Dungeons and dramas
- Madalena Almeida
- há 6 dias
- 2 min de leitura
Acredito que falo por todos quando digo que, quando se trata de eventos históricos, prefiro muito mais estudá-los do que vivê-los. Afinal, temos vindo a lidar com tensões geopolíticas que têm feito o mundo tremer mais do que o habitual (quiçá seja por isso que se vêm a verificar aumentos da atividade sísmica). Quando for a vez das gerações vindouras olharem para os seus livros de História com o mesmo ceticismo que nós olhávamos, sem dúvida, partilharemos a opinião do quanto tudo isto parece irreal.
Algures entre crises económicas e sociais e sorrisos amarelos, os líderes mundiais conseguiram a proeza de retroceder todo o progresso conseguido graças à cooperação internacional. Assistimos, novamente, a ideais de supremacia, a decisões que subjugam outros à vontade da nação que cada uma destas figuras representa. Mais ainda, deixam para trás os acordos de paz, em prol de qualquer vantagem sobre os adversários, como se de uma caótica brincadeira, em que cada um joga o que lhe convém, se tratasse.
Peças são movidas, peões são derrubados, cartas são guardadas junto ao peito e o mundo transforma-se num tabuleiro infinito, sustendo a respiração de cada vez que um destes líderes prepara a próxima jogada. Não existe um mediador, um mestre do jogo que controle as ações dos jogadores. Francamente, ele também não teria lugar aqui. Os jogadores veteranos têm uma dinâmica entre si e as suas próprias alianças. Assim, existe um mínimo de previsibilidade (afinal, enquanto tiverem inimigos comuns, é neles que a artilharia mira).
De facto, ninguém pode negar que temos, pelo menos, uma panóplia interessante de personagens: para lá do oceano, um burguês magnata, que se serviu de influência e persuasão para atingir uma posição de poder, cativando, com prosas excêntricas e instáveis, um povo que é tudo isso em dobro; na nossa vizinhança, um pseudo-imperador, alimentado por uma ambição histórica, que governa a sua nação com uma mão de ferro e um exército forjado do aço e do medo, insistindo no seu “projeto” de expansão. Ademais, viajando pelo mapa, mais perto do que gostaríamos, assistimos ao genocídio tenebrosamente eficiente de toda uma nação, com a desculpa esfarrapada de alicerçar-se na “justiça”. Até mesmo o nosso jardim à beira-mar não está isento de dramas. Afinal, certas figuras de poder, no auge da sua arrogância, resolveram tentar a sorte prostrando-se em falsa humildade à vontade dos seus iguais, quando confrontados com as suas transgressões (uma jogada de carisma que acabou por não funcionar como pretendido, surpreendendo um total de zero pessoas).
O povo - mero peão nesta brincadeira - vive numa constante ilusão de escolha e influência, quando, na verdade, o palco já está montado e os verdadeiros beneficiários de qualquer mudança já estão definidos. Tudo dependerá da mestria das jogadas e da sempre presente pitada de sorte dos verdadeiros participantes deste jogo de estratégia e sedução que é a política.
Que comece uma nova partida. Lancem os dados!
Madalena Almeida
Departamento Crónicas
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