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Entre o espelho e o ecrã

  • Foto do escritor: Tiago Freire
    Tiago Freire
  • 20 de abr.
  • 3 min de leitura

Vivemos numa era em que as redes sociais deixaram de ser apenas um espaço de partilha ocasional e passaram a fazer parte da forma como construímos e mostramos quem somos. O desporto, que sempre esteve muito ligado ao corpo, ao esforço e à superação pessoal, não ficou de fora dessa mudança. Hoje, treinar já não é só correr, levantar pesos ou jogar. É também registar o momento, escolher o melhor ângulo, editar e publicar. Para muita gente, o treino parece até ganhar um significado extra quando é partilhado, como se a experiência só ficasse completa depois de ser vista pelos outros.


Neste contexto, a performance desportiva deixa de ser apenas algo físico e pessoal e passa a ter também uma componente de história que se conta. Cada corrida publicada, cada fotografia no ginásio ou cada story de superação ajuda a construir uma espécie de narrativa pessoal. Já não se trata só do que se faz, mas da exposição do que se faz. O praticante, mesmo que seja alguém comum, acaba por assumir um papel duplo: vive a experiência e, ao mesmo tempo, gere a imagem que projeta. Com isso, surgem novas pressões: a consistência deixa de ser só um objetivo pessoal e passa também a ser algo que os outros esperam ver.


Mas olhar para isto apenas como algo superficial seria simplificar demasiado a questão. A mesma exposição que pode trazer comparação ou necessidade de validação também pode ser uma grande fonte de motivação. Quantas vezes alguém decidiu ir correr, começar no ginásio ou simplesmente mexer-se mais depois de ver outra pessoa a fazê-lo? As redes sociais tornam o esforço visível, aproximam pessoas e criam identificação. Ao acompanhar o progresso de outros, muitas vezes pessoas com rotinas e desafios parecidos, o desporto parece mais acessível e possível.


Existe, por isso, uma dualidade interessante. Por um lado, há o risco de transformar o treino numa espécie de espetáculo para os outros. Por outro, há a oportunidade de inspirar e ser inspirado. No meio disto, talvez o mais importante seja a forma como cada pessoa lida com essa realidade. As redes sociais podem ser úteis, desde que não substituam a razão principal para praticar desporto. No fim, por trás de cada publicação, continua a existir algo simples e genuíno: a vontade de cuidar do corpo, aliviar a mente e sentir-se melhor.


Ainda assim, não dá para ignorar o impacto desta exposição constante na forma como nos relacionamos com o esforço. Quando o foco se desloca para a reação dos outros, na forma de gostos, comentários ou visualizações, corre-se o risco de perder a ligação com aquilo que motivou o início da prática desportiva. O treino deixa de ser um momento de desconexão e passa, ironicamente, a estar ligado a uma comparação constante. E, nesse cenário, até o progresso pessoal pode parecer pouco quando comparado com o que se vê todos os dias online.


Por outro lado, esta visibilidade também ajudou a tornar o desporto mais próximo de todos. Hoje, qualquer pessoa pode acompanhar rotinas, dicas ou percursos de outros, sem precisar de contextos formais. O acesso à informação e à inspiração nunca foi tão fácil. Isso ajuda a quebrar a ideia de que o desporto é só para atletas ou para quem tem condições específicas. Passa a ser algo mais integrado no dia a dia de qualquer pessoa.


Há também uma componente de comunidade que não deve ser ignorada. As redes sociais permitem criar redes de apoio, onde pequenas conquistas são celebradas e dificuldades são partilhadas. Para muitos, essa sensação de não estar sozinho faz toda a diferença para manter a consistência. Saber que alguém está a acompanhar, mesmo que à distância, pode ser o empurrão que faltava para continuar.


No fundo, o grande desafio é encontrar equilíbrio. Nem rejeitar completamente a partilha, nem depender dela para validar cada passo. Usar as redes sociais como um complemento e não como o centro de tudo. Porque, apesar de todas estas mudanças, há algo que não muda: o verdadeiro valor do treino acontece fora do ecrã, naquele esforço silencioso que ninguém vê, mas que cada um sente.



Tiago Freire

Departamento Desporto


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