A vida triste não presta! Acabar em grande festa com José Pinhal Post Mortem Experience
- Marta Torres

- 23 de mai.
- 8 min de leitura
Em casos raros, encontram-se cassetes perdidas num apartamento cujas canções são levadas para os grandes palcos e festivais nacionais, criando um fenómeno que une gerações. José Pinhal Post Mortem Experience surge em 2016, com o intuito de homenagear a obra de alguém que partiu cedo demais, sem nunca ter conhecido o estrelato que a sua música ia alcançar.
José Pinhal carregou, nos anos 80, o peso de tentar mostrar a Portugal o que era a música de baile, sendo, atualmente, considerado um ícone romântico e figura maior da cultura popular nortenha. Na sua, infelizmente, curta carreira, venceu o Festival da Canção do Norte e gravou três volumes repletos de músicas que, hoje, nenhum bom português desconhece – foi um caso em que as suas canções “eram mais do que poesia”.
“Porém, não posso” deixar de reconhecer o prestigiado trabalho que estes 7 amigos fizeram. Com uma boa dose de nostalgia e uma sonoridade que não deixa ninguém indiferente, trouxeram, de novo, o baile ao panorama nacional. O seu sucesso tem sido amplamente reconhecido, nacional e internacionalmente. No ano em que celebram 10 anos de carreira (e se despedem dos palcos), o Tribuna esteve à conversa com o grupo, não só numa viagem ao passado, mas também como uma forma de manter vivo José Pinhal.
A cultura portuguesa torna-se um tanto “ingrata” com os seus artistas, que, muitas vezes, só recebem o devido reconhecimento depois do seu falecimento. No vosso caso, não estão apenas a fazer música, mas a assumir a responsabilidade de reviver as canções do José Pinhal. Sentem mais responsabilidade por estar a perpetuar um legado, do que se estivessem a atuar em nome individual?
Bruno Martins: Sim, há sempre esse peso. Em nome próprio, com as nossas composições, nós sabemos o que é que estamos a defender -- foram estas músicas que nós fizemos, gostem ou não gostem, é isto o que temos para oferecer.
Com o caso do José Pinhal há um legado, toda a história dele, há uma postura que eu acho que nós devemos ter, de respeitar e de homenagear. Portanto sim, acho que existe um peso de responsabilidade diferente.
Como não podia deixar de ser, perguntando “à bola de cristal” (não porque a vida vos está a correr mal, antes pelo contrário), se hoje pudessem ter uma resposta do José Pinhal a qualquer questão que lhe fizessem, o que gostavam de perguntar?
Zé Pedro: Eu gostava de saber quais eram as bandas preferidas dele, as influências dele, os gostos que ele tinha, o que é que o motivava a fazer música e cantar. Gostava de o perceber melhor como artista, já que naquela altura não havia muitas entrevistas – não há quase nada sobre ele, quase ninguém escreveu sobre a pessoa no tempo em que ela era viva. É uma curiosidade que tenho.
Bruno Martins: Há alguns relatos de outros artistas que o conheceram, de outras pessoas, mas era sempre porreiro saber mais.
Acham que, de algum modo, o facto de não haver muitas informações sobre a vida dele, sobre as suas influências, etc., acaba por dificultar o vosso trabalho de reinterpretar as músicas, mantendo-se fiel à pessoa?
Zé Pedro: Esta banda baseou-se, no fundo, nas poucas coisas que se conheciam do José Pinhal para construir um espetáculo, um tributo. Claro que as partes que não são conhecidas também nos dão mais espaço para imaginar como seria. Vemos relatos de outros artistas do mesmo tempo e tentamos preencher os bocadinhos que faltam.
Bruno Martins: No meu caso, há até alguns moves que vou fazendo em relação aos quais pessoas que eram próximas do José Pinhal me dizem “ah, ele fazia assim!” ou “ele batia palmas desta maneira”, e eu estou sempre a captar e tentar incorporar as coisas no concerto. Mas, no início, estávamos a especular muita coisa.
10 anos de carreira, certamente repletos de momentos de grande animação nos concertos, até porque ninguém fica indiferente às músicas do José Pinhal. Têm algum momento favorito, ou que guardem com um especial carinho, dos concertos?
