Estudou na Faculdade de Direito da Universidade do Porto nos primeiros anos da sua existência. Seguiu Direito Fiscal “por mero acaso”. Ao longo da sua carreira já passou por empresas, como a BA Glass e a Philip Morris, que lhe deram uma perspetiva diferente de como trabalhar para um cliente, experiência que considera essencial para qualquer advogado. Recentemente tornou-se co-managing partner na sociedade de advogados José Pedro Aguiar-Branco. Luísa Campos Ferreira é a prova de como é possível conciliar uma carreira de sucesso com a vida pessoal e, nesse equilíbrio, ser-se feliz.
1 - Direito Fiscal ou Tributário é um ramo de Direito pelo qual poucos se interessam, principalmente, logo após terminarem a licenciatura. Contudo, a Luísa parece ter dedicado toda a sua vida profissional a esta área. Foi uma decisão fácil, quase instantânea, quando terminou o curso?
Não, de todo. Estava longe de achar que esta seria a minha área de eleição para o futuro. Enquanto estava na faculdade, confesso que não sabia bem o que queria fazer, não sabia se queria ser advogada, se ia trabalhar para uma empresa… estava tudo em aberto.
Fiz aquele percurso normal que toda a gente faz na saída da licenciatura: procurei um estágio, entrei na ordem dos advogados… Aliás, fiz um percurso um pouco diferente, porque fiz uma pós-graduação em ciências médico-legais e, depois, ainda me inscrevi num mestrado em medicina legal, porque tinha uma propensão, desde o início, para a área da psicologia e psiquiatria. Então, tinha aquela ideia de que o Direito me poderia ajudar na psicologia forense e que isso poderia ser algo interessante.
Andei um pouco perdida… terminei a ordem, fiz estágio, e, entretanto, estava na tese de mestrado e a minha vida pessoal avançou, alterando o rumo do meu percurso profissional. Na altura, surgiu um concurso de entrada de estagiários para a administração pública da Autoridade Tributária, na altura DGCI. E eu pensei: “Porque não? Vamos tentar.”. Fiscal era uma área de que sabia muito pouco ou quase nada, mas preparei-me para o exame nacional, fi-lo, tirei uma nota incrível e pude escolher ir para onde queria. Acabei por ir para Matosinhos, para estar mais perto de casa, porque tinha um bebé de seis meses. E foi assim que entrei para Fiscal, por mero acaso.
Depois de trabalhar no serviço de finanças durante um ano, adorei e comecei a interessar-me imenso pelas matérias da fiscalidade. Depois de trabalhar num escritório ligado à imigração, onde aprendi imenso, surgiu uma oportunidade na JPAB para a contratação de um advogado de Fiscal. Vim, fiquei e as coisas precipitaram-se desta forma. Pouco depois tirei um Mestrado em Fiscal. Mas foi um mero acaso.
Não gostava de Família, não gostava de Crime, não gostava do tribunal e o Fiscal retirava toda essa parte que eu não gostava do Direito. Adoro ser advogada, adoro o Direito, adoro o que faço, mas numa vertente pouco emocional, sem a parte das relações humanas, naquilo que é o seu pior. Confesso que me custa lidar com situações em que temos dois particulares e temos de fazer um exercício de “quem tem razão?”. A parte de fiscalidade dá-me esse conforto, porque o Estado é o Estado. A Administração Pública tem coisas boas e tem coisas más e eu gosto de estar do lado de defesa dos interesses dos contribuintes, do cumprimento da legalidade, que, às vezes, o Estado não faz da melhor forma. Isso dá-me gozo.
O Direito Fiscal é muito específico, complexo, abrange todas as áreas do Direito e é muito técnico.
Se fosse hoje, tomaria uma decisão diferente?
Não, mas estive pouco mais de 4 anos fora da sociedade de advogados. De 2016 a 2020 estive a trabalhar em empresas, na parte daquilo que é o Direito no negócio, ou seja, em tudo o que juridicamente implica o negócio de uma empresa. Acho que seria importante para qualquer advogado ter a oportunidade de passar por isso para conhecerem melhor o cliente. Acredito que sou melhor advogada por ter estado do outro lado e ter uma perspetiva do cliente, daquilo que são as suas necessidades. Ajudou-me a ter uma visão mais prática das coisas.
