O Mundial que excluiu o mundo
- Luís Alves
- 13 de abr.
- 3 min de leitura
O futebol sempre se apresentou ao mundo com uma promessa simples: dentro das quatro linhas, as diferenças ficam do lado de fora. Não importa a origem, a língua, a religião ou a cor da pele — na hora do apito inicial, todos são iguais. É essa utopia que faz do Mundial a maior festa desportiva do planeta. Capaz de reunir mais de um bilião de pessoas em frente a um ecrã, de paralisar cidades inteiras e de transformar completos desconhecidos em camaradas por noventa minutos. E é precisamente isso que está a ser posto à prova em 2026.
Com o torneio a decorrer nos Estados Unidos, Canadá e México, as políticas de imigração da administração Trump lançaram uma sombra longa sobre o espírito inclusivo que a FIFA tanto proclama. Adeptos de dezenas de países enfrentam incerteza real quanto à obtenção de vistos para os EUA, que acolhem a esmagadora maioria dos jogos. O Irão, cujos jogadores têm os seus grupos sediados em solo americano e cujo pedido de realocação para o México foi recusado pela FIFA, poderá não comparecer devido ao clima geopolítico entre Washington e Teerão. Parlamentares de quatro partidos britânicos chegaram a assinar uma moção a pedir que o torneio fosse retirado aos americanos. E, entretanto, a FIFA declarou que tudo estaria bem.
A organização, fiel ao seu guião, insiste que "o futebol une o mundo". Gianni Infantino reuniu-se com Trump na Casa Branca, obteve garantias verbais e declarou o torneio aberto a todos. Mas garantias políticas e realidades burocráticas são coisas distintas — e os adeptos que tentam comprar bilhetes, requerer vistos ou simplesmente planear a viagem sabem-no melhor do que ninguém.
A FIFA enfrenta ainda críticas generalizadas pela adoção de preços dinâmicos: um único bilhete para um jogo do Mundial 2026 pode chegar aos 10.000 dólares. Uma entrada. Um jogo. Um valor que, por si só, diz tudo sobre para quem este torneio foi realmente concebido. Congressistas americanos classificaram a medida como a política "mais excludente da história do torneio". Seleções europeias como a França, Espanha e Inglaterra alertaram que poderão sair financeiramente prejudicadas caso não avancem nas eliminatórias.
O que este Mundial nos obriga a questionar não é apenas a competência organizativa da FIFA ou os excessos comerciais de uma organização que se define como sem fins lucrativos. É algo mais fundo e mais incómodo: até que ponto o desporto consegue ser um espaço de neutralidade e de união quando o próprio palco onde se realiza é atravessado por tensões políticas que lhe são completamente alheias? O desporto não vive fora do mundo — vive dentro dele, com todas as suas contradições, os seus muros e as suas hierarquias.
Há quem defenda que é precisamente nos momentos mais tensos que o desporto mais importa, que a bola tem o poder único de criar pontes onde a diplomacia falhou. É um argumento belo e, em parte, verdadeiro. Mas é também um argumento que pode servir de véu conveniente para encobrir falhas estruturais, decisões políticas e exclusões sistemáticas. Porque, quando um adepto iraniano não consegue visto, quando um cidadão de um país em desenvolvimento não pode pagar o bilhete, quando uma seleção inteira pondera não comparecer por razões que nada têm a ver com futebol, a promessa universal do desporto revela as suas fissuras.
Talvez a honestidade que devemos ao desporto — e a nós próprios enquanto seus apreciadores — seja reconhecer que a bola, por si só, não resolve o que a diplomacia não conseguiu. O futebol pode ser um espelho do mundo. Mas um espelho não muda - apenas revela - aquilo que reflete.
Luís Alves
Departamento Desporto

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