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Os heróis da civilização europeia

  • Foto do escritor: Vasco Graça
    Vasco Graça
  • 10 de abr.
  • 5 min de leitura

A quinta-feira de 24 de fevereiro de 2022 ficará na História como o dia que mudou para sempre as nossas vidas, alterando de forma violenta o caminho que o mundo seguia. Nesse dia, a horda russa invadiu a Ucrânia, de maneira que, pela primeira vez desde 1945, nós, europeus, sentimo-nos verdadeiramente ameaçados, confrontados com um inimigo cujo objetivo último é destruir o nosso modo de vida, ao serviço do seu nacionalismo exacerbado e pretensões nostálgicas de grandeza do seu líder. Felizmente, a “operação militar especial de 3 dias” falhou redondamente, graças à coragem incomparável dos ucranianos, personificada nas palavras do presidente Volodymyr Zelenskyy: «I need ammunition, not a ride» (Preciso de munição, não de boleia).


Esse espírito de resistência que nos tem defendido desfraldou, também, as expectativas de Putin e, indiretamente, veio acelerar em décadas o processo de integração europeia, mesmo que não nos apercebamos disso. A onda de solidariedade de todos os europeus para com os irmãos ucranianos fez-se sentir em uníssono e, desde então, assistimos à adesão da Finlândia e da Suécia à NATO, ao pendente referendo de adesão da Islândia à UE, à viragem pró-europeia da Moldávia e à multiplicação de movimentos pan-europeus e federalistas por todo o espectro político.


Seria, contudo, ingénuo pensar que um continente tão diverso, cuja histórica foi marcada por guerras constantes, se aprofundaria a um nível federativo de um momento para o outro. Apesar dos contributos inegáveis que a integração europeia trouxe, o continente europeu é ainda muito apegado (e sempre será) aos Estados-nação que o compõem. De facto, um paradigma destes não se altera numa questão de anos, principalmente quando certos setores lutam ferozmente contra esse processo.


A nível interno, importa destacar a resistência ideológica de determinados campos. Por um lado, as esquerdas radicais, embora se digam internacionalistas, são incapazes de aceitar quaisquer projetos que diferem das suas utopias irrealistas e infantis. Estas esquerdas, revolucionárias por natureza, estão apenas dispostas a destruir o projeto europeu como ele é, substituindo-o pelas suas visões (sobre as quais nem sequer conseguem concordar). Por outro lado, a direita radical refugia-se em nacionalismos nostálgicos, sonhando a grandeza dos países individuais, num mundo em que isso já não é possível. Todavia, no que toca à Ucrânia, ambos não podiam ser mais parecidos, visto que se dizem defensores de uma “paz” que implicaria a capitulação de todo o continente. Pois bem, a história repete-se. É que, já em 1939, o socialista francês Marcel Déat se perguntava «Pourquoi mourir pour Dantzig?» (Porquê morrer por Danzig?), só para depois colaborar com os nazis aquando da capitulação da França.


Ao nível internacional ninguém deseja uma Europa unida: a Rússia por motivos óbvios; os Estados Unidos da América (“EUA”) porque preferem dezenas de pequenos estados, mais fáceis de influenciar; o resto do mundo por ódios vindos do passado colonial. De facto, só a própria Europa beneficiaria do seu amadurecimento, o que é bem conhecido das potências estrangeiras. Para tal, financiam partidos e políticos populistas, propaganda pró-russa, e/ou novas narrativas provindas do movimento Make America Great Again (“MAGA”), de que a União Europeia é uma espécie de IV Reich (“ditadura de burocratas não eleitos”, dizem), mas, ao mesmo tempo, judia, comunista e homossexual, da qual os países europeus se têm de “libertar”.


Felizmente, o Velho Continente tem acordado para a realidade: é preciso reforma agora, antes que seja tarde demais – é uma questão de sobrevivência. Efetivamente, têm-se verificado investimentos na defesa (após décadas de negligência) e na busca pela diversificação e independência energética (após Angela Merkel ter, ingenuamente, hipotecado grande parte do continente à Rússia). Não obstante, isso não basta. 