2 - A advocacia é uma profissão muito idealizada, talvez pelo sucesso de algumas séries televisivas e pela romantização nos meios sociais, ou pelo prestígio que os mais velhos lhe dão (naquela célebre escolha entre ser médico ou advogado). Contudo, certamente haverá aspetos que só quem efetivamente exerce a profissão conhecerá. Assim, gostaríamos de saber quais foram os principais choques de realidade quando se tornou advogada? E também aquilo que atualmente entende serem as maiores surpresas dos estagiários?
Não sei como é numa grande sociedade de advogados em Lisboa, mas aquilo que vos posso dizer resulta daquela que é a minha realidade nesta sociedade.
É uma profissão mesmo muito exigente, que vive, como qualquer outra profissão, de muitas frustrações e de algumas alegrias e satisfações. Acho que é como tudo. A parte mais romântica e do glamour da profissão não consigo perceber muito bem. Aquilo que se vê nos filmes não é de todo a realidade. Existe a parte de lidar com os clientes e com os colegas (o que aqui funciona muito bem), trocar ideias, debater diferentes opiniões… mas acho que não é diferente de qualquer outra profissão em que se trabalhe num contexto empresarial.
Acho que quem está em prática isolada tem uma perspetiva completamente diferente, são realidades diferentes. Dentro de uma sociedade de advogados há o conforto de teres uma estrutura, de te sentires acolhida no meio de colegas que têm o mesmo objetivo e de estares num grau de especialidade que te permite não teres de te dispersar pelo mundo do Direito.
Quanto ao que me chocou mais, não é uma pergunta fácil. Acho que é mais giro do que aquilo que achei que seria. Pensava que era uma coisa mais longínqua do que aquilo que efetivamente é, mas também, devido aos anos de prática, já não acho tão intocável quanto pensava que seria. De qualquer forma, acho que é um sentimento que se tem em qualquer profissão.
Em relação aos estagiários, acho que tem mais que ver com os choques da geração, da forma de estar e de viver, do que propriamente com o exercício da profissão. Aquilo que os mais novos hoje procuram não é aquilo que quando eu entrei procurava, e nós temos de nos adaptar a este tipo de exigência. “Nós”, os mais velhos, e os mais novos também têm de estar mais abertos àquilo que é a exigência do exercício de uma profissão.
Mas não acho que haja grande dificuldade ou choque para além daquilo que é o normal na entrada no mundo do trabalho. Em qualquer profissão acredito que o choque seja igual, seja um médico, um consultor… A grande diferença é sair da faculdade e começar a trabalhar.
Não, raramente vou a tribunal. Não é como veem nos filmes, até porque são sistemas jurídicos diferentes.
Advocacia é uma profissão em que se passa a maior parte do tempo no escritório. Obriga-te a estudar muito — sempre –, tens de ser alguém que goste de estudar, de escrever e de estar sempre a aprender. Passas muitas horas em frente ao computador, mas claro que, depois, também tens as diligências.
3 - Costuma-se dizer que um advogado não tem horários (e não é no melhor sentido). Como é que se concilia o sucesso numa carreira que exige tanto com uma vida pessoal saudável?
É difícil. Também depende muito da área do Direito. Há áreas do Direito mais exigentes do ponto de vista pessoal, como é o caso de Família por lidarem com situações mais sensíveis. Mas não acho que seja impossível. Cada pessoa tem de traçar os seus próprios limites, como em qualquer profissão. Depende muito do que cada um quer para a sua própria vida, mas não acho que seja inconciliável.
No meu caso, foi perfeitamente compatível: perco algumas noites e fins de semana, mas sempre consegui manter um equilíbrio entre as duas coisas. Tenho colegas que já não podem dizer o mesmo. A advocacia é exigente e, muitas vezes, fora de horas, mas há muitas outras profissões em que isto acontece. Têm de se traçar limites.
