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A revolta chegou à rua e chegou para ficar!

  • Foto do escritor: Francisca Bastos
    Francisca Bastos
  • 3 de mai. de 2024
  • 4 min de leitura

No passado dia 6, deu-se no Porto uma manifestação sob o lema “Menos imigração, mais habitação”, que havia sido convocada há já umas semanas pelo grupo de extrema-direita 1143. Esta surgiu em seguimento da manifestação, organizada pelo mesmo, ocorrida em Lisboa com o mote “Contra a Islamização da Europa” no dia 3 de fevereiro deste ano. O grupo assume-se como uma organização patriótica destinada a fomentar a resistência moral da Nação e a cooperar na sua defesa contra os inimigos da Pátria e da ordem social. Quem o conhece consegue rapidamente e em somente duas palavras defini-lo como ultranacionalista e neonazi” (para artigo na íntegra, ver a publicação “Wrap-Up” do mês de fevereiro de 2024 – https://tribunajornal.wixsite.com/fdup/post/wrap-up-fevereiro-2024).


Enquanto na capital a Câmara Municipal reagiu com a proibição desta e a não autorização da sua realização, o mesmo não se viu no Porto. A Câmara Municipal do Porto não só permitiu a parada fascista como ainda colocou ao seu serviço um forte aparato policial.


É, então, a partir desta permissão que uma panóplia de organizações antifascistas, antirracistas, queer, da comunidade cigana, pela defesa da Palestina, pelo Direito à Habitação, etc. marcharam “Contra o Fascismo, Mais Feminismo”. Estas reivindicam que, no ano em que se celebram os 50 anos da Revolução dos Cravos, não deixarão que a obtenção de espaço e conforto da extrema-direita se concretize. Apelam a que as conquistas de Abril não caiam no esquecimento e que se lute para que nenhum dos seus direitos lhes seja retirado por um discurso factualmente racista e xenófobo.


A manifestação contra o fascismo partiu da Praça dos Poveiros em direção à Praça da Batalha, pequeno e limitado trajeto, uma vez que o grupo neonazi tinha traçado o seu caminho a começar na Praça D. João I e a acabar na Avenida dos Aliados em frente à Câmara Municipal. Partindo a primeira às 15h e a segunda umas horas mais tarde, o objetivo seria que as duas não se cruzassem, tentando evitar fortes e prováveis conflitos e desacatos – isto explica a distância espacial e temporal. Acrescenta-se ainda o fecho da paragem de metro dos Aliados entre as 14h30 e as 19h.


O primeiro protesto foi marcado por uma simbiose de tranquilidade e de raiva – via-se nos olhos de cada pessoa e nas palavras de ordem que emotivamente pronunciavam o estranho conforto de encontrar em centenas de pessoas o mesmo sentimento de injustiça e revolta, que independentemente das suas diferentes características e dos diversos tipos de discriminação que sofrem (ou não), estavam ali todos unidos por uma causa comum – a luta revolucionária contra o fascismo e a escalada do discurso de ódio perpetrado por grupos que a pouco e pouco se vão afirmando na sociedade. No fim, os manifestantes juntaram-se na Praça da Batalha para ouvir os testemunhos dos vários coletivos presentes, mas também os de pessoas não associadas a algum movimento. Fortes e longos aplausos foram intercalados com o grito “25 de abril sempre! Fascismo nunca mais!”.


A manifestação antifascista estava vez mais próxima do seu término e as pessoas foram abandonando o local. Ao mesmo tempo e a poucas ruas dali os ultranacionalistas começaram-se a juntar na Praça D. João I. Apesar do apelo de Mário Machado (líder do grupo) a todos os “patriotas” marcarem presença para mostrarem “oposição à invasão de imigrantes, que é a principal razão para o aumento brutal do preço da habitação” – uma falácia que serve de cortina para a aberrantemente discriminatória agenda desta organização – não chegaram a totalizar sequer uma centena de pessoas.


Para além do quase ininterrupto canto do hino nacional que ecoava por cada rua por onde passavam, ouvia-se, de entre outros, “Dizemos não à imigração, fechem de vez as fronteiras!”. De saudações nazis e odes a Salazar a insultos aos jornalistas que cobriam o desfile, este só vincou mais a índole antidemocrática do grupo e dos seus apoiantes.


Os manifestantes antifascistas passaram a palavra aos seus camaradas e rapidamente se juntaram na Avenida dos Aliados enfrentando os fascistas. É de apontar que a estes se acrescentaram civis que simplesmente passavam pelo local. Juntos gritaram, de entre outros, “Há aqui: antifascistas!” e “Racistas, fascistas chegou a vossa hora, os imigrantes ficam e vocês vão embora!”. Mário Cordeiro, vendedor de 53 anos que estava a passear pelo Porto quando se deparou com a situação, em entrevista ao JornalismoPortoNet, afirmou ser “uma pessoa que acha que se lutou muito pela liberdade e por vivermos num país onde todos têm o direito de viver onde quiserem e como quiserem”.


O ambiente foi definido por uma assustadora tensão, o expectável para um confronto deste cariz – enquanto fascistas ficaram com a Praça General Humberto Delgado ao seu dispor, os contra-manifestantes, que os ultrapassavam em número, eram empurrados, agarrados pelo pescoço pela polícia e ficaram a instantes de serem violentamente agredidos com cassetetes. À medida que o tempo passava, também a impaciência e a reação hostil do absurdo corpo policial aumentavam. Os contra-manifestantes continuavam a ser arrastados na direção oposta da Câmara Municipal. 3 pessoas chegaram mesmo a ser detidas e pelo menos uma delas, segundo relatos de quem ali estava presente, terá sido violentada pelos polícias que a prenderam. Não querendo ser identificados por razões de segurança, vários eram os contra-manifestantes que usavam lenços, bandanas e máscaras para cobrir a cara.


Desde o momento em que se viram até ao momento em que se deixaram de ver, não faltaram insultos de ambas as partes e bastantes vaias. Quando os fascistas finalmente abandonaram a praça, os antifascistas, de punho ao ar, munidos de cravos vermelhos e cantando a Grândola, Vila Morena, tomaram o local. Ao mesmo tempo, umas ruas abaixo, ocorria uma manifestação antiaborto. O conjunto de organizações “Contra o fascismo!” também mencionou esta luta a caminho da Praça da Batalha – ouvia-se “Contra o capital: aborto universal!”.


Poucas, mas intensas, foram estas horas que se viveram no Porto nesse sábado. Este será o primeiro de muitos turbulentos encontros a que iremos assistir nos próximos tempos.


Nas memoráveis palavras de Fernando Tordo na música “Tourada”:


Não importa sol ou sombra

camarotes ou barreiras

toureamos ombro a ombro

as feras.


Francisca Bastos

Departamento Sociedade

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