SUPER BAYERN E O SEU MONOPÓLIO
- Hugo Novo

- 17 de nov.
- 6 min de leitura
A Bundesliga, um campeonato que eu tanto estimo pela sua qualidade, competitividade e ambiente nas bancadas, é criticada por muitos por ser um “campeonato de um só clube”, o F.C. Bayern München.
É compreensível que, para quem não acompanha o campeonato alemão e não aprecia as disputas por outros objetivos na tabela, como um lugar nas competições europeias ou a fuga à despromoção, tenha esta visão sobre esta liga soberba. Em parte, concordo com esta opinião, não só pelo facto desta equipa ter conquistado 12 dos últimos 15 campeonatos disputados, tendo sido 11 deles de forma consecutiva, como também pelo facto da maioria destes títulos terem sido conquistados com alguma tranquilidade, antes da última jornada, com exceção dos campeonatos de 2018/2019 e de 2022/2023, quando os bávaros lutaram pelo troféu até ao fim contra o seu principal concorrente, o B.V. Borussia Dortmund.
Porém, a história deste gigante mundial, considerado um dos melhores clubes do mundo, não viveu sempre momentos de glória – muito pelo contrário, já tentaram “assassinar” o, hoje em dia, temido “gigante da Baviera”. E se, para muitos, a supremacia do clube de Munique é mal vista por entediar o campeonato germânico, aos meus olhos, e aos olhos de muita gente que conhece a história de como o Bayern de Munique atingiu este patamar e construiu a sua identidade, esta é o resultado de um percurso épico e demonstrativo do poder e da mentalidade avassaladora deste enorme clube.
Fundado no dia 27 de fevereiro de 1900, o Fußball-Club Bayern München e. V., atualmente o clube com mais sócios no mundo, viveu tempos conturbados nos seus primeiros anos. Depois deste período inicial conturbado, mas com um título nacional ganho em 1932, o clube passou pelo pior momento da sua história na época do Terceiro Reich, uma vez que foi perseguido pelo regime nazi devido ao facto de ter judeus na sua direção. Uma das primeiras medidas deste movimento totalitário foi obter o controlo de todas as instituições desportivas e sociais da Alemanha e, posteriormente, proibir qualquer membro da comunidade judaica de ter uma participação ativa nestas instituições. Ora, dado que, na altura, o presidente e o treinador do Bayern eram judeus, este colosso foi considerado um Judenklub - conceito pejorativo para apelidar clubes com membros judeus na sua estrutura. Todavia, em vez da instituição acatar a ordem antissemita do governo de Hitler, esta optou por resistir e tentar manter o seu fundador, presidente, e ex-jogador Kurt Landauer durante o máximo de tempo possível, até este símbolo de resistência, grandeza, e amor ao clube ter sido levado para um campo de concentração no dia seguinte à trágica e hedionda noite dos cristais, tendo sido, apesar de tudo, libertado pela sua participação na Primeira Guerra Mundial.
O que se sucedeu depois desta detenção foi a quase tentativa de assassinato do clube. Desde ameaças de idas para campos de concentração até várias sanções desportivas e financeiras. Uma das piores foi, com o objetivo de humilhar a instituição que, desde o primeiro dia, se opôs ao regime genocida alemão, a ordem de mudança de emblema para um símbolo redondo com uma suástica em grande destaque – emblema esse que ainda hoje faz com que muita gente que não tem noção das barbaridades prefira associar o Bayern a genocidas. Apesar de tudo, o clube resistiu a esta época sombria e, mesmo com debilidades financeiras gravíssimas, conseguiu continuar a competir, embora sem grandes êxitos desportivos, já com a volta de Kurt à presidência da equipa de Munique, de 1947 a 1951.
Mal sabiam os bávaros que esta crise, que se estendeu até meados da década de 60, foi o despoletar dos seus vitoriosos capítulos no país e no mundo. Quando, em 1964, nove jogadores tiveram de abandonar o clube pelas fracas condições financeiras, os bávaros adotaram um dos principais pilares da sua filosofia, que, até hoje, leva o clube ao domínio absoluto no seu país – apostar em jogadores do mercado interno, adquiridos a preços reduzidos. Esta abordagem ao mercado trouxe ao clube os maiores nomes da sua história e os maiores símbolos do seu ADN – o defesa central Franz Beckenbauer e o ponta-de-lança Gerd Müller. Com eles, e com outros nomes icónicos no plantel, o clube conquistou vários campeonatos alemães e três Taças dos Clubes Campeões Europeus consecutivas, além de uma Taça Intercontinental.