Trabalhar na função pública ou numa empresa é diferente, é mais certo – tens um horário, tens um contrato de trabalho – dá-te outro tipo de segurança. Portanto, são opções. Para mim, por exemplo, trabalhar desse modo não me fazia sentir realizada, ainda que na profissão que atualmente exerço implique algum sacrifício pessoal. Sinto que tenho um grande desgaste a nível de stress e ansiedade, mas, por enquanto, ainda compensa, gosto de me sentir desafiada. Os prazos, a pressão do cliente, o receio de não estar a fazer o suficiente, tudo isso cria ansiedade. Mas, sei que vai haver uma altura em que vou querer parar, fazer alguma coisa diferente, uma vez que tenho noção de que não é possível manter este ritmo de vida por muito tempo. Comparativamente, a faculdade foi um sossego. Claro que não gostava de estudar coisas que não me pareciam servir para nada – que na verdade servem – e fazer exames, mas era diferente.
4 - Apesar de grande parte da sua carreira ter sido na José Pedro AGUIAR-BRANCO Advogados, foi durante quase um ano Counsel na Tabaqueira, em Lisboa. Como foi essa experiência?
É muito diferente ser advogada de uma empresa ou numa sociedade de advogados. Gostei muito, especialmente na Tabaqueira, sobretudo porque vi o que é uma empresa multinacional. A Tabaqueira faz parte da Philip Morris, que tem cerca de 70 mil trabalhadores de todo o mundo, e fazer parte de uma estrutura desta dimensão foi uma experiência incrível, porque estávamos habituados a uma estrutura pequena, mais familiar, em que todos gerem um pouco aquilo que é o dia-a-dia de uma sociedade.
Quando passas para uma estrutura muito grande, os procedimentos estão muito mais determinados: sabes exatamente qual é a tua função, as tuas regras e com o que podes contar. Se o ambiente for descontraído e próximo, como no caso da Tabaqueira, e por estares a trabalhar dentro de um cliente – só tens aquele cliente –, acabas por ter uma perspetiva do Direito também muito diferente. Trabalhas com recursos humanos, com a parte laboral, com a parte de contratos, direito societário… A conciliação de todas as jurisdições envolvidas é desafiante, nomeadamente, fazer projetos em que várias jurisdições entram para um determinado resultado. Uma vez estive numa reunião em que estavam 500 pessoas, só juristas de todo o mundo! A perspetiva de trabalhar numa multinacional é diferente e foi fascinante. Nesse ponto de vista, deu-me uma perspetiva do negócio muito ampla: como funciona o marketing, o procurement, a parte das vendas… tudo o que possam imaginar, porque o Direito tem esta parte boa: permite entrar em tudo o que são as componentes do negócio.
Há quem defenda que há mais e melhores oportunidades em Lisboa. Na sua perspetiva, essa ideia faz sentido?
Infelizmente, acho que sim. Há mais oferta de trabalho. Não estou a dizer que aqui, no Porto, não exista e que não se consiga fazer carreira: é perfeitamente possível. Ainda assim, há uma oferta muito maior em Lisboa, basta abrir qualquer site de uma grande sociedade de advogados que esteja também em Lisboa para ver a quantidade de advogados que têm em Lisboa e a que têm no Porto. Se bem que acho que há muita qualidade aqui. Mas muita gente vai para outros sítios – tenho colegas que foram para Lisboa precisamente por isso – à procura de oportunidades.
5 - Já há quase 25 anos que deixou a FDUP, mas para muitos a universidade são anos inesquecíveis. Quais são as memórias que nunca esquecerá da famosa “casa amarela” (que na verdade ainda não o era)?
Os professores eram muito novos na altura, e essa grande proximidade com a faculdade, professores e alunos é das melhores coisas que tínhamos. Aliás, ainda mantenho algumas amizades. A verdade é que estávamos todos no mesmo barco: no início da carreira e no início de uma faculdade, sem saber ainda muito bem o que é que aquilo iria ser. Essa é a grande recordação e o grande orgulho que tenho em ter passado pela FDUP. Ter estado nos inícios e fazer parte daquele conjunto de pessoas com vontade de que o projeto resultasse e que a FDUP fosse uma grande faculdade. A ligação que tinha com as pessoas é das melhores recordações.
