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A Mulher e o Capital

  • Foto do escritor: Diogo Lamego, Leonor Mendonça
    Diogo Lamego, Leonor Mendonça
  • 19 de mar.
  • 3 min de leitura

Simone de Beauvoir disse que "não se nasce mulher, torna-se". Mas o que significa tornar-se mulher sob a alçada do capitalismo? Se a feminilidade é uma construção social, como a autora argumenta, então é também um campo de disputa económica. O neoliberalismo apropriou-se dessa construção, convertendo-a num mecanismo de exploração subtil e insidioso. De facto, a mulher não é apenas trabalhadora e/ou consumidora; é, também e acima de tudo, uma mercadoria em permanente mutação, que se reconfigura conforme as necessidades do mercado.


Ao longo da história do capitalismo, a presença feminina foi regulada, restringida e instrumentalizada. Nos primórdios da Revolução Industrial, a entrada das mulheres no mercado de trabalho foi, simultaneamente, uma libertação e uma nova forma de subjugação. Como observou Silvia Federici, o trabalho reprodutivo – aquele que sustenta a sociedade ao garantir a manutenção da vida – nunca foi reconhecido como labor económico legítimo. Na verdade, a sua invisibilização foi um dos maiores truques do capital, pois permitiu a acumulação de riqueza à custa do trabalho gratuito das mulheres. Hoje, essa lógica persiste, mas transformada: a mulher é incentivada a trabalhar, a ser independente e a consumir, mas nunca a questionar a estrutura que exige dela um desempenho sobre-humano.


O neoliberalismo, ao contrário do que promete, não libertou a mulher. Antagonicamente, ofereceu-lhe um novo tipo de servidão: a autoexploração. O discurso do empoderamento feminino tornou-se um slogan publicitário, reduzindo a sua emancipação à capacidade de consumo e sucesso individual. O que antes era uma luta coletiva por direitos estruturais transformou-se numa busca individualizada pela ascensão dentro do próprio sistema opressor. A mulher neoliberal é aquela que, alegremente, se autoexplora, que abraça a precariedade como flexibilidade e que se adapta incansavelmente aos novos imperativos do mercado, sem questionar as suas bases.


Ao passo que, no passado, a figura da dona de casa era o ideal feminino promovido pelo capitalismo, hoje, a mulher ideal é a trabalhadora incansável, a empresária de si mesma, que investe no seu corpo, na sua marca pessoal e no seu desempenho profissional sem hesitações. Contudo, a promessa de emancipação através do trabalho revela-se uma miragem quando se observa a desigualdade estrutural - as mulheres continuam a ser as mais precarizadas, a ocupar os setores mais desvalorizados e a suportar a maior carga laboral não remunerada. Na realidade, a sua entrada no mercado não veio acompanhada por uma redistribuição equitativa do trabalho doméstico e dos cuidados, perpetuando-se, assim, um sistema que exige da mulher o desempenho de múltiplos papéis, sem oferecer as condições materiais para tal.


Simone de Beauvoir alertava que a liberdade feminina não poderia ser alcançada enquanto as mulheres permanecessem economicamente dependentes dos homens. No entanto, a dependência económica não desapareceu; foi transferida para um mercado que exige delas uma performance ininterrupta. A precariedade laboral, o custo insustentável da vida urbana e a falta de redes de apoio tornam a suposta autonomia feminina numa falácia: as mulheres são empurradas para jornadas exaustivas - frequentemente mal remuneradas - e bombardeadas com a ideia de que o seu valor depende do seu sucesso individual.


Pois bem, o caminho para essa transformação não passa apenas por exigir igualdade de oportunidades dentro do capitalismo, antes por repensar profundamente o próprio sistema. Talvez o grande desafio feminista do nosso tempo seja não apenas incluir a mulher no mundo do trabalho, mas redefinir as regras do mesmo – não lutar por um lugar na engrenagem, mas por um novo modelo económico que reconheça e valorize as formas de ofício que o capital historicamente explorou e desprezou. Para que isso se efetive, é impreterível uma revisão do papel do Estado, que deve assumir responsabilidade pelo cuidado - e não o delegar às mulheres -, e um questionamento da lógica meritocrática que individualiza problemas que são coletivos.


Se o capitalismo fez das mulheres um produto, cabe-lhes, agora, recusarem esse papel e reinventarem a história nos seus próprios termos. De certo, a verdadeira emancipação não virá da capacidade de adaptação ao mercado, mas da criação de estruturas que permitam uma vida verdadeiramente livre, onde o valor do ser humano não seja medido pela sua produtividade ou pelo seu consumo.


Diogo Lamego e Leonor Mendonça

Departamento Crónicas

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