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Entrevista Eleições Presidenciais

  • Foto do escritor: Jornal Tribuna
    Jornal Tribuna
  • 16 de jan.
  • 8 min de leitura

Desde 1974, Portugal teve 5 Presidentes da República: António Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Rebelo de Sousa. A 18 de janeiro de 2026, Portugal volta às urnas, com 11 candidatos, na tentativa de escolher o próximo Chefe de Estado. Desta forma, o Tribuna convidou os candidatos presidenciais a responder a algumas questões sobre os seus possíveis mandatos.

 

1.     Quais as prioridades que guiariam o seu mandato enquanto Presidente da República?

 

António Filipe: Teria como prioridade primária, a defesa e cumprimento da Constituição, da democracia que esta prevê, na sua dimensão política, económica, cultural e social, que tanto necessitamos. Essa defesa consubstancia-se naquilo que tenho vindo a chamar à atenção na minha candidatura, a vida de cada um, os problemas que as pessoas sentem e as soluções para lhes dar resposta. São as condições de trabalho, em que à partida se insere a denuncia do pacote laboral, mas também a exigência de inverter a política de baixos salários no nosso país e a precariedade, com o objetivo de criar as condições para que a juventude se possa emancipar, as dificuldades de acesso à habitação, o reforço do Serviço Nacional de Saúde, a perda de poder de compra, o acesso universal à educação.

 

Em suma, a minha candidatura corporiza o projeto de Abril, que tanto necessitamos de cumprir para melhorar as nossas vidas.

 

 

2.     O Presidente da República é o garante da independência e unidade de Estado. Perante a instabilidade geopolítica em que vivemos, geradora de um sentimento de insegurança face à possibilidade de se despoletar uma guerra à escala mundial, qual será a sua estratégia, numa articulação com o Governo, para assegurar a Defesa Nacional e a autonomia face a choques externos imprevisíveis?

 

Catarina Martins: Portugal tem tido uma historia de que nos devemos orgulhar, de multiculturalismo e de promoção da paz. Não é por acaso que o Secretário-Geral das Nações Unidas, António Guterres, é um português, também.

 

Portugal tem tido, historicamente, nos seus anos da democracia, um papel muito importante sobre a autodeterminação dos povos, sobre o dialogo. Falo do nosso papel, por exemplo, na independência de Timor-Leste, que mobilizou toda a população e que é muito reconhecido.

 

Acho que devíamos utilizar essa capacidade que temos, e a politica externa é uma politica de responsabilidade do governo, mas que o Presidente da República deve cooperar, para recuperarmos esse papel de Portugal no Mundo, de mediador para a paz, em missões que nos orgulham

 

Por outro lado, temos de tornar o nosso país mais forte a choques externos e isso significa mais soberania em setores fundamentais, como a energia, a alimentação, ou a saúde. Nós dependemos muito do exterior nestes setores, aliás não temos controlo sequer nenhum nacional sobre um setor fundamental como a energia. Portanto, eu acho que cabe também, na magistratura de influencias de uma Presidente da República, lutar pelas questões fundamentais de soberania, que são também as questões de segurança do nosso país

 

 

É claro que o nosso país não é uma ilha, não vive sozinho e, portanto, é muito importante os mecanismos de cooperação e de articulação a nível europeu, compreendendo que vivemos um momento complicado do ponto de vista internacional, em que há objetivamente uma aliança entre Donald Trump e Vladimir Putin, pelo que uma cooperação europeia com autonomia e que seja, claro, direcionada para a paz, é cada vez mais importante.

 

3.     Reconhecendo a influência que a comunicação social detém na formação da opinião política, nomeadamente por meio da cobertura jornalística dos debates ou sondagens, de que forma é que considera que este impacto se poderá repercutir na tomada de uma decisão consciente por parte do eleitorado, nestas eleições presidenciais?

 

António Filipe: Tendo em conta a aposta que alguns órgãos de comunicação social em determinados candidatos, esperam que os impactos sejam significativos. Seria justo questionar o porquê desta aposta. O porquê de quando ainda faltava mais de um ano para as eleições presidenciais já estarmos a ver sondagens com hipotéticos candidatos.

