra na disciplina e no sacrifício. Se, nos primórdios do capitalismo, a moralidade estava associada ao trabalho árduo como um fim em si mesmo, hoje, na era do capitalismo avançado, esta ideia adquiriu contornos quase patológicos, onde o esforço incessante é um requisito para sobreviver num mercado saturado e volátil. O resultado é um ciclo de superação que aprisiona as pessoas numa demanda constante e insaciável por mais produtividade.
O "burnout", diagnosticado hoje com uma frequência inédita, não é um mero problema de gestão pessoal de tempo, mas o reflexo de uma estrutura que promove a exaustão como virtude. A meritocracia, que, em tese, deveria ser o caminho para o crescimento social e pessoal, acaba por funcionar como uma ideologia que encobre as desigualdades estruturais, permitindo que o sistema se isente de qualquer responsabilidade pelos danos psicológicos que provoca. A verdadeira liberdade não reside apenas na escolha do que fazer, mas na possibilidade de ter tempo livre para pensar, criar e existir para além da esfera produtiva. Mas, num modelo onde a produtividade define o valor do ser humano, esse tempo livre é cada vez mais escasso, e, muitas vezes, culpabilizado.
Para quebrar este ciclo, não é suficiente lutar por medidas paliativas ou melhorias pontuais nas condições de trabalho; é preciso questionar a própria noção de produtividade como fim último. Precisamos de políticas que incentivem uma "revalorização do tempo", onde o valor da vida não se esgote na contribuição económica de cada um. Isso exige repensar a própria estrutura social que orienta as nossas aspirações e que redefine o trabalho, não apenas como um meio de subsistência, mas como um campo de desenvolvimento humano que respeite os limites físicos e mentais do indivíduo.
É imperativo, portanto, revisitar a ideia de dignidade numa sociedade que esgota os seus membros em busca de um crescimento perpétuo. A nossa geração é, sim, a geração do “eEstou a sobreviver”, mas também pode ser a geração que recupera a noção de que viver vai além de produzir – um conceito que vale a pena defender numa era que tanto promove a produtividade, mas que tão pouco se preocupa com o humano por detrás dela.
Leonor Mendonça
Departamento Crónicas
Komen