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Além do sentido

  • Foto do escritor: Duarte Santos
    Duarte Santos
  • 7 de nov.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 12 de nov.

“Qual é o sentido da vida?” é um daqueles temas atemporais com inúmeras opiniões mas nenhuma universalmente aceite. Talvez seja mais prudente procurar a génesis da pergunta, em vez da resposta. Afinal, porque é que procuramos um sentido?


Esta inquietação é singularmente humana, fruto de uma combinação de raciocínio abstrato, linguagem simbólica e introspeção que nos distingue dos outros seres. Estas características criam as condições para o desassossego existencial.


Segundo a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin, a seleção natural ocorre porque os indivíduos mais aptos ao meio têm maior probabilidade de sobreviver e reproduzir-se, transmitindo as suas características às gerações seguintes, enquanto os menos adaptados tendem a desaparecer. Os instintos, como a autopreservação e o cuidado parental, enquadram-se nesse processo, pois são imprescindíveis à sobrevivência. Por causa desses instintos, a aversão à morte e a valorização da vida tornaram-se traços naturais da nossa espécie.


Sem embargo, valor e sentido não são sinónimos! Enquanto o primeiro refere-se à importância do objeto, o segundo atém à sua finalidade. A conclusão que a vida tem um sentido, só porque lhe damos valor, não é logicamente necessária, mas tão somente apelativa. A ausência de sentido revela-se como uma possibilidade atormentadora para nós que valorizamos a vida instintivamente, o que justifica a elaboração de tantas teorias sobre este tema.


Se usarmos somente a razão, cairemos no niilismo destrutivo, uma filosofia que nega valores intrínsecos, culminando na apatia. Os niilistas encaram o instinto humano não como fundamento da vida, mas como prova da sua futilidade. Escusado será dizer que esta perspetiva, contrária à própria natureza humana, pode ser profundamente nociva.


Por outro lado, é mais fácil não pensar demasiado; calar a razão em prol da sensação, refugiar-nos em algum conformismo emocional. Esse era o pensamento de Fernando Pessoa quando chamava Alberto Caeiro de mestre. Porém, os seguidores de Caeiro não refutam o niilismo, apenas fogem desesperadamente das suas implicações.


Ironicamente, estas duas visões são falaciosas pelo mesmo motivo: sustentam uma noção retrógrada que encara a razão e a emoção como conceitos opostos, identificando um como positivo e outro como negativo. Essa ideia é obsoleta não apenas pelos avanços da neurociência moderna, mas também pela honestidade intelectual. Tanto a obsessão niilista pela razão pura, como a sua recusa conformista são, no fundo, uma traição à própria razão. Nos temas humanos, o Homem tem de ser considerado como um todo coeso, e não como uma psique separada em útil e fútil.


Feitas estas considerações, e como a importância é relativa, não há valores objetivos. Cabe ao instinto e à emoção serem fontes primárias de valores, sendo o contexto sociocultural a fonte secundária. A razão, através desses valores, calcula um sentido e formula decisões conscientes. O nosso elevado grau de racionalidade diferencia-nos dos outros animais, e a emoção contrasta-nos com as máquinas. De facto, o humano pode ter uma “programação natural”, mas é ele quem determina o seu próprio significado.


Assim, chegamos ao existencialismo - filosofia em que o indivíduo cria os seus próprios valores e sentido. Pode parecer simples, no entanto, o ser humano vive mergulhado em conflitos internos, resultantes de desejos concorrentes e mutuamente excludentes. Por exemplo: Trabalhar ou descansar? Viver para o prazer imediato ou sacrificar-me por um futuro incerto? Até que ponto permito que as expectativas sociais condicionem a minha liberdade? Não são perguntas dicotómicas, e exigem respostas dispersas num espectro subjetivo.


Por analogia, as normas sociais emergem da vontade coletiva e da moral predominante. As dificuldades práticas em conciliar estímulos contraditórios permanecem, mas esta abordagem incentiva-nos a reconhecê-las e a conhecermo-nos melhor, individual e coletivamente.


Então, face à pergunta com que iniciei este texto, digo: não há nenhuma resposta objetiva à espera de ser descoberta, mas, sim, uma complexidade interna pronta para ser confrontada. A honestidade intelectual não se traduz em encontrar respostas, mas em impedir que as perguntas morram.


Duarte Santos

Departamento Crónicas


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