 

O que posso dizer da minha parte é que tudo tenho feito para contribuir para que os problemas das pessoas, as matérias que referi há pouco, estejam presentes nestas eleições. O que se tem revelado o quão insubstituível é a minha candidatura.

 

Assumo-me como o candidato de Abril, de esquerda, que quer unir os democratas que se encontram descontentes com um país votado à injustiça. Creio que esse espaço estava por ocupar e, portanto, espero um bom resultado nestas eleições.

 

4.     Ultimamente, tem se acentuado a polarização esquerda-direita, por força, sobretudo, do enfraquecimento do desejo dos eleitores em mudar os seus hábitos de voto, persistindo a dicotomia entre os partidos portugueses “catch all” (PS e PSD). De que forma encara esta necessidade, cada vez mais persistente, de integrar um determinado pólo do espectro político?

 

Catarina Martins: O problema do nosso país é sobretudo um problema de economia desigual, que é um problema que é nacional e global, mas aqui temos de tratar do nosso país. Nós vivemos um momento de enorme concentração de riqueza, estamos no meio de uma revolução tecnológica que permitiu aumentar, e muito, a capacidade de produção, mas quem vive do seu trabalho, percebe que é cada vez mais difícil chegar ao fim do mês e essa é a grande dicotomia e a grande polarização da nossa sociedade. Essa é a principal, entre quem ganha muito com a riqueza de quem trabalha e quem trabalha ver muito pouco salário ao fim do mês, ficando impossível encontrar uma habitação. Essa é que conta.

 

No meio desta dificuldade e polarização de quem vê a sua vida muito mais difícil, há quem tente convencer-nos que se nós humilharmos o nosso vizinho do lado, seja porque razão for de discriminação, nos podemos sentir melhor. O combate da democracia é saber que é defendendo quem trabalha que podemos viver todos melhor e ter comunidades que são mais fortes e mais coesas.

 

 

5.     Num contexto de economia globalizada, é difícil identificar um povo capaz de exercer, com efetividade, o seu poder face aos poderes económicos e, assim, demonstrar a sua capacidade de governabilidade. Desta forma, “instala-se” na mente dos cidadãos a redução da democracia a um mero sistema de escolha de representantes.  Como poderá ser restaurada a efetividade dos governos em responder eficazmente aos problemas sócio-económicos?

 

António Filipe: A nossa história já demonstrou caminhos possíveis para que as pessoas possam assumir nas suas mãos os destinos das suas vidas, que é disso que estamos a falar.

 

Para superar as dificuldades que surgem de degradação da democracia, necessitamos de fomentar a participação de cada um na sociedade. Participação que vai da mais pequena dimensão, como as associações de estudantes, fomentar a participação dos estudantes, discutir os seus problemas, procurar soluções e lutar por elas. O mesmo se diz às questões mais gerais, necessitamos que a política praticada corresponda àquela que dá resposta aos problemas de fundo. Precisamos acabar com os jogos de bastidores e com as políticas que favorecem uma minoria da sociedade, em desfavor da ampla maioria, os trabalhadores, o povo, a juventude.

 

Caso contrário, enquanto não se vir os problemas de cada um resolvidos, procurar-se-á soluções que a pretexto de muita coisa, terá como consequência a diminuição e degradação da democracia.

 

6.     Vivemos tempos de instabilidade política e democrática. Nos últimos 5 anos, tivemos 3 eleições legislativas, sendo a maioria causada por crises políticas que levaram à dissolução da Assembleia da República. Nos termos do art. 133º CRP, é uma das competências do Presidente da República dissolver a Assembleia da República, contudo, e mais do que nunca, esta deve ser uma medida de ultima ratio. Em que circunstâncias consideraria levar novamente o país a eleições? Ultrapassada uma “linha vermelha”, priorizaria a tentativa de consenso e diálogo em prol da estabilidade, ou avançaria, imediatamente, para a dissolução?

