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“O amor pede identidade com diferença. Se eu não sou meu, como serei teu?”

  • Foto do escritor: Sofia Machado
    Sofia Machado
  • 24 de abr.
  • 2 min de leitura

No século XXI, a doença que inevitavelmente assola o mundo é o cancro. Quase todas as famílias conhecem a sua presença discreta, devastadora e, muitas vezes, silenciosa. Todavia, existe uma outra enfermidade, menos diagnosticada e raramente escrita nos relatórios clínicos, que percorre a sociedade contemporânea com igual persistência: a dependência.


De facto, dependemos de muitas coisas: substâncias; estímulos; hábitos; açúcar; álcool; estupefacientes; dos jogos de azar; apostas desportivas; conforto anestesiante das rotinas; et cetera. A própria ciência já reconhece que a dependência não se limita às drogas clássicas. Efetivamente, existem também as chamadas «dependências comportamentais», como o jogo, o consumo compulsivo de internet ou das redes sociais. Estimativas internacionais sugerem que cerca de 11% da população mundial apresenta algum tipo de comportamento aditivo. Desde a dependência alimentar até à dependência digital, todos nós  já experienciamos algum vício.


Não obstante, há uma dependência que raramente aparece nas estatísticas: a dependência de pessoas. É nesse território invisível que o nosso apego a alguém se converte em dependência emocional - um fantasma curioso que surge discretamente, instala-se com uma inquietante sensação de conforto e, quando damos por isso, já passou a habitar connosco. E bolas… como é difícil expulsá-lo!


Ora, a dependência emocional tem tanto de dureza como de imprevisibilidade, surgindo como tantas outras: primeiro, oferece alívio; depois, exige permanência. A psicologia descreve este processo como uma espécie de condicionamento afetivo, em que o cérebro associa a presença de determinada pessoa à libertação de dopamina e oxitocina - neurotransmissores ligados ao prazer, ao vínculo e à recompensa. É também aqui que a literatura e a ciência curiosamente se encontram. Durante séculos, os poetas falaram de amores que escravizam, de presenças que se tornam indispensáveis… Hoje, sabemos que não estavam inteiramente errados no seu modo de expressar o amor, as relações interpessoais e a sociedade. O cérebro humano responde ao apego de forma surpreendentemente semelhante à resposta que tem perante substâncias aditivas.


Esse paralelismo não é meramente metafórico. Na verdade, tal como nas dependências químicas, também aqui existe um ciclo de recompensa e privação: a presença gera euforia; a ausência provoca inquietação. A pessoa deixa de ser apenas desejada para passar a ser necessária, quase como se ocupasse um lugar funcional no equilíbrio emocional de quem depende.


Com o passar do tempo, essa dinâmica tende a intensificar-se. Com efeito, o que começou por ser afeto transforma-se em necessidade de validação constante, em medo da perda e em incapacidade de autonomia emocional. A relação deixa de assentar na liberdade e passa a estruturar-se na dependência — é precisamente aqui que o vínculo, aparentemente mais forte, se revela também mais frágil, porque assenta não na liberdade de escolher o outro, mas na incapacidade de o perder.


Quiçá, seja esta a razão de tantas relações persistirem. Não pelo que oferecem, mas pelo vazio que evitam. É, no fundo, um desencontro entre afeto e liberdade: quando deixamos de ser nossos, o que resta já não é amor; é dependência.


Sofia Antunes Machado

Departamento Crónicas


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