Wokeness: bandeira ou calcanhar de aquiles da esquerda?
- Manuel Brito e Faro
- há 6 dias
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Desde as nossas infâncias, somos impelidos a discernir entre o bem e o mal, começando aí um caminho que nos guia até à maturidade e que, em determinada altura, nos força a olhar o mundo e a fazer escolhas sobre como queremos que ele seja. É nesse momento que muitos se afirmam como defensores dos direitos humanos e do progresso.Contudo, a insistente dialética que impera na política - a disputa entre esquerda e direita, entre igualdade e liberdade, entre nacionalismo e globalismo - trouxe uma grande resistência ao movimento que, aparentemente, marca a luta dos direitos humanos atualmente: a cultura woke.
Falar da cultura woke parece, às vezes, falar de tudo e de nada: de tudo, pois estão em causa tantos pontos de vista e submovimentos; de nada, já que a difusão deste termo levou à impossibilidade de o definir objetivamente, de encarar uma teoria ou um objetivo, em vez de um emaranhado deles. Poder-se-á dizer que quem utiliza este termo refere-se a uma consciência relativa à justiça social e racial, uma ambiguidade semântica que se reflete nas críticas ambíguas que recebe.
De facto, esta consciência social é hoje parte de uma batalha cultural claramente travada, de um lado, por conservadores - opositores da visão do mundo apresentada pela cultura woke - e, do outro lado, por um inimigo impreciso. Existe, efetivamente, uma lacuna identitária onde deviam estar os “wokistas”, devido à conotação depreciativa do termo. Até mesmo dentro da esquerda, que é frequentemente rotulada como tal, há divergências quanto à integração e aplicação deste recente fenómeno.
Sendo a esquerda historicamente defensora dos oprimidos, seria de esperar uma incontestável inclusão do movimento woke por parte dela; todavia, este é duramente criticado por muitos pensadores desse espectro político. Os motivos são vários e os argumentos extensos, mas defender-se-á, por parte de alguns, que o movimento woke parece abraçar abstratamente o pensamento de esquerda, desvalorizando os seus objetivos, a sua forma de encarar o mundo e a sua conduta. O que parece ser, à primeira vista, uma análise crítica e reflexiva da sociedade, revela-se, na verdade, um dogma desvirtualizado de qualquer pensamento crítico. Apesar de apoiar a sua análise em desigualdades existentes, ao nível, por exemplo, de classe, sexo e raça, os objetivos do pensamento woke são pouco claros. Ademais, o tribalismo é outro elemento que leva a muitas críticas, dada a tendência, dentro do movimento, para a compartimentalização de diferentes formas de opressão, o que se revela pouco produtivo com as bandeiras de esquerda (solidariedade e união).
A esquerda sempre teve - e ainda tem - uma especial ligação com a classe trabalhadora, porém, o crescimento da esquerda identitária afigura ameaçar esta relação tão essencial para a sua sobrevivência. Muitos autores têm afirmado que a esquerda tem perdido terreno para a extrema-direita, devido, precisamente, ao abandono das suas matrizes fundamentais. Os militantes de esquerda - tipicamente retratados como “outsiders” - são, no contemporâneo, acusados de compactuar com o inimigo preferido da extrema-direita - as “elites intelectuais” -, com quem, alegadamente, se organizam para “destruir os pilares da sociedade ocidental”.
A queda universal do comunismo e o desaparecimento da chamada “consciência de classe” levou a uma crise existencial da esquerda, crise esta que se baseia na questão mais simples para a sobrevivência de qualquer movimento político: como mobilizar as pessoas? Daqui parece ter nascido o foco nas questões de âmbito mais social, cujo teor tem sido criticado como exageradamente intelectual e, assim, pouco prático e afastado dos problemas da maioria das pessoas.
Seria, obviamente, ridículo e desastroso pedir à esquerda para abandonar o seu apoio àqueles ostracizados e discriminados. Não só isso, mas esta solidariedade é fundamental numa época em que, nacional e globalmente, se silenciam vozes marginalizadas e se reprimem direitos. A raiz do problema parece encontrar-se, em vez disso, na conduta seguida. A esquerda precisa de se reencontrar com o mortal comum, criar bases de diálogo, apostar no sentido de comunidade que teve durante tanto tempo - como o que os conservadores encontram na igreja ou na família – e, deste modo, reconstruir pontes com quem decidiu virar à direita.
O movimento woke parece ser um produto da esquerda, com quem a última tem uma grande dificuldade de assumir o parentesco. Se, por um lado, é possível argumentar que algo como a cultura woke é um conceito inventado para dar origem a uma guerra cultural, por outro lado, a esquerda deve ter coragem de assumir uma posição clara no assunto, defender-se de tais acusações e, acima de tudo, basear-se numa visão social e política que seja verdadeira para ela. Na realidade, não será este o momento perfeito para o fazer?
Manuel Brito e Faro
Departamento Crónicas
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