Na verdade, é preciso urgentemente diminuir a carga burocrática, dado que a Europa afunda-se em burocracia, desperdiçando preciosos investimentos a troco de praticamente nada, de que o Draghi report já teve, aliás, oportunidade de colocar em evidência. É, de igual modo, imprescindível, por razões de coesão social, resolver o problema da imigração. Ora, ser-se europeu é um privilégio; não um direito universal. Sem embargo, absolutamente fundamental, a médio-longo prazo, é a implementação de reformas políticas a nível supranacional. Só uma Europa unida será capaz de se afirmar de forma independente, de defender os nossos valores, a nossa tradição e cultura comuns (não ignorando a diversidade de cada Estado-membro), o nosso modo de vida, et cetera. Numa palavra, a Europa tem, se necessário, de se federar, em tudo menos no nome, por respeito à história de cada país que a ajudou a construir. E isto é possível, porquanto os europeus são mais parecidos do que às vezes pode parecer, e para isso muito contribuíram as Comunidades Europeias, ao internalizarem a ideia de que unidos conseguimos muito mais e melhor. A unificação europeia dar-se-á com duras reformas, que terão de ser muito bem pensadas, mas virá mais cedo do que achávamos antes de 2022.


A Europa sempre definiu a história mundial. De facto, a Grécia e a Roma são os nossos alicerces civilizacionais, que remontam, bem assim, à Antiguidade. Desde o fim da Idade Média, foram os Estados europeus a definir cada século: Portugal, Espanha e os Países Baixos definiram os séculos XV, XVI e XVII, com os Descobrimentos, enquanto a península itálica foi o berço do Renascimento; o século XVIII ficou marcado pelo apogeu da França, numa primeira metade, e, a partir de 1789, pelos ideais da Revolução e o nacionalismo; o século XIX foi o século britânico, que trouxe a Revolução Industrial a todo o planeta;  o século XX, pelas piores razões, foi marcado pelas atrocidades da Alemanha e pela tragédia social e económica do mundo soviético. Pois bem, não será neste século que isso mudará, pois o centro do mundo continua a ser a Europa – a invasão russa desencadeou a instabilidade global e tornou mais evidente a proliferação de conflitos pelo globo. Se tivesse de prever o país europeu que marcará o século XXI, diria, sem dúvidas, a Ucrânia, pois o seu sacrifício abriu uma nova página na história europeia e um caminho para um novo equilíbrio global.


Quem são, então, os heróis da civilização europeia? Podemos começar pelos ucranianos, que nos protegem da barbárie russa; porém, rapidamente pensamos nos fundadores do projeto europeu, como Adenauer, Churchill, Monnet, Schuman ou Spinelli. Menos conhecidos, destacam-se, igualmente, os esforços de Richard von Coudenhove-Kalergi e Oto de Habsburgo (ex-príncipe herdeiro da Áustria-Hungria), no pan-europeísmo. Com isto, é impossível também ignorar as incontáveis figuras que marcaram as histórias dos países europeus, levando o nome das respetivas pátrias ao conhecimento de todo o mundo. Se pensarmos bem, os heróis da civilização europeia somos todos nós, que, independentemente de ideologia, acreditamos na Europa, ao nível local, nacional e continental e que queremos torná-la na “casa” que todos os outros aspiram ter, sem, contudo, nos iludirmos com radicalismos ou utopias. Nós, europeus, sempre arranjaremos maneira de complicar as coisas e de nos zangarmos uns com os outros. A diferença é que a bandeira da Europa estará à frente, sem nunca esquecer todas as bandeiras antepassadas que a criaram. No que toca aos traidores, que tentaram e tentam destruir o nosso continente, a História reservar-lhes-á a vergonha que merecem. 


Já dizia Charles De Gaulle: «Será a Europa, toda a Europa, que decidirá o destino do mundo»; já Konrad Adenauer: «A unidade europeia era um sonho para poucos. Tornou-se uma esperança para muitos. Hoje é uma necessidade para todos nós».


Vasco Graça

Departamento Crónicas

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