O silêncio no nevoeiro revela a verdade:
- Gonçalo Pinto

- há 2 dias
- 8 min de leitura
“Nos meus sonhos inquietos, eu vejo aquela cidade: Silent Hill”
Assim começa a carta que Mary Sunderland escreve ao seu marido, e protagonista do jogo, James Sunderland, uma carta que incitará este a procurá-la na misteriosa cidade de Silent Hill. O problema aqui é que Mary morreu há 3 anos, vítima de uma horrível e incurável doença. Então, porque é que James só recebeu esta carta agora? Estará Mary viva? O que é que Silent Hill realmente é?
O jogo Silent Hill 2 apresenta estes mistérios ao longo da sua trama, e responde aos mesmos de forma misteriosa e silenciosa, porém, nunca insatisfatória. Este clássico de 2001, lançado na Playstation 2, mantém-se até hoje como um dos mais influentes e revolucionários jogos e obras de terror, tendo trilhado um caminho inovador no terror psicológico e no survival horror. A sua excelência foi tanta que até dentro da saga Silent Hill como um todo este jogo virou uma maldição, pois, após o seu lançamento, a KONAMI nunca mais lançou um Silent Hill que se igualasse, pelo menos até 2024, quando o remake de Silent Hill 2 foi lançado, melhorando ainda mais a experiência do original e fazendo imenso sucesso, tanto aos olhos do público, como aos da crítica especializada.
Neste artigo, quero abordar muito mais do que simples aspetos técnicos do jogo. Eu irei falar sobre a narrativa densa e pesada desta obra, uma narrativa sobre o peso da verdade, sobre a dor de amar alguém que definha lentamente, sobre a culpa que sentimos pelos nossos atos e, claro, sobre o luto. Desta forma, terei de avisar sobre spoilers do jogo, pois irei falar sobre muitas das reviravoltas e simbolismos da história do mesmo.
Quanto à história, após receber a carta da sua, supostamente, falecida esposa, James vai até Silent Hill com esperança de a encontrar. James é um marido em luto, com saudades de quem amou, da mulher com quem planeou a sua vida inteira, da mulher que lhe foi tirada dos braços por algo com que nós não controlamos, por algo que não conseguimos prever: uma doença. Ao chegar à cidade, James repara que esta está quase deserta e envolta num denso e gélido nevoeiro. O ambiente é pesado e opressor; a música, magistralmente composta por Akira Yamaoka, incomoda por vezes, e deprime noutras, carregando em cada nota a melancolia da jornada de James. Para além do nevoeiro, James entende que existe algo maior ali, algo maligno. A cidade está infestada de horríveis criaturas, que este terá de enfrentar para conseguir encontrar Mary.
No meio disto tudo, questionamo-nos sempre sobre o paradeiro de Mary, e sobre como é que surgiram aquelas bizarras e perturbadoras criaturas. Podemos pensar que é algo apenas sobrenatural, e que James é um herói, o marido dedicado que salva a esposa no final da história… Mas a verdade é mais assombrosa: é amarga e dolorosa de se ouvir, seja para James, seja para nós como jogadores.
Então, qual é a verdade sobre isto tudo? O que se passa realmente neste jogo? A verdade é que Mary está morta, ela nunca esteve em Silent Hill, ela morreu realmente, mas não foi a doença que a levou no final… foi James. Mary ficou doente e foi definhando, física e psicologicamente, e, com o tempo, foi-se tornando um espectro do que já fora - James não aguentava mais. Ela é que lhe pediu pela morte, pois preferia isso a sofrer mais. Mas será que para James foi um ato de amor, ou de ódio? Provavelmente fez aquilo porque ela o acorrentava àquela vida miserável, ela era a prisão dele, e, quando viu uma forma de escapar, não hesitou, e isso trouxe a sua culpa - uma culpa tão forte que James alterou a verdade na sua mente. Para ele, Mary morrera há 3 anos, vítima da doença, porque isso foi o que disse a si mesmo para se proteger do que fizera. Na verdade, a sua mulher foi assassinada há poucos dias por ele mesmo.
