top of page

“Hero”: um hino de superação

  • Foto do escritor: André Mota
    André Mota
  • 15 de abr.
  • 4 min de leitura

O conceito de superação das adversidades da vida sempre foi um tema de grande relevância no mundo da música, estando presente em todos os estilos musicais. Do pop ao R&B, e principalmente no Gospel, encontramos várias canções que se destinam a levantar o nosso astral, e nos inspiram a manter a cabeça erguida e a encarar sem medo qualquer tipo de dificuldades que surjam. Nobre é o trabalho dos artistas que nos dão essas músicas, repletas de alma e de esperança. Mariah Carey é uma artista que aqui se enquadra e que, ao longo dos seus quase 36 anos de carreira musical, já nos presenteou com diversas obras dedicadas a incentivar os ouvintes a manter a fé e a perseverança. De entre essas obras, escolho abordar aqui Hero, uma das mais conhecidas músicas da sua discografia, que é, hoje, tida como um verdadeiro hino atemporal de superação.



De modo a dar algum contexto, a canção Hero integra o terceiro álbum de estúdio da cantora – intitulado Music Box –, lançado a 31 de agosto de 1993, tendo sido oficialmente lançada como single a 18 de outubro do mesmo ano. No entanto, inicialmente, a música estava a ser criada para outro propósito. Acontece que, fruto do sucesso dos seus dois álbuns anteriores – Mariah Carey e Emotions –, trabalhos compostos e produzidos pela própria  em conjunto com o seu colaborador Walter Afanasieff, Carey foi convidada pela Epic Records, em 1992, a compor uma música para um filme intitulado Hero. Assim, quando a música começou a ser construída, estava destinada para a cantora Gloria Estefan. Todavia, Tommy Mottola, ex-marido de Mariah, ao ouvir a sua versão demo, incentivou-a a guardar a canção para si mesma e, na mesma medida, a retirar-se do projeto inicial, comunicando à Epic Records que os seus esforços de criar alguma música para o referido filme haviam sido infrutíferos.



No ano seguinte, ficou claramente provado que esta decisão foi, efetivamente, a mais acertada. Ao ser lançada oficialmente como single, a canção conheceu um estrondoso sucesso. Hero tornou-se o oitavo hit de Carey a alcançar o topo da tabela Billboard Hot 100, lugar onde permaneceu durante 4 semanas, desde 25 de dezembro de 1993 a 15 de janeiro de 1994, tendo, ao todo, marcado presença no top 10 da tabela durante 16 semanas. Adicionalmente, a canção mereceu reconhecimento por parte de várias cerimónias de prémios, tendo rendido à artista prémios pelos ASCAP Awards e pelos BMI Pop Awards, e até uma nomeação para o Grammy de “Melhor Performance Vocal Feminina”. Atualmente, a música tem três certificados de platina, atribuídos pela Recording Industry Association of America (RIAA).


A faixa consiste numa balada sentimental ao piano, na qual Mariah Carey faz uso da sua voz suave e cristalina para transmitir uma forte mensagem acerca da importância de não deixarmos morrer a nossa luz interior, mesmo quando tudo o que temos à nossa volta é escuridão. Ao longo de toda a música, a cantora incentiva-nos a sermos fiéis a nós próprios, aos nossos sonhos e aspirações, a não desesperarmos em tempos conturbados e, acima de tudo, a reconhecermos o nosso próprio valor. Aliás, o impactante refrão desta música diz precisamente isto: And, then, a hero comes along/ With the strength to carry on/ And you cast your fears aside/ And you know you can survive/ So, when you feel like hope is gone/ Look inside you and be strong/ And you’ll finally see the truth/ That a hero lies in you.


Só nestes oito versos deste magnífico poema transformado em música se percebe a significância destas palavras. Cada estrofe é como um longo e caloroso abraço que Mariah dá ao ouvinte, permitindo-lhe um momento para se sentir ouvido, visto e, acima de tudo, acolhido. Aqui está o admirável de toda esta criação: ao escrever de uma perspetiva pessoal, Carey acabou por tocar vários corações pelo Mundo fora, confortando várias pessoas que, embora não a conheçam pessoalmente e possam nunca a vir a conhecer, se identificaram com aquilo que a cantora tinha para dizer, pois viram refletidos na música os seus sentimentos e sentiram necessidade de receber aquele pequeno lembrete. De que, afinal, a sua vida tem sentido. De que, afinal, há pessoas que se podem importar com elas. De que, afinal, elas valem por si mesmas. De que, afinal, elas têm um propósito.


Mas o verdadeiro destaque desta música tem de ir para a bridge, particularmente poderosa: Lord knows, dreams are hard to follow/ But don’t let anyone tear them away/ Hold on, there will be tomorrow/ In time, you’ll find the way. Não há muito a dizer sobre isto, a letra exprime-se por si mesma. Se temos uma visão, uma ambição para nós, e acreditamos, no nosso coração, que é correta, devemos segui-la sem medo do que os outros irão dizer ou pensar. Não podemos permitir que os outros sejam um travão aos nossos sonhos, nem mesmo colocar-nos esse travão sobre nós próprios por influência dos outros. Se queremos algo, temos de encetar todos os esforços necessários até o conseguirmos. O caminho poderá ser difícil e nem sempre claro, mas sempre se chega lá, demoremos mais ou menos tempo a encontrá-lo.


Disse no início que Mariah Carey é mestre na arte da criação de músicas destinadas a afastar a negatividade. E tanto assim é que podia, como indiquei esta música, indicar outras várias. Alguns exemplos seriam Can’t Take That Away, Through The Rain, Rainbow (Interlude), Nothing Is Impossible, entre outras. No entanto, escolhi Hero, pelo impacto que teve tanto para a artista como para milhares de pessoas que já ouviram a música ao longo do Mundo. Aliás, em várias entrevistas, Mariah já contou que recebeu cartas de fãs de toda a parte a agradecer-lhe pela música, que chegou mesmo a impedir pessoas de recorrerem a atos drásticos para pôr fim ao seu próprio sofrimento. Ter isso em mente fá-la sentir a necessidade de cantar esta música no maior número de concertos possível, de modo a fazer luzir a história de todos e não deixar ninguém de parte. É este o poder da música, e desta música em particular. Por isso, é seguro dizer que Hero não é só uma música: é mesmo uma salvação.

 

André Mota

Departamento Cultural

Comentários


© 2024

Jornal Tribuna

bottom of page