A supernova musical de Bowie
- Maria Queirós

- há 2 dias
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“Look up here, I’m in heaven” é o verso com que começa o último single que David Bowie lançou, “Lazarus”, a menos de um mês de o mundo sentir a sua perda, encerrando uma carreira de cerca de 50 anos. Em janeiro, completaram-se dez anos desde que o universo da música perdeu uma parte do seu brilho, uma das suas estrelas mais brilhantes.

David Robert Jones nasceu a 8 de janeiro de 1947, num subúrbio londrino, e foi criado no seio de uma família humilde, num contexto marcado pelas dificuldades do pós-guerra. Desde muito novo, desenvolveu uma relação muito próxima com a música, começou por aprender a tocar saxofone e, ao longo da adolescência, integrou diversas bandas, que acabaria por abandonar por considerar que eram insuficientes para a sua ambição. Esta paixão foi muito fomentada pelo seu meio-irmão, Terry Burns, que o introduziu a vários géneros de música e a vários artistas, e que foi a inspiração para múltiplas músicas de Bowie (como “The Bewlay Brothers” e “All the Madmen”).
A década de 1960 foi, sem dúvida, a fase de procura do artista, tendo passado por várias bandas, como os “Konrads” e os “Manish Boys”, mas abandonando-as por sentir que não o elevariam ao nível por ele pretendido. Foi em meados da década de 1960 que alterou o seu nome artístico para David Bowie, a fim de evitar ser confundido com Davy Jones, membro da banda “The Monkees”. Foi precisamente com esse nome que lançou “Space Oddity” (1969), o seu primeiro grande sucesso, que alcançou o Top 5 no Reino Unido.
Por contraste, a década de 1970 definiu perfeitamente o resto da carreira do artista – foi um autêntico laboratório de experiências, um período de mutação frenética – e marcou o seu apogeu. Em apenas 10 anos, Bowie lançou mais de uma dezena de álbuns de estúdio, quase todos com estilos diferentes. Do glam rock teatral – estilo em que foi pioneiro – de “The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars” (1972) e “Aladdin Sane” (1973), que direcionou os holofotes para si e marcou a fase de 1972-1974, evoluiu para o plastic soul de “Young Americans” (1975), passando para o funk/soul de “Station to Station” (1976), terminando a década com a fase experimental da Trilogia de Berlim – “Low” (1977), “Heroes” (1977) e “Lodger” (1979). Não é por acaso que é muitas vezes referido como “camaleão da música” – é uma metáfora que traduz na perfeição a sua flexibilidade musical.
Numa nota pessoal, faço referência a um álbum que penso ser um dos seus melhores trabalhos: “Diamond Dogs” (1974). Este disco marca o fim do período de glam rock de Bowie, sendo já possível identificar algumas influências de soul e funk em várias faixas, que marcaram os próximos 2 anos da sua discografia. Depois de lhe terem sido negados os direitos para transformar numa espécie de musical a obra ”1984” de George Orwell, cuja narrativa e atmosfera inspirou este disco, Bowie cria uma nova personagem para o protagonizar: Halloween Jack, “a real cool cat”, que habita a cidade decadente e distópica de Hunger City. Excecionalmente, Bowie assume as rédeas da guitarra principal, cuja distorção se destaca e caracteriza todo o álbum, garantindo o som “sujo” e violento que traduz a distopia pretendida, periodicamente quebrada pelo som das melodias de um piano. Não só é de relevar a capa do disco, que na altura do lançamento foi censurada, mas também os vocais surpreendentes de Bowie presentes na suíte “Sweet Thing/Candidate/Sweet Thing (Reprise)” e na música “Rock ‘n’ Roll with Me”.