Isto leva-nos a pensar sobre a carta de Mary. Essa carta nunca existiu, a mesma é nada mais do que uma ilusão criada pela mente perturbada de James, pelo seu subconsciente, que, por desejar justiça quanto ao pecado que cometeu, criou esta carta como forma de conduzir o nosso protagonista a Silent Hill. A verdade sobre os atos de James só nos é revelada perto do final, quando o protagonista alcança o hotel onde, supostamente, tinha memória de ter estado com a sua esposa; mas, chegando lá, apenas descobre uma cassete que revela a verdade: James é o verdadeiro monstro, e essa realidade fica tão assente que, após esta reviravolta, as criaturas que nos tentavam punir e matar fogem aterrorizadas dele. Bem, todas menos uma: Cabeça de Pirâmide.
Mas será que Silent Hill existe mesmo na história do jogo? Sim, é uma cidade fantasma no interior dos Estados Unidos da América, e, embora pareça simples, na verdade, Silent Hill nada mais é do que um purgatório, um local obscuro para onde os que merecem penitência são atraídos, de modo a encararem a sua culpa, as suas decisões e o mal que fizeram. James não é o único na cidade. Na verdade, existem mais 4 pessoas: Angela, Eddie, Laura e Maria. Angela é uma mulher com tendências suicidas, que sofre de uma depressão profunda, graças a uma vida de abusos nas mãos do seu pai e irmão. Antes de ir parar a Silent Hill, Angela assassina ambos, e, por isso, a sua jornada na cidade é aceitar isso, aceitar os abusos, aceitar o que fez, e procurar redenção. A cidade assume diferentes formas para cada pessoa, e, para Angela, ela apenas arde, enquanto que, para James, é uma cidade gélida e cheia de nevoeiro. Angela diz várias vezes que sente calor em Silent Hill, e, até nos seus derradeiros momentos, ela sobe uma escadaria em chamas, e diz a James: “Para mim é sempre assim”. Isto ocorre porque Angela sabe o que fez desde o começo, e por isso vê Silent Hill em chamas como reflexo da sua culpa. Já James apenas vê estas chamas nos momentos finais de Angela, logo após descobrir o que fez a Mary, e assim reencontrar-se com a sua culpa.
Eddie também é uma das vítimas da cidade. Um homem que sofreu anos de bullying pelo seu aspeto físico, e que, num momento de loucura, se entrega aos seus instintos primais e mata o cão do seu bully, para além de ferir o mesmo bully na perna com um tiro. Assim, ele foge para Silent Hill, onde não encontra redenção, mas abraça o seu lado negro, um lado de cansaço pela humilhação sofrida e de loucura. Dessa forma, nós, como James, enfrentamos Eddie e matamo-lo, colocando um fim ao seu sofrimento. Para Eddie, a cidade é como um grande frigorífico de talhante, onde está sempre frio, e os monstros que ele vê não são nada mais do que figuras humanas abstratas que o julgam pela sua forma física ou pelos seus atos homicidas. Laura é uma criança de 8 anos, que conheceu Mary no hospital, tendo as duas formado uma amizade. Estiveram juntas ao longo da doença de Mary. Ela está em Silent Hill, também a procurar a esposa de James, e é através do que Laura nos diz que descobrimos muito sobre a verdade, pois, segundo ela, Mary entregou-lhe uma carta a desejar um feliz oitavo aniversário uma semana antes dos eventos do jogo, o que nos mostra que Mary morreu apenas há cerca de uma semana. Para além disso, Laura odeia James, e a princípio não entendemos o porquê. Porém, através do que ela vai dizendo, e após a verdade revelada, compreendemos: ele não visitava Mary frequentemente, fazê-lo era um frete, um ato de caridade e não de amor, algo que lhe pesava e que o levava a conviver com Mary no estado em que estava - um estado frágil, que este odiava. Laura, ao contrário dos outros três referidos, vê a cidade como algo normal, ela não carrega culpa, e, portanto, Silent Hill não a assombra.
