O perigo da nostalgia
- Manuel Brito e Faro

- 11 de nov.
- 2 min de leitura
Atualizado: 12 de nov.
A ilusão fomentada pelos meios de comunicação social – e da qual os mundos corporativo e publicitário se alimentam - de que a “Geração Z” é uma geração virada para o futuro, progressista e com fome de destruir as estruturas do passado não pode parecer, especialmente agora, mais distante da realidade. Nenhum movimento político luta hoje para nos vender uma visão do futuro; antes, perde-se em batalhas moralistas, com a finalidade de ver quem se aproxima mais de ser o líder espiritual que tanta gente procura na política. E uma visão para o nosso futuro? Parece que foi completamente esquecida.
A cultura atual está afogada em nostalgia. O mais curioso, contudo, é que essa nostalgia transcende a nossa própria realidade vivida. Não falo de uma nostalgia como aquela que os nossos avós possuem - um chato, mas carinhoso, “no meu tempo não era assim”; em vez disso, a nostalgia da nossa geração é por um tempo não vivido e, mais estranho ainda, por um tempo que nunca existiu. Esquecemo-nos de que a nostalgia é o maior veneno que pode consumir uma sociedade. Não passa de um mito propagado por filmes muito bonitos – mas fictícios – e de imagens que nos mostram como era a vida dos ricos, escondendo o facto de que as pessoas pobres raramente eram fotografadas.
Pode ser estranho relacionar a crise das instituições políticas com o estado atual da cultura; no entanto, a minha convicção pessoal aponta que, falamos essencialmente da mesma coisa. Ninguém perderia o seu precioso tempo a debater as grávidas do Bloco de Esquerda, as férias do Montenegro ou a iliteracia dos membros do Chega, caso estivéssemos, genuinamente, interessados no combate ideológico entre partidos.
A solução para o crescimento da extrema-direita transcende qualquer medida conjuntural apresentada pelos comentadores políticos, passando, sim, na minha opinião, pela reposição da fé no futuro. Quando nos vendemos ao cinismo e ao ceticismo, perdemos uma batalha contra aqueles que desejam retroceder direitos e conquistar poder em nome de uma nostalgia fantasiosa. A saída passa por reconhecer que o passado não nos vai salvar e que só nós podemos solucionar os nossos problemas.
Posto isto, é altura de dar a César o que é de César, de procurarmos nos nossos líderes políticos uma visão e um caminho para a progressão social, económica e científica - o suposto, mas esquecido, objetivo da política. A nostalgia é um sintoma de mal-estar generalizado numa sociedade (mal-estar este que nunca devia ter sido normalizado). Tal como tentamos acordar alguém preso a um passado idealizado que o impede de viver a vida, temos de, coletivamente, acordar todos para a vida. Não procuremos um líder espiritual de que as pessoas sentem falta, porque esse não é o papel de um político numa democracia liberal - e não deve ser.
Manuel Brito e Faro
Departamento Crónicas




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