Zé Pedro: Eu diria que o momento da apresentação da banda é sempre um momento caricato, porque não está definido. Cada um de nós, cada músico da banda, tem um momento de destaque. O Bruno também nos vai apresentando de maneiras diferentes e acho que essa é a parte que eu mais gosto
Bruno Martins: O público também intervém, também faz parte desse momento, então é sempre inesperado.
E há algum concerto que vos tenha marcado, onde o público tenha sido especialmente interativo?
Zé Pedro: Eu diria Caldas das Taipas, a banda estava numa fase que não era muito conhecida, o palco era pequeno, mas apareceu lá tanta gente! Foi uma surpresa para nós e acho que também para as outras pessoas, ninguém estava à espera que tanta gente já gostasse do José Pinhal e tivesse uma entrega tão grande.
Bruno Martins: Esse, o Fnac Live, Paredes de Coura...
Zé Pedro: Paredes de Coura foi incrível, o Bruno fez Crowd Surfing e ficou sem óculos.
Bruno Martins: Sim, levei uma patada de outra pessoa que também estava a fazer Crowd Surfing e fiquei sem óculos. Parei o concerto para pedir os óculos e apareceram dois ou três pares, de um momento para o outro. Várias pessoas atiraram e, ao terceiro par, por acaso, eram os meus.
Ainda neste âmbito dos concertos, se pudessem escolher um qualquer local para tocar, por mais fora da caixa que pareça, onde seria?
Zé Pedro: Nós já corremos todos os distritos de Portugal menos 3, então era um dos nossos objetivos tocar no distrito de Portalegre, Beja e na Madeira, ou seja, Portugal pelo menos ter um concerto por distrito.
Bruno Martins: Vamos tentar, mas só temos mais alguns meses, então é, tipo, uma corrida contra o tempo.
Durante muito tempo, o bailarico foi tratado com algum desdém, muito pouca gente assumia que gostava. Hoje, não garanto que “cantigas, mulheres e vinho são caminho para tudo esquecer”, mas como “a vida dura muito pouco”, começamos a aproveitar esta sonoridade e a alegria que lhe é inerente. Sentem que permitiram preencher um vazio que nem sequer nos apercebemos que tínhamos quanto à música de baile?
Bruno Martins: Não sei, talvez, mas acho que nunca é só uma banda ou um artista – claro que, sem dúvida, navegamos nessa onda de interesse da cultura popular portuguesa.
Que caminho ainda falta percorrer para o reconhecimento da música popular?
Zé Pedro: É uma pergunta difícil, porque, no entendimento das pessoas, há certos tipos de música que pertencem a locais diferentes e têm diferentes valores. As pessoas dão muito valor à música de baile quando é para dançar – acho que toda a gente compreende o valor da música na hora de dançar.
Bruno Martins: Se calhar, falta compreender uma maior multiplicidade da música popular, mas esse é sempre um caminho demorado. No fundo, é as pessoas terem interesse em descobrir o resto da música popular que existe, para além dos grandes sucessos, que estão sempre prontos para quando for para dançar, mas depois há mais músicas para descobrir.
Zé pedro: E isto não é o caso exclusivo da música popular. Há muitos géneros que as pessoas acham estranhos, por estarem fora do contexto – não sei se é o contexto que é tido como correto ou incorreto.
Bruno Martins: Têm de aparecer mais bandas e tentar levar a música para outros contextos.
Zé Pedro: E a música do José Pinhal é música de baile e música romântica portuguesa dos anos 80. Entretanto já tudo mudou muito, então nós somos muito diferentes das bandas que tocam connosco.
Bruno Martins: Mesmo a nível de instrumentos, o pessoal deixou de tocar baterias acústicas, as tecnologias foram mudando, há mais baterias elétricas, tudo mais sintetizado, já não se usam sopros ao vivo, usam-se guitarras com amplificadores. Nós tentamos manter a cena dos anos 70 e 80 nesse aspeto.
