Quando a Paixão Tem Mensalidade
- Tiago Freire

- 15 de dez. de 2025
- 4 min de leitura
Os direitos televisivos no futebol português moldam, há décadas, a competitividade da Liga — e continuam a ser um dos temas mais polémicos do desporto nacional.
Em Portugal, ao contrário do que sucede nas principais ligas europeias, os direitos de transmissão, historicamente, não foram negociados de forma centralizada, mas sim individualmente por cada clube. Este modelo gera desigualdades profundas e cristaliza um fosso competitivo que, ano após ano, parece quase impossível de ultrapassar.
Para os chamados “grandes”, Porto, Benfica e Sporting, esta realidade tem sido financeiramente vantajosa. São clubes com um enorme efeito mediático, com massas adeptas gigantes e com um peso televisivo que lhes permite negociar contratos significativamente superiores. Essa visibilidade gera receitas, atrai patrocínios e reforça o círculo virtuoso que mantém estes clubes sempre na linha da frente. Com essas receitas, os clubes conseguem pagar salários e transferências, ficando sempre um passo à frente dos ‘pequenos’
Não se trata de culpa, mas sim de uma consequência natural derivada de um modelo que privilegia individualmente quem já é maior.
Para os clubes mais pequenos e de média dimensão, o cenário é completamente diferente. A falta de audiência televisiva reduz drasticamente o valor dos seus contratos e limita a capacidade de competição. Em alguns casos, a sobrevivência desportiva depende quase exclusivamente das receitas televisivas, que, sendo mais baixas, perpetuam o ciclo vicioso: menos dinheiro leva a menos competitividade, que, por sua vez, leva a menos visibilidade, originando contratos ainda mais reduzidos. É, portanto, um problema estrutural que o futebol português carrega há anos.
Assim, ao contrário do que acontece, por exemplo, em Inglaterra, uma equipa que é despromovida do principal escalão do futebol português raramente consegue erguer-se no(s) ano(s) que se segue(m). Consequentemente, estas dificuldades acabam por recair, surpreendentemente, sobre os adeptos das equipas “grandes”: nos chamados “aways”, veem os preços dos seus bilhetes a serem exorbitantes, existindo a tal necessidade de fazer receita.
O recente acordo do Moreirense com a TVI, que transmite vários dos seus jogos, é um sinal interessante dessa fragmentação - mostra que alguns clubes procuram alternativas fora da órbita habitual das operadoras premium, tentando levar o seu futebol a mais pessoas, em canal aberto, o que não deixa de ser um gesto que aproxima o jogo daqueles que nem sempre têm meios para o acompanhar.
No meio de tudo isto, persiste a questão dos canais próprios de clubes, como a BTV. Sem entrar em ataques diretos, porque tudo deve ser analisado com moderação, é inegável que um clube que controla integralmente a produção e transmissão dos seus jogos em casa tem um poder adicional que, pelo menos em abstrato, levanta dúvidas. A escolha dos horários dentro das janelas possíveis, a gestão da realização televisiva, a seleção das repetições e a construção da narrativa visual e comentada podem influenciar a perceção pública dos lances e do desempenho em campo. Não se trata de acusar manipulação, mas sim de reconhecer que a independência total na transmissão cria, inevitavelmente, um desequilíbrio face à neutralidade que se esperaria no contexto competitivo.
A este cenário junta-se um fator que pesa cada vez mais nos adeptos, o preço. A Sport TV continua a praticar valores elevados para quem quer acompanhar integralmente a Liga, além de existirem vários pacotes fragmentados que obrigam os adeptos a pagar cada vez mais por menos.
Para muitos portugueses, ser adepto é uma paixão, não um luxo; e, no entanto, os valores cobrados colocam a experiência futebolística atrás de um muro financeiro que exclui quem não tem disponibilidade económica.
A chegada da DAZN ao mercado português, com forte peso em competições europeias e em algumas ligas internacionais, traz diversidade, mas também contribui para a dispersão da oferta e para o aumento da fatura final de quem quer ver desporto como um “todo”. Progressivamente, o adepto sente que precisa de assinar duas, três, às vezes quatro plataformas diferentes para acompanhar o seu clube e diferentes modalidades desportivas.
Quando olhamos para a Premier League, percebemos o porquê de este tema ser tão debatido. Os direitos são vendidos de forma centralizada e distribuídos com critérios que promovem equilíbrio competitivo e estabilidade financeira. Não é um sistema perfeito, mas é previsível, transparente e, acima de tudo, pensado para que todos os clubes tenham condições de competir. Em Portugal, infelizmente, ainda estamos longe desse ideal.
Mas para lá das análises técnicas e financeiras, há algo mais profundo, quase romântico, que não pode ser ignorado, uma verdade absoluta: o futebol é dos adeptos. É dos que se levantam cedo para ir ao estádio, dos que pintam a cara, dos que vibram, sofrem e choram pelo seu clube. E também é dos que, por motivos financeiros, de distância ou de horários, não conseguem ir ao estádio, mas que deviam, pelo menos, poder ver o seu clube sem pagar valores absurdos. O futebol, antes de ser negócio, é cultura, emoção e identidade. Tornar o acesso ao jogo um privilégio sujeito a preços exagerados é afastar as pessoas daquilo que mais amam.
O que deveria ser simples - ver o clube do coração - tornou-se, para muitos, um luxo. E isso afasta o futebol da sua essência: um desporto popular, acessível, vivido em comunidade, que faz o adepto comum, a uma aleatória quarta-feira, dar um abraço a um estranho porque era a pessoa mais próxima no momento do golo. Enquanto os direitos televisivos forem pensados apenas como um produto comercial e não como um elo entre clube e adepto, continuará a perder-se algo fundamental na alma do jogo, continuará a perder-se a paixão.
Para concluir, o modelo atual continua a favorecer os maiores, a tornar a Liga menos equilibrada e a dificultar o acesso ao futebol para quem o vive com mais paixão. A fragmentação entre operadoras, canais próprios, preços elevados e plataformas internacionais só reforça a sensação de que o futebol, que deveria unir, está cada vez mais a ser vendido em parcelas. E a verdade é simples: o jogo não existe sem adeptos, e é por eles que o futebol deve ser pensado.
Tiago Freire
Departamento Desporto




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