 

Catarina Martins: Eu sou muito critica, fui na altura e mantenho a minha posição, da forma como a Assembleia da República foi dissolvida tantas vezes, julgo eu em momentos em que o Parlamento podia ter encontrado soluções. Acho que o Presidente da República alimentou um certo tacticismo eleitoral dos governos em funções, em vez que responsabilizar os partidos a terem maiorias parlamentares que resolvessem os problemas do país. Portanto, devo dizer que tenho uma visão muito restritiva.

 

Claro que a dissolução da Assembleia da República deve ser utilizada, mas sempre e só quando esteja em causa o funcionamento das instituições e os equilíbrios necessários do Estado de Direito Democrático, e não simplesmente porque há impasse politico. Quando há impasse politico, o Parlamento tem de resolver.

 

7.     O ensino superior tem enfrentado novos desafios e é inquestionável que, findos os estudos, tornou-se muito difícil, para o país, reter os seus talentos. Ciente do facto de que o Presidente da República não legisla, mas tem um poder de influência sobre o debate político, de que forma, sendo eleito, encarará esta questão? Qual será o seu papel em garantir que o ensino superior e os jovens não são esquecidos pelo governo?

 

António Filipe: Tudo farei para que o desígnio do ensino superior público, gratuito, democrático e de qualidade, de acesso universal, seja cumprido. É urgente para o desenvolvimento do país, para a juventude e as suas famílias. E para isso é necessário que o financiamento do Ensino Superior Público seja encarado como investimento e não despesa e os estudantes como tal e não como clientes.

 

O Presidente da República não pode ficar indiferente ao número crescente de estudantes que ficam de fora do Ensino Superior, seja devido aos Exames Nacionais, seja porque não têm uma carteira que comporte os custos de ingresso e frequência. Como Presidente da República não me irei imiscuir da defesa do direito ao Ensino.

 

8.     Perante o desgaste do diálogo público e tendo presente o conselho do atual Presidente para que o próximo Chefe de Estado saiba retratar as diferenças dos portugueses, como deve o/a futuro/a Presidente atuar para reforçar a relação direta com os cidadãos e a articulação entre diferentes sensibilidades sociais?

 

Catarina Martins: Eu acho que é muito importante que as instituições e o poder politico resolvam os problemas reais das pessoas. Os jovens não arranjam contratos de trabalho dignos desse nome, quase ninguém consegue arranjar uma casa e viver sem estar com o coração nas mãos, isso é que tem de ter resposta. A fatura do supermercado sobe e os salários não chegam, as pensões não chegam, as pessoas precisam de um médico e não o têm

 

Eu acho que uma presidente da República serve para dizer que é sobre isso que o país tem de falar e não sobre outra coisa qualquer. Portanto, o equilíbrio dos poderes institucionais faz-se dessa forma.

 

Acresce que com o governo muito à direita e a fazer acordos com a extrema-direita, estou absolutamente convencida que o Estado de Direito Democrático fica defendido com uma Presidente de esquerda.

 

9.     Desde o 25 de abril Portugal teve 7 Presidentes. Qual foi o seu favorito, por que motivo?

 

António Filipe: Não há nenhum Presidente da República com que me tenha identificado totalmente. Porém, tendo em conta o passado e o posicionamento político geral de cada um, o Presidente com que mais me identifico foi Jorge Sampaio. Contribuí para a sua eleição no primeiro mandato em 1996 derrotando Cavaco Silva mas não votei a sua reeleição em 2001 em que apoiei a candidatura de António Abreu. Em todo o caso, Jorge Sampaio, ao longo do seu percurso, deu provas bastantes do seu apego aos ideais democráticos e a valores progressistas com que me identifico.

 

 

10.   Olhando para o futuro, como é que gostaria de poder descrever Portugal no final do seu eventual mandato?

 

 

Catarina Martins: Portugal é um país fantástico, cheio de gente que trabalha imenso, que tem muita força e acredita na sua comunidade. Eu gostaria de chegar ao fim do mandato como Presidente da República e saber que coloquei essa força e essa vontade no centro da política e, assim, conseguimos ter um país em que todos podemos viver melhor.



*Foram endereçados convites a todos os candidatos presidenciais.

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