Chamem o 9-1(1), mas não para Portugal
- Gabriela Baltazar

- há 3 horas
- 3 min de leitura
O número americano 911 (nine-eleven) soa a alerta, neste caso, a uma emergência futebolística, a algo que correu tão mal que só um número de socorro poderia resolver. Mas, no apuramento para o Mundial de Futebol de 2026, esse número não é, definitivamente, para Portugal. Antes pelo contrário: foi a própria seleção portuguesa que ligou a sirene de alerta… mas para os adversários.
Emparelhados com a Hungria, República da Irlanda e Arménia, os portugueses sabiam que teriam, obrigatoriamente, de carimbar passaporte para mais um Mundial. No entanto, a caminhada no apuramento foi um autêntico episódio de uma novela mexicana: nada foi constante.
O primeiro jogo contra a Irlanda representou um resumo perfeito da alma lusa: Cristiano Ronaldo falhou um penálti - raro como um eclipse - e, já nos descontos, surgiu Rúben Neves, envergando a camisola 21, para marcar o golo do empate, como se a própria luz de Diogo Jota tivesse reacendido a chama portuguesa. Depois, no duelo frente à Hungria, o Estádio José Alvalade parecia estar pronto para gritar “o apuramento já cá canta”, mas a seleção portuguesa tinha de vir acompanhada de um bocadinho de drama, obviamente. O empate nesse jogo foi o suficiente para pôr o país inteiro a fazer contas e a rezar a todos os santinhos. Além disso, escuso de falar da derrota em Dublin - um daqueles jogos em que tudo parecia estar a correr mal, mas que retratou o abanão necessário para a equipa perceber que o apuramento não pode ser dado como garantido.
Como já nos tem vindo a habituar, Portugal, um bocado à imagem do seu povo, deixa “tudo para a última”. Assim, tudo se resumia ao jogo no Estádio do Dragão frente à Arménia. E mais importante do que a chuva que caía sobre o relvado, foi a verdadeira tempestade de golos com que os jogadores presentearam os adeptos nas bancadas e nos sofás. A Equipa das Quinas assinou uma goleada de nove golos contra um, igualando um feito que apenas tinha acontecido uma vez na história, contra o Luxemburgo, em 2023.
Se o resultado já era impressionante, os jogadores também não ficaram para trás. Num jogo onde se falava da ausência do capitão, havia curiosidade para perceber quem assumiria o papel principal numa equipa que se tem habituado a vê-lo como protagonista. A resposta surgiu depressa – e em duplicado. Bruno Fernandes e João Neves puxaram os holofotes com a serenidade de quem está habituado aos grandes palcos, acabando os dois com hat-tricks, que pareceram mais obra de rotina do que de inspiração súbita. Para João Neves, foi ainda mais especial: foram os primeiros golos pela Seleção, marcados com a maturidade de um veterano e com o brilho de quem está apenas a começar o seu percurso na seleção portuguesa. Renato Veiga abriu a contagem com um cabeceamento cirúrgico e, a partir daí, Portugal acelerou de forma imparável, com Francisco Conceição a fechar a goleada. Ora, portugueses que são portugueses oferecem ainda uma cortesia aos visitantes, e a Arménia conseguiu marcar o golo de honra, mas acredito que o seu desejo é de, num futuro próximo, não voltar a enfrentar Portugal, para conseguir esquecer (na medida do possível) os catorze golos sofridos no total do agregado.
Uma coisa é certa: o número de emergência continua a não ser necessário. Mas, como falamos da Seleção, mais precisamente da sua exímia capacidade de fazer sofrer os portugueses, é de esperar que, no decorrer do Mundial, vá ser preciso. Quiçá a solução para as nossas aflições seja a chama que tem guiado Portugal - Diogo Jota - e será, inequivocamente, por ele que vamos fazer história em 2026.
Gabriela Baltazar
Departamento Desporto






Comentários