Círculo de destruição do Epstein
- Matilde Almeida

- há 2 dias
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Jeffrey Epstein foi muita coisa: financeiro, bilionário, professor de matemática, pedófilo, violador, abusador, intermediário para as elites alcançarem os seus desejos mais obscuros, entre outros. Em 2008, foi condenado por solicitação de prostituição − estando entre as vítimas uma menor − a uma pena de 18 meses. Mais tarde, em 2019, alvo de novas acusações de tráfico sexual, morre na cela da prisão em Nova Iorque sob circunstâncias suspeitas. Não obstante, as atividades ilícitas praticadas pelo próprio e pelos seus colaboradores continuam a ser investigadas, especialmente desde a eleição presidencial norte-americana de 2025.
Em fevereiro de 2026, foram divulgadas mais informações do caso Epstein, totalizando três milhões de páginas de arquivos, 180 mil imagens e dois mil vídeos, relativos a uma investigação que teve início em 2005. É possível aceder aos ficheiros no website do Departamento de Justiça norte-americano, que criou a “Biblioteca Epstein”, numa tentativa de alcançar a transparência.
Marie Farmer foi uma das vítimas do sistema de abuso orquestrado por Jeffrey Epstein. Conheceu-o pela primeira vez numa exibição de arte no fim do curso, em que estava a vender peças da sua autoria. Após terminar a sua formação na New York Academy of Art, juntamente com um grupo de colegas, foi selecionada para uma viagem com todas as despesas pagas para o Novo México, onde estudaria debaixo da alçada do pintor Eric Fischl e conheceria um “patrono” abastado − Epstein − que desejava comprar obras de arte de artistas emergentes. Foi a partir daqui que, infelizmente, passou a conhecer a figura com mais proximidade. Mais tarde, foi recrutada para ser consultora de arte do próprio, entre outras funções administrativas, entrelaçando várias esferas da sua vida numa teia confusa e obscura. Para além de ter sido sexualmente abusada e ameaçada incessantemente por Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell, mais tarde descobriu que a sua irmã Annie também tinha sido sujeita aos mesmos tratamentos.
Maria Farmer destaca-se pela sua coragem, tendo sido uma das primeiras vítimas a denunciar às autoridades e publicamente o caso, e mais tarde tendo movido uma ação contra o FBI por negligência relativa à situação. É de realçar ainda os quadros que criou, onde ataca as elites por permitirem, direta ou indiretamente, que os crimes tomassem lugar e por se envolverem neste mundo sem qualquer objeção. Os seus quadros, especialmente a obra The Setiles, retratam estes indivíduos como lagartos homicidas, com nuances e detalhes que só podemos desejar um dia compreender por completo. Na margem do quadro tem nomes como Bush, NBC e Hitler, talvez metáforas, talvez denúncias ignoradas durante demasiadas décadas.

Por quem são compostas estas elites em concreto, especialmente as que estiveram em contacto com Jeffrey Epstein após ser condenado? Tendo por base a análise de 1,4 milhões de emails, elaborada pelo The Economist, foram cinco centenas as figuras mais mencionadas nos ficheiros em causa, pertencendo a todas as áreas da sociedade, estando entre elas: Lawrence Krauss, físico norte-americano; Ariane de Rothschild, banqueira francesa e CEO do Grupo Edmond de Rothschild; Ehud Barak, ex-Primeiro-ministro de Israel; Elon Musk, empresário, bilionário e ex-conselheiro sénior da Casa Branca; Donald Trump, atual Presidente dos EUA.
No entanto, prevalece relevante entender quais são as motivações e razões para estes indivíduos tomarem expressa e tacitamente estas decisões. De acordo com Pedro Adão e Silva, professor auxiliar do departamento de ciência política e políticas públicas no ISCTE-IUL, “[…] a rede Epstein não revela apenas uma soma de patologias, é também um retrato de uma parte da super-elite global, cujos vínculos se tecem de forma diferente do passado”. No entanto, estas condutas podem revelar um desejo por um estilo de vida que não é característico do mundo atual, mas sim da década de 20 do século passado e da realidade que se encontra no livro The Great Gatsby, da autoria de F. Scott Fitzgerald − teoria reforçada no podcast “The Ezra Klein Show”, no episódio “The Infrastructure of Jeffrey Epstein’s Power”. A necessidade que estas elites, nunca integradas de forma completa e natural na sociedade, têm de sentir um culto às suas personalidades e de exercer poder na esfera dos impotentes e frágeis para compensarem o que a maioria alcança na infância, pode estar numa das raízes deste caso.
Independentemente dos motivos − sociais, patológicos, psicológicos, … − é necessário responsabilizar estas elites e não criar precedentes de impunidade para os ricos. Até porque se a situação tomasse lugar num contexto económico antagónico, o rumo do caso seria drasticamente distinto.
As pessoas esquecem-se que a inacessibilidade e a superioridade criada à volta desta “classe social” nada mais é do que uma ficção que nós próprios criámos. Se estas elites se podem apelidar de tal, foi porque o mundo como um todo lhes concedeu esse poder. As empresas bilionárias que estas detêm só o são porque todos continuam a usufruir desses serviços. Ninguém se engane, nem se esqueça, existem alternativas. Tão rápido são o que são, como deixam de o ser.
A instauração de uma oligarquia na maior potência mundial não auxilia nesta luta, apenas contribui para a sua destruição. Todavia, a decisão está no povo, na maioria e na democracia.
Os norte-americanos, nós e todos os outros não estão revoltados o suficiente. É verdade que uma grande parcela do problema tem morada nos EUA, mas há mais estradas para observar. Donald Trump é um ditador, mas a maioria dos líderes da Europa não o são. Portanto, a que se deve esta falta de ação, que leva à demolição de pilares tão importantes da sociedade, como a Justiça?
Onde está a revolta que se esperaria do país mais democrático e do continente mais desenvolvido? As elites estão a comer crianças e bebés, a violá-las e a engravidá-las, já para não mencionar quando as assassinavam para as silenciar ou simplesmente para satisfazer desejos sádicos e perversos, sem qualquer respeito pela dignidade humana. E agora, fazem promessas vazias e absurdas sobre a necessidade da proteção das mesmas, enquanto tentam reverter Roe v. Wade. Portanto, a pergunta que prevalece é: querem “proteger o direito à vida” ou o que realmente querem são mais crianças disponíveis em instituições e no sistema de adoção, que caso desaparecessem para festas questionáveis, não levantariam grandes perguntas?
Matilde Almeida
Departamento Sociedade
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