Desde aí, o Bayern não só é a equipa-base da seleção alemã, como também é uma espécie de seleção da Bundesliga, uma vez que várias contratações do clube vêm a preço de ouro do seu mercado interno, principalmente das equipas que mais ameaçam o seu lugar no topo do futebol germânico, como o Borussia Dortmund, o RB Leipzig, ou o Bayer Leverkusen, sendo este último responsável pela interrupção da série de conquistas nacionais deste temido clube.
Além disso, a reforma forçada da estrutura dos campeonatos alemães após a Segunda Guerra Mundial também contribuiu para esta longa hegemonia bávara. Com a fragmentação da Alemanha em duas repúblicas, e com sanções desportivas ao país devido ao sucedido durante o período do Terceiro Reich, o campeonato foi dividido em cinco ligas regionais da RFA até 1962, havendo, depois, eliminatórias entre os melhores classificados de cada campeonato regional para decidir o campeão nacional.
Na sequência desse torneio, surgiu a ideia de criar um campeonato unificado entre as equipas da Alemanha Ocidental e, com isso, surgiu a Bundesliga. Apesar de não ser um dos clubes fundadores, o Bayern ganhou força através deste modelo competitivo e, até hoje, conquistou mais de metade dos campeonatos disputados desde então - foram 33 das 62 edições. A título de exemplo, o clube tornou-se o maior campeão do país em 1987, quando ultrapassou 1. F.C. Nürnberg, que conta com 9 campeonatos em toda a sua história, sendo que, desde aí, mesmo com o clube de Nuremberga afastado dos lugares cimeiros alemães, nenhum dos outros grandes clubes do país conseguiu chegar ao segundo lugar. Além disso, é esmagadora a distância do maior campeão alemão para o segundo maior campeão, sendo esta de 25 campeonatos, quase o triplo do total de títulos da equipa de Nuremberga.
Esta supremacia leva a que este clube careça de um rival na Alemanha. O seu clube vizinho, o TSV 1860 München, outrora um concorrente de peso, que perdeu terreno quando este iniciou uma era de vitórias quase ininterruptas, está há muito tempo afastado dos principais escalões alemães. O maior rival dentro de campo, o Borussia Dortmund, tem uma rivalidade muito acesa com o seu vizinho F.C. Schalke 04, e, além do mais, são vários os recentes Der Klassiker’s que terminaram com uma autêntica goleada bávara. A dificuldade em encontrar uma rivalidade como as mais conhecidas no mundo prende-se com o facto de ninguém estar à altura do Bayern, nem mesmo nos seus tempos de glória, como por exemplo o Borussia Mönchengladbach nos anos 70. A fase de excelência desses clubes, além de temporária, não consegue acompanhar o nível avassalador de quem conquista troféus domésticos como se de troféus amadores se tratassem.
Embora o planeamento desportivo da equipa seja exemplar, ele não basta, por si só, para justificar a dimensão nacional do domínio e da hegemonia que se impuseram no desporto alemão. Destaco, também, a identidade e a postura competitiva desta equipa. O Bayern de Munique é a definição pura de não tirar o “pé do acelerador”, mesmo quando o resultado já está ditado ou quando ganha por mais de uma década consecutiva o seu campeonato. Estes encaram sempre o adversário com o mesmo respeito, seja ele um oponente na Liga dos Campeões ou um clube da terceira divisão na sua Taça.
Na minha ótica, não existe nenhuma equipa no mundo com uma sede tão grande de vencer como esta, que aumenta a cada golo marcado, a cada jogo ganho e a cada título conquistado.
É certo que nem toda a gente aprecia um clube que ganha sempre, que monopoliza uma competição, e que não tem uma rivalidade à sua altura. Contudo, na minha perspetiva, este caso de monopolização não se trata de algo aborrecido, como se, de repente, alguém tivesse injetado milhares de milhões de euros num clube, como é o caso de clubes como o Paris Saint-Germain. Esta construção de uma mentalidade vencedora trata-se de uma epopeia desportiva, construída de forma meritória, com sangue, suor e muita paixão de um clube que lutou pelo direito à sua existência, que nunca deixou para trás nenhum apaixonado pelo clube e que, acima de tudo, valoriza o maior ativo que um clube, principalmente o que tem o maior número de sócios do mundo, pode ter – os seus adeptos.
Hugo Novo
Departamento Desporto




Comentários