A década de 1980 iniciou-se com “Scary Monsters” (1980), mas os anos que se seguiram foram marcados por períodos difíceis quanto à criatividade. No seguimento deste facto, Bowie passou a procurar uma sonoridade mais comercial. Bowie queria fazer sucessos – e assim o fez. Daqui nasceu “Let’s Dance” (1983), um post-disco com uma guitarra contagiante, que se tornou o seu disco mais vendido a nível mundial, alcançando o Top 1 em vários países. A par deste álbum, iniciou a digressão “Serious Moonlight Tour”, considerada a maior digressão do mesmo ano, que ajudou a consolidar Bowie como um verdadeiro superstar. De certa forma, este disco tem um traço de ironia: um cantor conhecido pelo seu vanguardismo estava a abrir os braços ao comercialismo. Ainda assim, esta foi apenas mais uma manifestação da facilidade com que Bowie mudava de imagem, sem nunca deixar de conquistar o público.

Este grande sucesso, contudo, não veio alienado de problemas: Bowie perdeu o contacto com o seu público, agora generalizado, e entrou num vazio criativo ainda mais profundo, o que levou a um dos seus pontos mais baixos da sua criatividade até ao fim da década. A solução para este problema foi a participação na banda “Tin Machine”, em 1988, que lhe permitiu um descanso dos holofotes, um reset à sua criatividade e, novamente, o gosto de arriscar. Na década de 1990, Bowie regressou a um período de experimentação, explorando a tecnologia e um som mais eletrónico, audível, nomeadamente, em “Earthling” (1996).
Mas David Bowie não se limitou a criar álbuns, ele criava novos universos – as personas. Não se deixou ficar por ser apenas uma imagem estanque, mas antes por uma identidade em constante metamorfose, principalmente nos anos 1970. De Ziggy Stardust, uma estrela de rock andrógino alienígena, ao Thin White Duke, um alter-ego aristocrata amoral extremamente controverso, Bowie encarnou diferentes personagens, com diferentes histórias, estilos e sonoridades. Era como se o palco fosse um teatro, no qual a música era a banda sonora que permitia uma mutação psicológica e visual.

Não só arriscava no seu estilo musical, mas Bowie arriscava também no seu visual. Desde o cabelo comprido, que defendeu numa entrevista em 1964, com apenas 17 anos, ao vestido que usou na capa de “The Man Who Sold the World” em 1970, passando pela abertura com que abordou a sua sexualidade (perante mentalidades muito conservadoras), bem como pelas roupas e maquilhagens fortes e extravagantes de Ziggy Stardust e Aladdin Sane (também uma persona), Bowie não tinha medo de quebrar normas. Aliás, era um vício quebrar tabus, tanto musicais, como sociais.
Ao longo da sua carreira de cerca de 50 anos, Bowie colaborou com diversos artistas de enorme relevância, como Mick Jagger, John Lennon, Brian Eno, entre muitos outros, auxiliando e catapultando as carreiras a solo de Iggy Pop e Lou Reed. Para além disso, durante a sua vida, deu centenas de concertos, alguns tendo sido publicados em live albums (como o último concerto de Ziggy no Hammersmith Odeon, a 3 de julho de 1973) e participou no icónico “Live Aid”, no Estádio de Wembley, em 1985. Não só se ocupou da música, como atuou em diversos filmes, como “The Man Who Fell to Earth” (1976), “Labyrinth” (1986) e “The Linguini Incident” (1991), tendo também se dedicado às artes plásticas e à pintura.
A 8 de janeiro de 2016, no seu sexagésimo nono aniversário, Bowie lança o seu último álbum, “Blackstar”. Apenas dois dias depois, o mundo viria a receber a notícia da sua morte, vítima de um cancro de fígado. “Blackstar” foi a sua saída de cena – a canção do cisne. Mas acreditar que Bowie nos abandonou nesse dia é ser descrente. Ele ainda vive entre nós: no glam rock; na sua arte; na sua contribuição social e, quanto mais não seja, como o verdadeiro “Starman” que era. Gosto de pensar que Bowie é como uma supernova: a estrela não se “apagou”, mas no fim “explodiu” num evento que mudou a composição química da cultura ao nosso redor e que permanece.
Maria Queirós
Departamento Cultural


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