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CINEMA ABSOLUTO NA NON-LEAGUE

  • Foto do escritor: Hugo Novo
    Hugo Novo
  • 4 de mai.
  • 5 min de leitura

O passado fim de semana ficou marcado, na Inglaterra, por aquela que foi uma das maiores disputas da época no mundo desportivo. Na quinta divisão inglesa, a primeira divisão não-pertencente à Liga profissional, o York City F.C. garantiu o título e o consequente acesso ao quarto escalão ao empatar fora de casa a uma bola, numa autêntica final, com o Rochdale A.F.C., adversário que lutou até ao fim com a equipa da cidade de York pela promoção.


Se já não era suficientemente dramático o confronto entre as duas equipas que disputavam a subida direta para os escalões profissionais, o desfecho do jogo mostrou a magia destas competições que ocorrem longe dos holofotes dos grandes e multimilionários campeonatos. O jogo estava empatado a zero até aos 90+5’, a um minuto do fim do período de compensação dado pelo árbitro quando, depois de um excelente cruzamento do experiente Ian Henderson, Emmanuel Dieseruvwe, o melhor marcador da equipa da casa, e segundo melhor marcador do campeonato, cabeceou para provocar uma explosão de alegria dos adeptos presentes no Spotland Stadium, que, para festejar a vitória, invadiram o campo para festejar a subida da sua equipa. 


Todavia, o maior golpe de teatro surgiu já depois da eufórica invasão de campo dos adeptos da casa. Com um minuto ainda por se jogar, o York City não desistiu e, aos 90+13’, num lance onde o guarda-redes defende um cabeceamento em cima da linha de baliza, a recarga feita por Josh Stones só foi intercetada pelo defesa da equipa da casa já depois da linha de baliza, o que levou os adeptos visitantes à loucura, dando, assim, da forma mais épica possível, o título e a subida aos escalões profissionais ingleses à sua equipa.


As estatísticas destas duas equipas no campeonato são absolutamente dominadoras, fazendo as duas mais de 100 pontos depois de 46 jornadas. No caso da equipa campeã, que acabou o campeonato com 108 pontos, mais dois do que os vice-campeões, o mais impressionante acaba mesmo por ser o número de golos marcados nesta edição da National League – a equipa da cidade de York marcou um total impressionante de 114 golos, 19 a mais do que o segundo melhor ataque da competição.


Além disso, a equipa campeã também teve o melhor marcador da competição, Ollie Pearce, que marcou 34 golos e fez 9 assistências no campeonato.


Apesar deste frustrante desfecho de jogo para o Rochdale, a equipa ainda poderá conquistar o acesso às divisões profissionais, através de um play-off onde, por ter ficado em segundo lugar na classificação, está automaticamente qualificado para as meias-finais do mesmo.


Este jogo, para os adeptos do York City, apesar de não ser num escalão onde outrora já viram o seu clube jogar, vai ficar sempre na memória destes, não só pelas circunstâncias épicas da conquista, como também pelo ambiente e pelo mediatismo feito à volta do jogo. A equipa liderada pelo treinador Stuart Maynard, através do seu avassalador ataque, conquistou a atenção de um país inteiro que gosta realmente de futebol, assim como pela sua histórica campanha, a par do seu grande concorrente nesta competição, que também teve uma prestação digna de um campeão. 


A prova desse mediatismo foi a chegada deste jogo a vários meios de comunicação social por todo o mundo, bem como a elevada audiência que a DAZN conseguiu com a mesma.

 

A somar a todos estes fatores, a atmosfera no estádio estava à altura de uma grande final, com o estádio cheio de adeptos das duas equipas. Certamente, uma criança que tenha ido ver este grande jogo, mesmo que tenha estado do lado da equipa vencida, quererá apoiar o clube da sua cidade, visto que esta partida foi um exemplo que o melhor do futebol não está restrito apenas aos grandes estádios dos clubes com jogadores pagos a peso de ouro.


Todavia, estes jogos memoráveis em escalões inferiores não são exclusivos dos outros

países. Em Portugal, pelos mais variados estádios, de Norte a Sul do país, existem vários jogos, clássicos, finais e dérbis que conseguem colocar em polvorosa qualquer estádio, por mais modesto que seja. A diferença é que, ao contrário do que acontece nos outros países, os escalões inferiores apenas servem de notas de rodapé e de imagens que ficam bonitas para as capas dos jornais. 


A título de exemplo, enquanto o país britânico promove o apoio aos clubes mais pequenos, criando um conceito de “Non-League Day”, que consiste num dia em que não há jogos das principais divisões e os adeptos vão em peso ver o clube da sua cidade, cá, em Portugal, nem sequer uma equipa da segunda Liga que se qualifica para a final da Taça de Portugal, depois de 70 anos, tem o direito a uma capa de jornal, tampouco a uma transmissão televisiva da eliminatória pelo canal que, sendo pago com os nossos impostos, tem a obrigação de ser imparcial e de servir o interesse de todos os contribuintes. 


Tal diferença de mentalidades é tão grande que o jogador do Manchester United F.C. e da seleção nacional Bruno Fernandes criticou publicamente as capas dos jornais no dia seguinte ao feito da equipa de Torres Vedras, pela desinformação dos mesmos quanto ao evento desportivo mais importante do dia anterior.


Outro belo exemplo de um jornalismo que envergonha toda e qualquer pessoa com o mínimo de senso comum foi mais uma atitude questionável do diretor de comunicação do jornal Record, que decidiu dar destaque à conquista da Taça da Liga por parte do Vitória S.C. apenas no Norte do país, criando uma “Edição Norte” do jornal em questão, e tendo, para o resto do território nacional, reduzido tal conquista a uma mera nota de rodapé na capa, como se uma final de uma competição nacional só interessasse a uma região específica do país. 


Este género de seleção de informação por parte da imprensa portuguesa é um belo exemplo de marginalização dos clubes ditos pequenos e de um jornalismo que não se preocupa em informar os seus leitores sobre os acontecimentos importantes no desporto, mas sim o que é importante para algumas instituições desportivas.


Além disso, este género de jornalismo faz com que muitos talentos que militam em divisões inferiores não tenham o devido destaque e tenham mais dificuldades em alcançar patamares condizentes com a sua qualidade, sendo desperdiçados, assim, talentos melhores do que muitos jogadores que chegam aos grandes relvados através de um mediatismo que não se enquadra com a sua qualidade enquanto jogador. Tal como nos outros países, em Portugal também existem equipas com um bom estilo de jogo e capazes de fazer exibições categóricas e apelativas para os adeptos. Por outras palavras, também existem muitos Rochdale vs York City’s nos nossos campeonatos.


Para concluir, o jogo da quinta divisão inglesa foi o mais épico neste fim de semana, podendo este servir de exemplo para a forma como olhamos para este género de jogos no nosso país.

 Hugo Novo

Departamento Desporto


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