Basebol
- Duarte Gomes
- 9 de dez. de 2024
- 6 min de leitura
Nota inicial sobre a rubrica:
Esta rubrica nasce como uma tentativa de manter a minha vida enquanto redator ativa, num momento complicado em termos académicos. Será um modo de, simultaneamente, dar a conhecer novas modalidades desportivas aos nossos leitores, destacando aquelas mais desvalorizadas/subestimadas em Portugal; e de espalhar o meu amor pelo desporto. Para aqueles que nos acompanham, durante estas últimas semanas temos reiterado a importância de diversificar a cultura desportiva no nosso país.
Neste sentido, como modo de mostrar que não nos ficamos pelos discursos bonitos, surge o “(Re)Conhecer o Desporto”.
Parte I: Basebol
O basebol é o mais recente exemplo de um desporto pelo qual comecei a nutrir um carinho especial. No verão passado, por motivos que me são desconhecidos, dei por mim a ver um jogo da Major League Baseball (MLB). Chicago Cubs vs St. Louis Cardinals foi a partida em questão e, para ser muito sincero, foi daqueles encontros que não orgulham os adeptos: nenhuma das equipas a bater particularmente bem, condições atmosféricas longe das ideais e pontos só nos instantes finais. Ainda assim, provavelmente devido à afinidade que sinto pela cidade de Chicago e respetivas equipas desportivas [1], não desisti daquela modalidade (aparentemente) aborrecida, mesmo tendo acabado o jogo sem perceber grande parte das regras.
De facto, o basebol não é um jogo cativante ou fascinante, pelo menos inicialmente: é lento, confuso e, de um modo geral, visto como algo estranho ao olhar europeu. Contudo, quando estamos inteirados das suas regras e enredos, pode tornar-se surpreendentemente entusiasmante e energético.
Para ficarem a perceber um pouco mais desta prática desportiva, o melhor será simplesmente assistirem a um encontro, visto que se torna bastante complicado traduzir em palavras a essência desta. Dito isto, tendo por base um resumo das regras elaborado pela Federação Portuguesa de Basebol e Softbol, vou tentar explicar, de um modo breve e simples, como funciona uma partida de basebol.
Desfiando o Novelo
O basebol é um jogo entre duas equipas, constituídas por 9 jogadores, jogado num campo em formato de losango, tal como demonstra a figura 1. As duas equipas vão trocando entre defesa e ataque durante as 9 entradas (innings) e ganha quem acabar o jogo com mais pontos. O objetivo da equipa atacante é, portanto, marcar mais pontos (também conhecidos por “runs”) do que o adversário, utilizando um taco para bater na bola arremessada pelo lançador adversário e correr pelas quatro bases, dispostas nos quatro vértices do losango. Já a equipa defensora tem como objetivo eliminar os batedores. Isto pode dar-se de 14 formas diferentes, de acordo com o Regulamento [2], sendo que as mais comuns são apanhar a bola no ar, lançar a bola para uma base antes do corredor lá chegar ou fazer com que o batedor falhe o lançamento 3 vezes (ou porque deixou a bola cair na zona de strike – figura 2 – ou porque tentou bater e falhou a bola e esta foi apanhada pelo recetor [3]).


Estas são apenas as principais regras do basebol. Obviamente, não ficarão a perceber tudo com esta curta explicação, longe disso - até porque nem eu, que já acompanho a modalidade há uns meses, percebo. A ideia é que, com este resumo, sejam capazes de assistir a um encontro de basebol sem ficarem com cara de quem viu a conta do restaurante (tal como eu fiquei). Deste modo, talvez sintam mais prazer no que estão a ver e se tornem fãs assíduos ou, quem sabe, se aventurem nuns treininhos.