6 - Houve alguém que a motivou a prosseguir esta carreira? Acredita que o facto de jovens mulheres terem uma figura, em concreto, uma figura feminina, como exemplo a seguir, pode servir-lhes de inspiração e, consequentemente, aumentar o número de mulheres nos cargos mais altos de empresas?
Tive a sorte de ter, ao longo da vida, grandes mentoras, pessoas que me acompanharam e que são peças essenciais da minha vida. Aliás, mentoras e mentores, porque também tive o privilégio de ter colegas homens que sempre me motivaram e sempre me deram muita força e reconhecimento. Quando tens reconhecimento de pessoas que tu respeitas e admiras, isso dá-te muita força.
A professora Luísa Neto, que eu admiro muito e que sempre acreditou em mim. O professor Diogo Feio, que foi professor na FDUP, ao longo da minha carreira, sempre me motivou. Tenho mulheres advogadas incríveis, tanto aqui na JPAB, como na BA Glass — que me fizeram acreditar que era capaz de evoluir na carreira e me sentir realizada — como, também, na Philip Morris, colegas que são uma força da natureza, um exemplo e uma grande inspiração e que acreditaram em mim desde o primeiro momento.
Resulta mais uma crítica construtiva do que destrutiva! Tive alguns momentos difíceis na profissão em que uma crítica destrutiva era arrasadora. Há quem ache que, por criticar negativamente uma pessoa, ela vai lutar mais, mas não concordo. Tem de ser muito verdadeiro, mas com o objetivo de ajudar a pessoa a evoluir e, por isso, procuro fazê-lo com as pessoas em quem acredito.
Quanto ao problema do reduzido número de mulheres em altos cargos, penso que tem que ver com a mentalidade. Acredito que já estamos a mudar, mas, infelizmente, tenho a sensação de que o caminho para uma mulher é sempre mais difícil do que para um homem. Não estou a dizer que seja esse o meu caso. Não posso, de todo, dizer isso. Contudo, pelo que vejo ao meu redor, continua a exigir-se muito mais de uma mulher do que de um homem.
Acredito que ainda exista essa dificuldade na nossa sociedade e essa resistência do reconhecimento paritário. Ainda temos um longo caminho a fazer dentro do que é o nosso tecido empresarial. Basta ver nas sociedades de advogados quem está nas posições de administração. Temos mais mulheres no Direito e, às vezes, nas sociedades, ainda são mais os sócios homens do que mulheres, o que não faz muito sentido. Aqui, na JPAB, não é o caso, temos mais sócias do que sócios. Em reuniões que envolvem várias áreas do Direito, temos, por vezes, reuniões só com mulheres, isto é, em que as coordenadoras dos departamentos são só mulheres. Mesmo quando trabalhei na BA Glass, uma empresa multinacional de fabrico de vidro, a CEO era mulher e a responsável pelos recursos humanos também.
E, para concluirmos, pensando que a Luísa pode e, certamente, será a inspiração de algumas jovens, que mensagem gostaria de lhes deixar?
Tens de ser sempre muito fiel a ti mesma, ser responsável, gostar e acreditar muito no que fazes. E deves manter sempre isso na tua vida, tanto pessoal como profissional. É preciso seres honesta contigo própria, manter sempre a integridade e nunca ter medo de dizer as coisas tal qual elas são. Se for para repor a verdade e manter a seriedade das coisas, é essencial nunca ter medo de fazer isso.
Partam do pressuposto que têm sempre muitas coisas para aprender e acreditem no que façam. Quando não sentirem isso é porque têm de mudar, não estão a fazer o que é suposto fazerem. Há sempre tempo para mudar, aos 30, 40, 50… têm de se reinventar e procurar sempre aquilo que gostam e para o qual se sentem motivadas. Se for assim, têm tudo para correr bem!
Rita Ferreira e Vitória Ferreira
Departamento Grande Entrevista
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