Por fim, temos Maria. Ela é igualzinha a Mary, o seu rosto é igual, e a sua voz também; porém, a sua atitude é sedutora para com James, como se ela o amasse e o desejasse. A sua roupa também é o oposto do que a falecida esposa de James usava. Portanto, ela é como Mary, mas diferente, a versão ideal da esposa de James aos olhos do mesmo. Ela não é real, apenas uma ilusão criada pela cidade, baseada no passado do protagonista. Ela é baseada numa prostituta com que James traía Mary enquanto esta estava no hospital, pois James desejava o ato sexual, algo que não podia ter com Mary, e, por isso, procurava e tratava outras mulheres como objetos. Parte deste seu lado é refletido nos monstros de Silent Hill que ele vê, como já irei apresentar. O irónico de Maria é que ela ama James, e demonstra isso várias vezes, e ela seria tudo o que ele quereria em teoria; mas agora, com a chance de encontrar Mary viva e bem como assim esta estava no início do seu casamento, James luta incessantemente para a ver, reprimindo todo o seu passado obscuro baseado no desejo sexual.
Silent Hill 2 apresenta-nos algumas das criaturas mais icónicas do horror, mas serão só monstros por o serem? Não, cada uma delas é um simbolismo, um simbólico regresso ao passado de James e a todos os seus pecados cometidos enquanto Mary se deteriorava lentamente. Comecemos pelo Cabeça de Pirâmide, o símbolo máximo, não só deste jogo, como da saga Silent Hill. Ele representa a culpa de James por matar Mary. Surgindo como uma figura musculada, com uniforme de carrasco, e uma espada gigante com uma pirâmide no crânio, ele persegue James, e fá-lo sofrer, matando Maria várias e várias vezes na frente de James, revelando subtilmente a verdade do destino de Mary. Temos também outras figuras, como a Lying Figure, um monstro com pernas tortas e o torso como uma amálgama de carne, algo que pode representar a forma como James via a esposa nos seus últimos dias, mas que também pode representar o estado psicológico de James face à doença da sua amada, uma figura com os braços presos, impotente, sem nada poder fazer. As enfermeiras do hospital de Silent Hill são uma representação do que James fez no hospital, envolvendo-se com enfermeiras pelos seus corpos. O rosto destes monstros está tapado, mas os seus corpos são algo de sensual, tal como James via as enfermeiras do hospital onde Mary estava internada, de uma forma pervertida e doentia. Por fim, temos os manequins, monstros que se mantêm imóveis com duas pernas na parte de baixo do corpo e duas pernas na de cima, uma representação do desejo de James por Mary, pois ela estava doente, mas ainda assim ele desejava o seu corpo.
Por fim, falemos do final do jogo. Silent Hill 2 tem inúmeros finais. Porém, aquele que considero canónico é o final in the water. Neste final, James escapa de Silent Hill, entende que Mary não está viva e que ele a matou, compreende e relembra os seus pecados, e, no seu carro, tem uma visão da sua esposa, na qual diz que a ama e que sente demasiado a falta dela. Ele compreende que foi o vilão, que errou e que cometeu pecados horríveis. Foi levado pelo desejo sexual, traiu a mulher que o amava e não foi forte o suficiente. Dessa forma, ele decide redimir-se e ficar com Mary para sempre, atirando o seu carro de um penhasco para um lago. James era um homem quebrado, ele tentou, no início, estar lá para a esposa, mas ver que os seus planos para o futuro iam sendo mortos lentamente, e vendo a luz da esperança ao fundo do túnel apagar, caiu em desespero. Numa espiral de bebida e desejo carnal, não aguentou o peso de tudo, do estado psicológico de Mary, da forma instável como ela agia para com ele, da falta de tudo o que o casamento tinha sido, e, por isso, caiu nas trevas. Quando viu a saída daquele buraco, agiu por ódio, assassinando a sua esposa, o que nos leva a pensar que James era um monstro, o que de facto foi. Porém, e apesar de tudo, foi humano. Humano, porque nem todos somos heróis e aguentamos tudo o que a vida traz. Nem todos poderíamos aguentar ver quem mais amamos a definhar daquela forma. Humano, porque caiu e errou, e, sabendo que não merecia perdão, mesmo após alterar a sua memória inteira, foi atraído para Silent Hill, onde, no nevoeiro, descobriu toda a verdade e procurou redenção, ainda que através da morte.
Gonçalo Pinto
Departamento Cultural


Comentários