Cartões Brancos
Nesta secção, vou apresentar as razões que me levam a dizer: “o basebol é um desporto digno de maior reconhecimento”:
Fusão entre estratégia e ação: se num momento estamos a refletir sobre o tipo de lançamento usado e os números da temporada de certo jogador; noutro estamos a torcer para que a bola saia do estádio ou a ver um jogador a correr desalmadamente para chegar a uma base. Esta dinâmica constante faz com que o jogo nunca se torne monótono, pois há sempre a expectativa de que poderá ocorrer algo entusiasmante;
Momentos icónicos e jogadas surpreendentes: desde home-runs [5] decisivos que definem o resultado dos jogos a jogadas defensivas aparentemente impossíveis, o basebol nunca deixa de proporcionar espetáculo. Além disso, vivemos numa época privilegiada, com jogadores geracionais, como Shohei Ohtani e Aaron Judge, a elevarem a MLB a patamares inéditos de brilhantismo;
Regras Curiosas: tal como suprarreferido, o basebol possui imensas regras estranhas e diferentes, o que o tornam, de certo modo, interessante - quer por ser diferente, quer pelo prazer de descobrir, involuntariamente, novas regras;
Emoção das Estatísticas: este ponto pode ser um pouco controverso: nem todos gostam de ser “bombardeados” com estatísticas, muitas das quais parecem irrelevantes; no entanto, na minha experiência, estas apenas acrescentam valor à modalidade e recompensam os espectadores mais atentos;
Beleza das jogadas: para finalizar, não podia (obviamente!) deixar de fazer uma menção à vertente artística do basebol. A beleza e genialidade dos movimentos dos lançadores; a graciosidade com que os defesas apanham a bola do ar; a fluidez com que um batedor acerta na bola; todos estes gestos emanam arte e tornam o basebol num desporto esteticamente agradável.
Ocidental Praia Lusitana
Para finalizar, resta-me deixar uma nota sobre a prática de basebol no nosso querido país. Infelizmente, as notícias não são as melhores (tal como seria de esperar): o número de praticantes é bastante baixo (cerca de 250 praticantes em 2022, todos amadores); apenas existe um campo oficial [6], em Abrantes, considerada a capital do basebol em Portugal e os apoios são escassos (limitando-se apenas às câmaras municipais, destacando-se o papel da Câmara Municipal de Abrantes, bem como as contribuições do IPDJ).
Ainda assim, nos últimos anos, a modalidade tem verificado um crescimento significativo, principalmente devido à grande adesão por parte de atletas provenientes da América Latina, onde o basebol reina como um dos principais desportos. Adicionalmente,tendo em conta o crescente interesse pelo desporto americano, não seria de admirar se um movimento pró-basebol ganhasse forma em Portugal, de maneira natural. Para se ter uma ideia, das quatro principais ligas desportivas dos Estados Unidos, três (NBA, NFL e NHL) já se encontram presentes no mercado televisivo português, sendo a MLB a única sem transmissão oficial.
Isto dá-se, segundo percebo, pelas características confusas e mais técnicas do basebol, que “assustam o espectador e o potencial atleta”. O basebol é um jogo marcado por erros, sendo muito provável, ao pegar num taco, falhar, falhar e continuar a falhar; mesmo quando somos bons, falhar é a norma. Pois bem, esta ideia de que errar é normal contraria a cultura desportiva tradicional, ainda para mais num país como nosso, conhecido por ser impaciente e ansioso.
Não obstante estes entraves, cabe-me a mim, defensor das modalidades esquecidas, mencionar o potencial do basebol como desporto, não só numa vertente de espectador (sobre a qual já me alonguei o suficiente), mas também numa vertente de praticante. Embora frustrante, o basebol tem o potencial de se tornar numa experiência gratificante. Ademais , é perfeito para a formação, incutindo valores fundamentais, como o trabalho em equipa, espírito de perseverança e a inclusão.
Dito isto, para finalizar, deixo, novamente, um apelo a que deem oportunidade a novos desportos. Mesmo para quem diz não gostar de desporto, é importante relembrar: só sabemos se gostamos de uma comida depois de a provarmos.
Divirtam-se, sejam felizes e, para quem quiser um cheirinho do que o basebol tem para oferecer, deixo aqui alguns vídeos que poderão despertar a vossa curiosidade:
Duarte Gomes Departamento Desporto
[1] E, obviamente, porque estava de férias e não tinha mais nada para fazer.
[2] Este valor acresce a 18 se contarmos as eliminações por ações ilegais.
[3] O recetor é o jogador defensivo que se encontra atrás do batedor, que tem como objetivo apanhar a bola arremessada pelo companheiro de equipa e fazer parecer que caiu na zona de strike.
[4] O segmento “cartões brancos” refere-se especialmente aos pontos positivos do desporto como espectador, não como praticante.
[5] Um home-run (a jogada mais famosa do basebol) ocorre quando o batedor acerca na bola de tal forma que esta sai do campo de jogo, em território válido (geralmente sobre a vedação/ cerca que delimita o campo), garantindo-lhe a possibilidade de percorrer todas as bases e marcar um ponto sem poder ser eliminado.
[6] Para contrariar este desafio, as equipas treinam e jogam em campos de futebol adaptados, com as medidas do basebol.
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