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Contra os canhões marchar, marchar!?

  • Foto do escritor: Miguel Almeida
    Miguel Almeida
  • 17 de abr.
  • 2 min de leitura

Parece impossível falar-se do constante escalar das tensões na europa e no mundo sem se falar do serviço militar português. Ora, se num lado temos as forças armadas em prontidão, do outro temos falta de pessoal e um interesse cada vez mais reduzido da população em ingressar na carreira de militar. A falta de condições salariais, a falta de transparência e a dificuldade de acesso aos quadros permanentes, assim como um desajustado investimento nos equipamentos necessários à Defesa moderna, geram uma enormíssima desconfiança dos portugueses nos nossos ramos das Forças Armadas.


Nestas últimas semanas, tem-se vindo a observar cochichos cada vez mais elaborados, seja no Parlamento, seja a nível governamental, acerca do serviço militar obrigatório. Uns a favor, outros contra; uns que pensam que a guerra se luta com flores, e outros que ainda insistem no alargamento do dia da defesa nacional, quase como uma semana de férias num campo de escoteiros.


O que o atual Governo parece ainda não ter conseguido compreender é que não é suficiente fazerem-se cumprir as metas orçamentais da NATO e as imposições do “homem alaranjado” dos estados “desunidos” da América. É necessário compreender que nenhum jovem quer morrer numa guerra que não é sua, numa luta que não lhe pertence e que ninguém percebe muito bem como começou.


É de criticar também a corrente postura do Estado Português que se verga a interesses estrangeiros de auxiliar em guerras, estas que não são sequer europeias, nem tampouco nacionais. Um Governo que apoia, em simultâneo, que se combata o “bully soviético” enquanto permite o uso da Base das Lajes para ataques a países que “ninguém sabe bem onde ficam” no Médio Oriente. Temos um Governo que: diz não interferir, enquanto interfere; diz investir na defesa europeia, enquanto continua refém de países não europeus para a manutenção dos seus caças - os F-16, os quais estão em tão boas condições de preservação que uma forte tempestade é o suficiente para os danificar, juntamente com o autêntico barraco onde estavam guardados, em Monte Real.


Pois bem, questiono se adianta atentar à liberdade das pessoas, com a justificação de que “os maus vêm aí”, quando a justificação mais correta seria: “não conseguimos que quem quer ser militar siga a carreira e, portanto, a solução é arrastar quem não quiser para uma eventual guerra que nem entende”.


Confesso que me preocupa mais que lutemos com armas de plástico provenientes de uma boutique de artigos chinesa - uma vez que as somas multimilionárias que o Estado investe nas Forças Armadas são para adquirir maquinarias que não temos a capacidade financeira de manter - do que uma eventual imposição de obrigatoriedade. Enquanto isso, a categoria de praças esvazia-se, criam-se cada vez menos condições para quem já é militar, e quem nos representa internacionalmente, em missões de paz, arrisca-se a ter de atirar pedras ao insurgente ocasional, devido à falta de dinheiro para munições.


Será mesmo possível que “entre as brumas da memória” nos esqueçamos do passado colonial e da devastadora guerra do Ultramar? É mesmo proposital que marchemos contra os canhões do inimigo, no sentido mais literal da expressão?


Miguel Almeida

Departamento Crónicas


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