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A Glicemia da Alma

  • Sofia Machado
  • 14 de nov.
  • 2 min de leitura

Chegou novembro — o mês em que o mundo se lembra, por instantes, de uma doença que em mim nunca adormece. Veste-se de azul, proclama campanhas, repete slogans e, depois, é esquecida. Alguns precisam de datas para recordar; outros carregam a memória no corpo, sem calendário, nem férias programadas. Eu pertenço a esta última espécie: a dos que vivem sob vigilância discreta, onde o cuidado é rito, a lembrança é hábito e o diagnóstico se instala como uma forma de eternidade íntima.


Ter um diagnóstico de diabetes tipo 1 é descobrir que o corpo é a fronteira entre o humano e o matemático. Uma ciência secreta e solitária, com um léxico que se cola à pele: insulina, hiperglicemia, hipoglicemia, bolus… Palavras que deixam de ser médicas para se tornarem existenciais. A vida - outrora simples e espontânea - ganha fórmulas e coeficientes até então garantidos por um pâncreas funcional. No entanto, há uma ternura estranha nisto de saber como viver. A diabetes está sempre presente, mas nem sempre dói. Por vezes, limita-se a vigiar-me, como uma guardiã silenciosa que me recorda que viver exige atenção — uma coordenação quase invisível entre ciência, imprevisibilidade e sensibilidade. Sensibilidade esta que tardou em chegar.


Aceitar a diabetes foi uma viagem com várias paragens: negação, revolta, tristeza e, por fim, um acordo silencioso com a realidade. Houveram dias em que a doença parecia prisão, uma sombra a apagar a luz da espontaneidade. Houve noites em que o desânimo ameaçava tomar conta, e o cansaço físico e emocional se acumulavam numa espiral desconhecida de exaustão. Todavia, lentamente, aprendi que aceitação não é resignação — é liberdade. Numa palavra, é reconhecer que o corpo tem limites, que o controlo é imperfeito e que a vida continua, com a sua beleza e fragilidade entrelaçadas.


Não poucas vezes, senti o peso do desconhecimento alheio, traduzido nas palavras simplistas que reduzem a diabetes tipo 1 a “não comer açúcar” ou “controlar a fome”. Esta ignorância, ainda que não intencional, poderia tornar o quotidiano mais difícil se eu não escolhesse partilhar. De facto, é na partilha que encontro leveza: explicar que o meu corpo não é inimigo, mas território que aprendi a mapear; que a insulina não é um remédio simples, mas um elemento vital cuja dose errada me pode desequilibrar; que o exercício físico é aliado complexo, pois mexer o corpo é ajustar a química para evitar crises. Cada conversa é uma oportunidade de humanizar a doença — dar rosto e voz ao que tantas vezes fica reduzido a estereótipos. 


Novembro irá passar, e, com ele, as campanhas apagar-se-ão. O mundo voltará à sua distração, como se o azul fosse apenas um instante. Para mim, porém, a vigilância não conhece pausa nem festa. A diabetes é mais do que um diagnóstico; é uma forma de estar no mundo, um modo de viver com atenção e ternura.


No fundo, viver com diabetes tipo 1 é aprender a amar o corpo, apesar da sua fragilidade, assim como reconhecer que cada dia é uma batalha muda, uma prova de resistência e coragem. E quão corajosos todos somos...


Sofia Machado

Departamento Crónicas


1 comentário


ana.maria.bourbon
16 de nov.

Sofia, adorei a parte em que dizes que " é uma forma de amar e viver com atenção e ternura"

Cresceste tanto desde o último dia que te vi (era notícia recente).

Tu és muito mais que um simples "diabretes" .

És uma mente brilhante que abre o coração e resiste àquilo que vier.

Beijo enorme nessa bochecha maravilhosa e docinha.

Gosto muito de ti.


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