Muitas pessoas que vos ouvem, provavelmente, nunca teriam chegado ao José Pinhal sem este projeto. O que é que acham que se ganha, e eventualmente se perde, quando a música chega a novos ouvintes fora da sua origem?
Zé Pedro: Eu acho que, no fundo, tudo é válido, qualquer meio é bom para conhecer uma música.
Bruno Martins: Desde que chegue lá e crie o interesse de saber quem era o José Pinhal. Pode haver quem goste só da banda e não tenha esse interesse, mas nunca dá para controlar até onde o pessoal vai.
Preferem ser percecionados como a ponte para a obra do José Pinhal ou preferem ficar só na vossa música e não explorar tanto o artista em si?
Bruno Martins: As duas são válidas, mas eu fico mais contente e o nosso trabalho fica mais bem feito se as pessoas descobrirem o José Pinhal enquanto artista.
Zé Pedro: É um projeto de tributo, de homenagem a uma pessoa.
Bruno Martins: A maior parte das pessoas que vai aos nossos concertos já conhece o José Pinhal ou já foram a outros concertos e passaram a conhecer a partir daí – continua a aparecer malta que chega e “ui, o que é isto?”, mas a maior parte do pessoal já conhece.
Ao fim de uma década, e no ano em que pisam os mais notórios palcos nacionais, os Coliseus, decidem terminar o projeto, surpreendendo um público muito fiel e atento. Sentem uma sensação de dever cumprido, ou ainda existe aí o impulso de deixar a porta encostada para o futuro?
Bruno Martins: Acho que o dever está cumprido. Para nós é isso, acabar este ano, mas que seja de muita celebração e concertos. No fim é para fechar a porta.
Se tivessem hoje de esconder uma caixa num sótão para ser descoberta daqui a 20 anos, o que gostavam de colocar lá dentro?
Zé Pedro: Eu gostava de pôr lá um cartaz de plástico que recebemos em Salir do Porto, onde íamos dar um concerto e depois ia atuar o Quim Barreiros. Temos um cartaz daqueles que se fazem para as romarias, em plástico, com dois paus, que depois se prega nas árvores.
Bruno Martins: As castanholas, claro, algumas fotos que fomos recebendo, uns vídeos dos concertos, algo assim.
O que gostavam que ficasse desta Post Mortem Experience?
Bruno Martins: Eu acho piada à ideia de, daqui a 20 anos, alguém, que tenha sido jovem nesta altura e tenha descoberto a banda, ouça José Pinhal Post Mortem Experience e pense “ei, música da minha juventude”. Gostava que um jovem de hoje, daqui a 20 anos, pudesse olhar nostalgicamente para esta banda.
Zé Pedro: Também gostava que, daqui a 20 anos, o José Pinhal continuasse a ser um nome conhecido por todos, de entre os artistas de música popular portuguesa
Bruno Martins: Eu adorava que o pessoal continuasse a colocar nos sets a “Tu És a Que Eu Quero” – gostava que essa continuasse a tocar nos bailaricos, por aí e por ali.
Sentem algum receio de, deixando de existir a banda e a proximidade das pessoas nos concertos, o nome do José Pinhal possa cair no esquecimento?
Zé Pedro: A “Tu És a Que Eu Quero” foi um sucesso, tornou-se um clássico, para ficar perpétua. Quanto ao resto, o nome dele como artista, não sei.
Bruno Martins: Sinto que o que será, será. A música de José Pinhal sempre teve e continuará a ter uma vida para além da banda. Com todos os fãs que a música foi angariando nos últimos anos e com as memórias que criámos em conjunto com o público nos nossos concertos esperamos que estas canções e o nome de José Pinhal possa ficar para sempre no coração e memória de muita gente.
Para terminar, esse sentido de responsabilidade não adiou a decisão de pôr fim ao projeto, ou só sentiram que estavam prontos para terminar?
Zé Pedro: Nós fomos falando e sabemos que todos os projetos têm o seu tempo.
Bruno Martins: Nós vimos que fazíamos 10 anos em 2026 – se calhar... – fomos falando e, acima de tudo, interessa-nos acabar em grande festa, não deixar isto cair no esquecimento, é isso que é importante.
Marta Torres
Departamento Grande Entrevista

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