Alberto e Idalécio falam sobre impostos
- Gonçalo Guilherme
- 28 de fev.
- 2 min de leitura
Há uns dias atrás fui a um café lanchar e, enquanto esperava pela minha torrada, estavam na esplanada dois senhores, numa mesa relativamente perto da minha, e sem que me apercebesse comecei a ouvir a conversa entre eles. Um dos senhores reclamava, muito irritado, dos impostos. Vamos chamá-lo Alberto. Dizia o Alberto que era um exagero a quantidade de impostos que se paga no nosso país e que, desde que acordava de manhã até se deitar à noite para dormir, passava o dia a pagar impostos.
Depois de ouvir isso refleti um pouco e percebi o que ele queria dizer: acordo, acendo a luz e estou a pagar um imposto, vou tomar banho e pago imposto sobre a água, vou tomar um café e pago imposto sobre o café, mas se o comprar no supermercado e o fizer em casa também já paguei o imposto, por isso não há mesmo como fugir.
Até aqui consigo concordar com tudo o que o Alberto estava a dizer. De facto, estamos sempre a pagar impostos, e percebo a indignação dele. Nisto responde o outro senhor que o acompanhava, vamos chamá-lo Idalécio, dizendo que as coisas não eram bem assim, que os impostos são muitos, é verdade, mas que acabar com eles não era solução.
Após ouvir isto Alberto exaltou-se, virou-se para o amigo e continuou a reclamar, dizendo que não fazia sentido, que os impostos iam era para o bolso dos políticos e que o povo é que pagava, mas não recebia nada por isso. A resposta de Idalécio foi imediata. Começou por perguntar ao amigo se preferia viver sem impostos. Alberto, sem hesitar, respondeu que sim, é claro que sim. Idalécio perguntou-lhe então onde iria Alberto se estivesse doente, ao que este respondeu “Ao Hospital”. De seguida, perguntou como ia para o trabalho, e Alberto respondeu que ia de metro. E a última pergunta que Idalécio fez foi se quando Alberto deitava a cabeça na almofada à noite conseguia dormir descansado sem se preocupar com a sua segurança, ao que Alberto respondeu que sim, porque há polícia. É então que Idalécio diz ao amigo, que são os nosso impostos que pagam isso, que pagam a saúde e a segurança que nós tanto damos por certas, e aconselhou-o a que, na próxima vez que pensasse em dizer que preferia viver sem impostos, se lembrasse do que isso realmente significa.
No fim do discurso de Idalécio apercebi-me de uma coisa muito importante: estava há 30 minutos a ouvir dois desconhecidos a falar e a minha torrada ainda não tinha chegado.
Gonçalo Guilherme
Departamento Crónicas
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