top of page

A série que a Netflix ainda não fez

  • Foto do escritor: Gabriela Baltazar
    Gabriela Baltazar
  • 16 de mar.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 18 de mar.


Há quem insista em explicar o futebol com base em estatísticas, gráficos, análises táticas detalhadas ou comparações históricas. Mas, a meu ver, talvez exista uma forma mais simples (e mais fiel) de descrever um campeonato da Primeira Liga Portuguesa: imaginá-lo como uma série da Netflix. Porque, tal como nas melhores produções de streaming, o campeonato português vive de personagens fortes, conflitos inesperados e reviravoltas que mantêm os espectadores — neste caso, os adeptos — presos até ao último segundo.


Toda a temporada começa com a promessa de uma grande história. No arranque, cada clube apresenta-se como se estivesse a entrar numa nova temporada de uma série que pode finalmente correr bem. Há reforços, aguardados durante todo o mercado de transferências, que chegam com a promessa de mudar o rumo da narrativa. Há treinadores que prometem um novo estilo de jogo. E há adeptos que renovam a esperança de que, desta vez, o final será diferente - o popularmente conhecido “É desta!”


Os candidatos ao título entram evidentemente como os protagonistas principais, apesar de, para mim, o Sporting poder ser o único protagonista. São as equipas com maior orçamento, maior pressão mediática e maior responsabilidade histórica. Tal como nas séries, são elas que carregam o plot todo. Mas também, como acontece na televisão, nem sempre são os protagonistas que dominam todos os episódios de início a fim. 


A meio da temporada começam a surgir as personagens secundárias que roubam o spotlight, e é aqui que o campeonato ganha vida. São equipas que não estavam no epicentro das previsões iniciais, mas que aparecem a ganhar jogos importantes, a desafiar favoritos e a ameaçar alterar o rumo da competição. É como se fosse uma força, a meio do campeonato, que ninguém sabe de onde veio, mas que começa a fazer tremer os grandes. Em qualquer série bem escrita, estas personagens são fundamentais para o enredo: trazem imprevisibilidade, criam novos conflitos e impedem que a história se torne previsível, apesar de não serem as personagens favoritas dos adeptos que veem o seu protagonista perder terreno. 

Depois, há o vilão da temporada. No futebol, essa figura não é algo que se possa definir em concreto. Pode ser uma sequência inesperada de maus resultados, uma decisão polémica de arbitragem ou até mesmo uma equipa que surge no momento certo para complicar os planos de quem luta pelo título. O vilão, no fundo, é aquilo que cria tensão. E sem tensão não há drama - e sem drama não há série que prenda o público.


Mas se há algo que define tanto as séries modernas como o futebol são os famosos plot twists. A derrota que ninguém antecipava. O golo marcado nos últimos segundos. O treinador que parecia seguro no cargo e que, de repente, abandona o lugar. São aqueles momentos que mudam completamente o enredo e obrigam todos — comentadores, adeptos e até jogadores — a reavaliar e a recear o rumo da temporada.


À medida que o campeonato se aproxima do fim, entra-se inevitavelmente na fase do grande final. A luta pelo título ganha intensidade, a margem de erro é nula, os lugares europeus tornam-se cada vez mais disputados e, no fundo da tabela, instala-se o drama da sobrevivência. Cada jogo passa a ter o peso de um episódio decisivo. Cada ponto pode alterar o destino de uma equipa. É o clímax da história. Diria que estamos, agora, a viver o clímax do atual campeonato: numa altura onde já se jogaram quase todos os clássicos e dérbis, quiçá serão as personagens secundárias a complicar o título de um dos protagonistas. A luta pelo título está longe de ser decidida e cada ponto pode fazer diferença na sentença final. 


E quando finalmente chega o último jogo da temporada, há aquela sensação de já sabermos o resultado final. Raramente se decide o campeão no último jogo. Mas é certo que nem todas as séries têm finais tão óbvios como se esperava - e são essas que dão mais prazer.


Porque, no futebol, tal como nas séries da Netflix, há sempre uma nova temporada à espera de começar, quer seja melhor ou pior que a anterior. E talvez seja precisamente por isso que continuamos a assistir, semana após semana. Afinal, poucas histórias são tão imprevisíveis como um campeonato de futebol.


Gabriela Baltazar

Departamento Desporto


Comentários


© 2024

Jornal Tribuna

bottom of page