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A (In)Dependência do Eu

  • Foto do escritor: Duarte Santos
    Duarte Santos
  • 16 de mai.
  • 3 min de leitura

O Mahabharata, épico da Índia Antiga, narra o dilema do príncipe Arjuna. Guerreiro lendário, Arjuna fica desmoralizado perante a batalha ao reconhecer, no exército inimigo, os seus próprios familiares e mestres. A sua identidade de guerreiro exigia a luta; a sua humanidade gritava o contrário. Este impasse reflete uma constante na vida humana: devemos abraçar o dever que a sociedade nos impõe ou reconhecer que essa identidade é uma construção que nos aprisiona?


Hoje, este dilema manifesta-se no conflito entre a vocação e a estabilidade, ou na pressão para seguir o guião social de “estudar, casar, ter filhos e morrer”. Carregamos expectativas alheias antes mesmo de termos idade para as compreender.


Segundo a tradição, Krishna, o oitavo avatar do Deus Vishnu, auxilia Arjuna com os ensinamentos do Bhagavad Gita. Krishna prega que cada vida possui um propósito (dharma) essencial ao equilíbrio do universo. Cumprir o nosso papel, focado na virtude e desapegado das consequências, seria a única via para a liberdade. No Ocidente, encontramos um eco desta postura nos estoicos, que defendiam o foco no que controlamos, a virtude na nossa conduta, e a aceitação do destino que nos ultrapassa.


Arjuna, convencido, agiu e consagrou-se como um dos maiores heróis do imaginário hindu. Contudo, esta ideia de dever foi frequentemente pervertida para sustentar sistemas de opressão, como o sistema de castas, revelando o perigo em aceitar qualquer tradição e expectativa social. Além disso, o cumprimento do dever, como no caso de Arjuna, levou à desconsideração da bússola moral do indivíduo.


Para contrapor esta solução, surge Siddhartha Gautama, o primeiro Buda. Também ele era um príncipe da Índia, mas sentia-se acorrentado a uma vida de realeza que não escolhera. O nome do seu filho - Rahula (“amarras”) - expunha o seu conflito. Siddhartha abandonou o palácio por compreender que o sofrimento (dukkha) nasce do apego, inclusive à própria identidade. Para o Buda, o “eu” é uma ilusão (anatta); as etiquetas de “príncipe”, “pai” ou “marido” não são factos, mas contingências mutáveis. 


O desapego radical do Buda culminou no abandono familiar, o que pode parecer excessivo, mas serve para ilustrar a libertação total das construções do ego.


Apesar de serem correntes antagónicas, estas respostas convergem: o que fazemos deve valer por si, desapegado de resultados fora do nosso controlo. A nossa sociedade de consumo discorda. Avaliamos a “boa vida” através de métricas quantificáveis, transformando a identidade numa máscara performativa e comparando a nossa imperfeição com as ilusões das redes sociais. O desejo, como o Buda previu, tornou-se a nossa maior insatisfação.


Não é por acaso que vivemos na época com maior taxa de esgotamento (burnout). Este dilema sempre existiu, mas agora que possuímos as condições materiais que os nossos antepassados desejavam, confundimos posses e fama com valor. Ao delegarmos a nossa identidade a conquistas superficiais, deixamos de ser fins e passamos a ser meios. Perdemos o protagonismo da própria vida, assemelhando-nos a máquinas de eficiência que não podem parar de produzir e consumir.


Friedrich Nietzsche, ao criticar o “tu deves” da sociedade, apontava para esta mesma necessidade de superação: ir contra a multidão e as correntes da moda e as suas expectativas opressoras. No entanto, não defendia um vazio niilista, como muitos interpretam erroneamente. Pelo contrário, apelava à criação de valores próprios.


Não obstante, Nietzsche foi demasiado individualista, tal como muitos dos seus intelectuais contemporâneos. O ser humano é, como diz Alasdair MacIntyre, um contador de histórias inserido numa história. Não podemos ignorar o contexto que moldou o nosso raciocínio, mesmo que as nossas conclusões sejam liberais ou até anárquicas. Devemos, portanto, aceitar essa marca social em nós, como Krishna defendia, mas manter o olhar lúcido e distante do Buda, reconhecendo a fragilidade do ego.


Só assim poderemos decidir que valores guiam a nossa conduta e, consequentemente, definir a nossa verdadeira identidade. Como advertia Sócrates, “uma vida não examinada não vale a pena ser vivida”. Ao aceitarmos a característica humana de estranharmos a nossa própria natureza, reparamos no quão fluida é a nossa identidade, e nos aspetos positivos e negativos das normas sociais. 


A verdadeira liberdade não reside em estar imune às influências externas do mundo que nos rodeia, mas em viver de forma lúcida, com valores que não nos são impostos, mas questionados, repensados e integrados.


Duarte Santos

Departamento Crónicas


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