Chat GPT, o que quero para este Natal?
- Madalena Almeida
- 13 de dez. de 2024
- 3 min de leitura
Não é segredo para ninguém que o final do ano, e as celebrações a ele associadas, são causadores de stress para as famílias. As decorações, os presentes, o planeamento de tudo e mais alguma coisa… Se já consome bastante tempo para uma só pessoa, quem dirá quando dessa pessoa depende todo um agregado familiar? Nestes momentos, é fácil compreender as bênçãos que os pais cantam à evolução tecnológica. Desde os aspiradores que trabalham sozinhos ao bom velho motor de busca Google (para quando é difícil decidir qual a melhor prenda a oferecer àqueles parentes a quem fazemos o favor de nos lembrar em datas especiais), toda a ajuda é bem vinda, especialmente aquela que mantém as crianças entretidas enquanto os pais tratam das coisas importantes. Afinal, se não ajudam, ao menos não atrapalhem!
Um dos maiores feitos da indústria tecnológica é precisamente o do entretenimento infantil, tendo vindo a criar autênticas “amas secas” que salvam os pais atarefados de interagir com os seus fedelhos ranhosos e embirrentos. E isto não se cinge apenas às épocas do ano mais atarefadas! “O menino está aborrecido?” Põe um vídeo no tablet! “O menino quer um cãozinho?” Acabou de ser lançado um novo brinquedo de cãozinho robô, que dá muito menos trabalho do que um verdadeiro! “Tem perguntas a fazer? É curioso?” Pode muito bem pesquisar as coisas por si mesmo na Internet! Atualmente até pode fazer a pergunta em voz alta e terá uma voz a responder-lhe, ultrapassando a barreira anteriormente imposta pela iliteracia da idade. As coisas começam a ficar preocupantes quando os ditos fedelhos deixam de usar a imaginação para criar conversas e passam a usá-la para humanizar a “entidade” que conversa com eles.
A grande verdade é que a inteligência artificial está presente em todos os sistemas eletrónicos de que nos servimos, não importa o quão insignificante (o próprio corretor automático é um exemplo dela). O problema surge precisamente quando essa presença passa de quase impercetível para uma autêntica omnipresença, quando funções que deveriam servir apenas para colmatar falhas humanas ameaçam apoderar-se de profissões inteiras. Exemplos já existentes no mundo real são a multimédia, a arte digital, os anúncios publicitários, até fotografias, pois cada vez mais empresas visam utilizar a I.A. para desempenhar estes trabalhos, tudo em prol da redução de custos. Cada vez mais nos inserimos um jogo de “encontrar o impostor”; à primeira vista, os conteúdos que circulam até parecem normais e legítimos, mas, quanto mais tempo passarmos a olhar para eles, a ouvi-los, mais fácil se torna identificar os bizarros traços que denunciam a utilização de I. A. E o pior de tudo é que esta sensação absolutamente normal de estranheza vai desaparecendo, conforme as crianças são expostas, cada vez mais cedo, a estes autênticos “skinwalkers” que se apoderam aos poucos do mundo físico.
Recentemente ouviu-se falar, no nosso país, de utilizar a I.A. para “ajudar” no problema da falta de professores. Afinal, para quê proteger uma profissão cada vez mais desprezada pelas gerações que foram educadas, educam e educarão as próximas baseadas nos ecrãs e na tecnologia, cronicamente corcundas na sua submissão? Para quê incentivar o trabalho e a criação se já tudo aparece praticamente feito? Para quê partilhar ideias, sonhos, interações, se já se inventaram artifícios que copiam estas capacidades humanas na perfeição e preenchem o vazio da solidão sem termos de sair da nossa zona de conforto? Realmente, só faltava esta!
Neste desejo de comodismo, conseguimos auto-infligir, sem percebermos, uma incompetência que se estende para além do nosso intelecto, da destreza mental e física, para um meio social. Não deveríamos, pelo menos nestas festividades que se avizinham, tão ligadas à família, zelar pela proximidade humana, por verdadeiras interações? Aliás, será que os mais novos, que afinal são os mais afetados, querem isso? Deem-lhes uns minutos para perguntarem ao Chat GPT o que devem fazer e já voltamos a este assunto.
Madalena Almeida
Departamento Crónicas
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