Uma erótica da arte
- Vicente Correia

- há 2 dias
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A certa altura, já no final da entrevista à Rolling Stone, Susan Sontag diz isto: “Sim, sinto que estou a prestar atenção ao mundo. Estou muito consciente e fascinada por aquilo que é o não eu, e sinto-me interessada e incitada a compreendê-lo”. Parece-me essencial esta ideia de nos transcendermos do “eu” para prestar atenção ao mundo, aos outros – no fundo, ao desconhecido. Tentar compreender o mundo, não saber nada, continuar à procura, a ter vislumbres das coisas. Por exemplo, do que é a arte?
É um pouco a isso que Sontag tenta responder com o seu conjunto de ensaios: “Contra a interpretação”. Neles, reivindica uma “erótica da arte”, contrária a uma abordagem hermenêutica, isto é, à redução da experiência artística aos seus significados e interpretações. No ensaio que abre a coletânea defende que a verdadeira arte “possui a capacidade de nos pôr nervosos”, e ao reduzir a obra de arte ao conteúdo para depois o interpretar “estamos a domesticá-la”, acabando por dizer que a “interpretação faz da arte uma coisa dócil e obediente”. Dois adjetivos que não podem nunca, a meu ver, caracterizar a arte. Porque ela constitui uma experiência de liberdade que nos desprende do mundo e “nos devolve ao mundo de certa forma mais recetivos e enriquecidos”.
É evidente que quando vemos um filme, lemos um livro, vamos ao teatro, existe em nós a tendência de procurar significados e sentidos para o que estamos a ver – sejam eles psicológicos, morais ou até políticos. Mas a arte parece, por vezes, escapar a essa necessidade de tradução. Talvez seja isso que a torna duradoura. Certamente que podemos encontrar nas grandes peças de Shakespeare um significado político que se aplique aos nossos tempos, mas o que as torna grandiosas é essa capacidade de se sobrepor a tudo isso, como uma luz que atravessa tempos, convenções, opiniões. A verdadeira arte parece não ter agenda. Alimenta-se desse fundo comum que é a experiência humana, que continua, desde o início, com as mesmas perguntas e inquietações. Sontag di-lo: “Uma obra de arte é uma coisa no mundo e não um mero texto ou comentário sobre o mundo”. É evidente que as obras de arte se referem ao mundo real, mas aquilo que podemos extrair delas, para além do pensamento e reflexão que devem suscitar, é esse entusiasmo e fascínio que só elas conseguem proporcionar. Noutra aceção, o prazer estético e a experiência sensorial que só elas nos dão. “Temos de aprender a ver mais, a ouvir mais, a sentir mais” - escreve Susan Sontag.
É nesse sentido que penso o cinema de Alice Rohrwacher, em particular “Feliz como Lázaro”. A cineasta italiana é, para mim, das maiores autoras contemporâneas e herdeira desta visão de Sontag. A ideia de um cinema comprometido com o pensamento e o “intelecto crítico”, sem abandonar a experiência sensorial ao serviço desse pensamento crítico em relação à sociedade e ao ser humano.
O filme acompanha Lázaro, um camponês explorado numa propriedade rural italiana, ainda assente num sistema feudal e profundamente opressivo. Quando esse sistema colapsa, esses camponeses – entre eles Lázaro – transitam para a cidade, para a modernidade. A mudança de cenário não altera substancialmente a sua condição: continuam à margem, entre pequenos expedientes e formas de sobrevivência precária. O mundo mudou, o ser humano talvez não. A exploração na comunidade rural e a exploração na cidade moderna. Mudam-se os tempos, mas continua tudo na mesma. O bucólico do campo e o metálico da cidade. E surge Lázaro (personagem bíblico ressuscitado) como presença deslocada ou como uma espécie de santo primordial. A pureza inicial presente no humano, mas corrompida pela crueldade com que nos vemos uns aos outros. Um mundo cínico incapaz de reconhecer a bondade e a inocência de Lázaro. O que dá sem pedir nada em troca. Até que recebe. Naquela cena, que é em si mesma uma experiência sensorial (os olhos e os ouvidos em completa sintonia e atenção), em que a música do órgão na igreja transcende o espaço, e o acompanha, como que a flutuar sobre ele e sobre o vento. É o cinema que sente na pele, nos olhos, nos ouvidos. O cinema das sensações. Porque se é bom “não te aperta a mão: aperta-te a garganta” – escrevia Ana Hatherly.
Já no fim da entrevista à Rolling Stone, Susan Sontag diz: “Acho que devia haver sempre pessoas independentes que, por mais quixotesco que isso possa ser, estivessem empenhadas em cortar mais umas quantas cabeças, em tentar destruir alucinações, falsidades e demagogias – e em tornar as coisas mais complexas, pois há sempre uma tendência inevitável para as simplificar”. Num mundo cada vez mais superficial, rápido, em que as pessoas só conseguem dirigir a sua atenção para um vídeo de poucos minutos, na procura desenfreada pelo próximo reel, num scroll infinito, ler Sontag e ver os filmes de Alice Rohrwacher é caminhar em sentido oposto. Abrandar o tempo, complicar, pensar – coisa tão rara nos nossos tempos. Retomo a pergunta do início: o que é a arte? Gosto de pensar que é resultado disto: matéria inflamável ao qual se chegou um fósforo aceso. Nós que encontramos o outro, o mundo. O resultado disso é incendiário. Será isso a arte?
Vicente Correia
Departamento Cultural

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