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O Estádio que nunca viu um golo

  • Foto do escritor: António Pinho
    António Pinho
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Assinalaram-se, no passado dia 26 de abril, 40 anos da explosão do reator 4 da Central Nuclear de Chernobyl, na Ucrânia; um acontecimento profundamente marcante pelas proporções que tomou e pelo impacto provocado um pouco por todo o globo, não deixando ninguém indiferente perante a sua brutalidade e grau de destruição. O desastre de Chernobyl arrasou por completo a sua área envolvente, nomeadamente, a cidade de Pripyat, bem como, ainda que com uma importância naturalmente diminuta face à globalidade dos danos causados, mas igualmente intrigante, o seu clube de futebol: FC Stroitel Pripyat. 


No âmbito do desenvolvimento do programa nuclear da URSS, com a abertura da Central Nuclear de Chernobyl, no norte da Ucrânia, nos anos 70 do século passado, surgiu a necessidade de estruturar toda uma rede de apoio logístico e de abastecimento para o seu funcionamento, o que levou à edificação de uma cidade de raíz nas redondezas - Pripyat, que deveu o seu nome a um rio nas suas proximidades. Construída para alojar os milhares de trabalhadores da Central Nuclear, rapidamente se tornou num centro extremamente dinâmico e atrativo, tendo sido reconhecida, legalmente, como “cidade” em 1979. Com um investimento estatal especialmente avultado, foi palco de um grande fluxo de imigração, registando-se a chegada de centenas de jovens famílias (a idade-média da população rondava os 25-27 anos de idade), cativadas pelas elevadas remunerações e pela habitação fornecida pelo Estado. 


Diga-se que Pripyat dispunha igualmente de um acesso relativamente privilegiado a bens e serviços de primeira necessidade, tidos, alguns deles, como bens de luxo (carnes vermelhas, por exemplo) face à escassez de recursos generalizada do regime soviético - dizia-se, a este propósito, que terá superado nestes índices a capital da república ucraniana, Kiev.  


Para além dos empreendimentos referidos acima, outro tipo de infraestruturas foram sendo construídas, tais como salas de cinema, bibliotecas, piscinas públicas, centros culturais, entre outros. No entanto, os líderes políticos da cidade e do regime soviético sentiam que os trabalhadores precisavam de uma outra fonte de entretenimento que os pudesse ocupar nos seus tempos livres (como uma forma de os recompensar pelo árduo trabalho que prestavam). Surge, assim, em meados da década de 1970, o Stroitel / Budivelnyk Football Club Pripyat (“Budivelnyk” significa “construtor”, em ucraniano - simbolizando a ligação inerente às suas origens), equipando com camisola branca e calções azuis. Inicialmente, foram recrutados diversos jogadores provenientes de clubes das redondezas, procurando os dirigentes do clube aliciar os atletas que desejassem recrutar com uma oferta de trabalho na Central Nuclear e na equipa de futebol, providenciando-lhes, desta forma, um rendimento extra. 


O clube gera rapidamente, no seio da comunidade, um forte sentido de adesão e pertença, satisfazendo, desta forma, as pretensões dos seus dirigentes; as assistências aos jogos rondavam os 2 mil adeptos e o clube crescia de vento em popa, suportado por uma massa associativa consistente e, acima de tudo, por um apoio financeiro estatal considerável. A primeira grande participação em provas oficiais ocorreu em 1981, no Campeonato Nacional Amador de Futebol Ucraniano, que equivalia à quinta divisão competitiva do futebol nacional.



Mesmo tendo conseguido conquistar 3 taças regionais de Kiev consecutivas, nos anos de 1981, 1982 e 1983, o Stroitel Pripyat nunca conseguiu ir além da quinta divisão, a nível de liga. Ainda assim, para um clube recém-formado, estes triunfos assumiam-se como feitos notáveis, verificando-se algumas alterações na gestão do clube, nomeadamente, com a sua profissionalização: caminhando para uma autonomização crescente do clube em relação à Central Nuclear, foram sendo recrutados cada vez mais jogadores para exercerem, exclusivamente, a prática desportiva, desmembrando parte do núcleo duro de jogadores locais que haviam composto as suas equipas até então. Para além disso, o sucesso competitivo que vinha a protagonizar elevou as expectativas dos seus dirigentes, que acordaram a construção de um novo estádio para acomodar o crescimento da população e providenciar melhores condições aos jogadores e estrutura técnica. 


No entanto, as suas ambições viriam a sofrer um duro golpe (que viria, mais tarde, a provar-se fatal) na fatídica tarde de 26 de abril de 1986: enquanto se preparava para disputar o jogo a contar para as meias-finais da taça regional contra a equipa do Borodyanka, um helicóptero aterrou no campo, de onde saíram técnicos de segurança da Central Nuclear, devidamente protegidos e com detetores de radiação, a informar os jogadores da explosão ocorrida em Chernobyl e a ordenar a sua imediata evacuação


Com tudo isto, o novo estádio - o Avanhard Stadium, com capacidade para 11 mil espectadores sentados e com uma iluminação de ponta - nunca viria a ser estreado. A sua inauguração, agendada para o dia 1 de maio (uma data repleta de simbolismo e significado para o regime e os trabalhadores), nunca se veio a realizar, naturalmente, face às circunstâncias que envolveram a cidade e a vida da Central, no período subsequente à explosão do reator nuclear. Estima-se que mais de 100 mil pessoas tenham abandonado a cidade, face à imediata exposição a elevadíssimos níveis de radiação, numa operação que terá tido o seu início apenas 36 horas depois do alerta dado pelas autoridades.


Perante todo este clima de instabilidade que afetou toda a comunidade, o clube não foi exceção. Uma grande parte dos desalojados instalou-se numa cidade um pouco mais a norte do país, em Slavutych, onde o clube viria a competir sob o nome de Stroitel Slavutych, no ano de 1987, mas foi diminuindo, progressivamente, a sua atividade, encerrando definitivamente no ano seguinte, falhando, assim, as suas aspirações de se reinventar e sobreviver como clube. 


Devastada pelos efeitos do desastre nuclear, a cidade de Pripyat foi-se assumindo, de forma espontânea, como um destino turístico “underground”, muito apetecível por quem procura uma experiência única, observando um rigoroso protocolo de segurança, onde apenas se permite, por exemplo, a permanência durante algumas horas. De entre as suas principais atrações, consta o Avanhard Stadium, que, nos dias de hoje, se vê invadido por densa vegetação, encontrando-se as bancadas ainda imponentes, mas bastante deterioradas, no entanto. A cidade é também um espaço onde se desenvolve investigação científica sobre a radiação e outras componentes químicas associadas, decorrendo, em simultâneo, um processo de “limpeza radioativa”, que se prevê prolongar-se até ao ano de 2065; nesse sentido, vários especialistas acreditam que as áreas mais afetadas pelo desastre nuclear permanecerão contaminadas pelos próximos 3 mil anos. 


António Pinho

Departamento Desporto

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