Cabo Verde no Mundial: quando um arquipélago sonha em uníssono
- Tiago Freire

- 10 de nov.
- 3 min de leitura
Há momentos que transcendem o desporto e há vitórias que não se medem em golos, mas em lágrimas, orgulho e memória de uma nação.
A qualificação de Cabo Verde, pela primeira vez na história, para o Mundial de Seleções é um desses momentos. Um acontecimento que ecoa muito para além das quatro linhas. Mostra, para além da capacidade desportiva, que a seleção africana materializou o brocardo, da autoria de Fernando Pessoa, “O Homem sonha, Deus quer, a obra nasce”. A realidade é que ninguém dava nada pelos cabo-verdianos: mais uma tentativa, mais um insucesso, à semelhança de 2002, 2006 e 2010.
Mais tarde, nos anos de 2014, 2018 e 2022, os Tubarões Azuis estiveram à altura do desafio e quase alcançaram a classificação, transformando o insucesso esperado num bichinho pequenino que crescia e crescia com a esperança de alcançar a tão almejada qualificação. Finalmente, a 13 de outubro de 2025, fez-se história, cumpriu-se a crença de um povo. Cabo Verde tornou-se o 2º país Luso-Africano a chegar a um Mundial e o menor país africano em população a conseguir tal feito.
Cabo Verde, um pequeno arquipélago perdido no Atlântico, tornou-se independente a 5 de julho de 1975. Nascido de ventos coloniais e moldado por séculos de resistência e migração, aprendeu desde cedo a transformar a escassez em força. Um país que sempre viveu entre o mar e a esperança, entre a distância e a saudade, encontrou agora, no seio de 10 ilhas, através do futebol, uma nova forma de se afirmar perante o mundo.
O desporto, em Cabo Verde, sempre foi mais do que uma simples prática. Nos bairros de areia e nas praças das ilhas, o futebol foi escola e refúgio, ponto de encontro e espelho de identidade. Desde os tempos em que se jogava com bolas improvisadas, até às vitórias do Mindelense, do Sporting da Praia ou do Académica do Porto Novo, o futebol cabo-verdiano cresceu entre dificuldades e paixão. Foi nas ruas, mais do que nos estádios, que nasceu a garra que agora brilha no palco mundial.
Jogar futebol de rua é muito mais do que o próprio nome indica: é um futebol sem regras, sem balizas, com pedras ou aquilo que a natureza oferece para demarcar a baliza, e, por vezes, mesmo sem a própria bola. É marcante pela amizade que um desporto cria, mas também pelas revelações de grandes craques que esse futebol oferece. Em Cabo Verde é um pouco assim… joga-se até à mãe chamar, não até ao árbitro apitar…
Esta qualificação é, por isso, uma vitória de todos. Dos que ficaram nas ilhas e dos que partiram, dos que vibram nas arquibancadas e dos que acompanham à distância com o coração apertado. É um grito que une toda a nação africana, mas sobretudo todos os países que fazem de David em “Davi e Golias”. Por vezes, também uma luta racial, uma luta contra a desigualdade de oportunidades, uma luta contra a desigualdade de meios, um grito no meio do Oceano Atlântico: “Estamos aqui, somos ilhas, mas falamos como oceanos”. Abre-se essa luta com o pontapé de Ryan Mendes na vitória frente ao Eswatini e ganha-se a batalha com o golo de Stopira, jogador do Torreense, da 2ª Liga portuguesa, na mesma vitória frente ao Eswatini. Foram 7 vitórias, 2 empates e apenas 1 derrota - histórico!
O futebol sempre teve o poder de construir pontes. Para Cabo Verde, este Mundial é mais do que um torneio: é um espelho onde o país se revê, confiante, criativo e resiliente. É a consagração de uma geração que acreditou que era possível, mesmo quando poucos acreditavam. É a prova de que um pequeno ponto no mapa pode fazer o mundo inteiro olhar.
Quando o hino tocar e a bandeira azul, vermelha e branca tremular entre as maiores nações do futebol, cada cabo-verdiano, onde quer que esteja, sentirá o coração bater mais forte. Porque este Mundial não é apenas uma estreia, é uma afirmação histórica: Cabo Verde chegou, e o mundo vai ter de ouvir o seu som.
Tiago Freire
Departamento Desporto




Comentários