D’Angelo: a vida de um pioneiro
- André Mota

- 22 de out.
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No passado dia 14 de outubro, o Mundo perdeu uma das mais impactantes vozes da música. Michael Eugene Archer, conhecido pelo seu nome de palco D’ Angelo, foi um verdadeiro pioneiro em todos os sentidos, a ele se devendo a grande inovação levada a cabo em géneros como o R&B, jazz e soul. A estes estilos musicais, D’Angelo juntou o seu amor pelo hip-hop, conferindo-lhes um toque contemporâneo e nunca antes ouvido que levou à criação do género neo-soul. Assim, não há melhor forma de celebrar o seu génio do que embarcar numa profunda viagem sobre a sua vida e carreira.

Figura 1
O cantor nasceu em Richmond, no estado de Virgínia (EUA), a 11 de fevereiro de 1974. Desde tenra idade, Michael revelou ser um verdadeiro “menino-prodígio”. Em virtude de ser filho de um líder religioso pentecostal, foi criado no ambiente da sua igreja local, onde absorveu a essência de estilos musicais como o gospel e o soul – não sendo, portanto, surpreendente que a espiritualidade seja um tema tão recorrente em todas as suas obras. Com apenas três anos de idade, começou a tocar piano, sendo que aos cinco anos já tocava em celebrações litúrgicas.
Este seu incontestável dom levou-o a desenvolver a confiança necessária para começar a traçar o seu caminho rumo a uma carreira profissional no ramo da música. Durante a infância, o cantor formou e integrou vários grupos musicais, nomeadamente junto de familiares, começando a competir em vários concursos de talento e tendo, inclusive, sido vencedor do Amateur Night, realizado no Apollo Theater, em Nova Iorque. Com esta vitória, Michael ganhou a inspiração necessária para começar a compor música e a trabalhar num álbum.
Em 1993, após uma brilhante audição, D’Angelo celebrou um contrato com a editora EMI Records. No ano seguinte, a indústria musical conheceu o seu primeiro sucesso: o single “U Will Know”, que Michael ajudou a compor e a produzir para o supergrupo de cantores de R&B “Black Men United”. O single alcançou o top 30 da Billboard Hot 100, a tabela musical mais importante dos EUA. Assim cresceu o entusiasmo à volta do seu nome, com vários insiders a desejar ouvir mais desta nova voz.
Deste modo, foi no ano de 1995 que chegou finalmente o seu primeiro álbum de estúdio, “Brown Sugar”, que impactou o cenário musical pela sonoridade moderna que trouxe à música soul, ao acrescentar-lhe elementos do R&B e do hip-hop da época. O álbum recebeu uma forte aclamação da crítica, pelas suas composições instrumentais e líricas tão atualizadas, mas tão tradicionais, capazes de cativar tanto o público mais jovem como o mais velho. A sua voz rouca, mas suave, e o timbre aveludado das notas que cantava foram também altamente apreciadas, assim como as suas outras habilidades musicais, dado que todos os arranjos ouvidos neste álbum foram elaborados por ele. O disco gerou os singles “Brown Sugar”, “Cruisin’” e “Lady”, tendo este último chegado ao top 10 da Billboard Hot 100.

Após o sucesso de “Brown Sugar”, em virtude de um bloqueio criativo, a atividade de D’Angelo foi reduzida nos anos seguintes. Contudo, nem por isso deixou de realizar algumas participações especiais em obras de outros artistas, nomeadamente em 1998, quando participou como artista convidado numa faixa do primeiro disco a solo da cantora e rapper Lauryn Hill (cfr. The Miseducation of Lauryn Hill). A faixa, intitulada “Nothing Even Matters”, continua, até hoje, a ser uma das mais populares do álbum.
Em 2000, D’Angelo lançou o seu segundo álbum de estúdio, “Voodoo”, o disco mais bem-sucedido e aplaudido da sua carreira. Com este álbum, D’Angelo solidificou o seu nome como uma verdadeira estrela, uma lenda no mundo da música, tendo o álbum vendido 320 000 cópias na primeira semana e, por isso, alcançado o primeiro lugar na tabela de álbuns Billboard 200. No mesmo ano, o álbum recebeu o certificado de Platina pela Recording Industry Association of America (RIAA).
Este disco assume um caráter marcadamente pessoal, debruçando-se sobre temas como a sexualidade e a espiritualidade, e apresentando também um impactante tributo do cantor a África, onde encontra as suas raízes e a inspiração para a sua música. “Voodoo” valeu a D’Angelo os seus primeiros dois Grammy Awards, e o seu single mais popular, “Untitled (How Does It Feel)”, é sem dúvida um clássico da sua carreira, assim como o vídeo intensamente sensual que o acompanha.

Figura 3
Seguindo-se um período muito conturbado da sua vida pessoal, durante o qual D’Angelo havia desaparecido dos olhos do público, o seu terceiro e último álbum de estúdio, “Black Messiah”, só viria a ser lançado em 2014. O disco, realizado em conjunto com a banda “The Vanguard”, representou mais um sucesso comercial e crítico do artista, e levou a que o mesmo fosse vencedor de mais dois Grammy Awards, incluindo o prémio de Melhor Álbum de R&B. Neste álbum, D’Angelo fez sobressair a sua componente ativista, dado que o disco era dedicado a exaltar a música negra e pretendia, com o seu título, trazer força e união à comunidade negra dos EUA, no meio de confrontos e manifestações ocorridos nessa altura em virtude de episódios de violência policial no país.

Figura 4
Apesar de não ser muito extensa, a obra de D’Angelo demonstra, mais do que qualquer outra, que a qualidade será sempre superior à quantidade. Visionários como este músico aparecem a cada 1000 anos, e deverão sempre ser celebrados. A sua voz, a sua habilidade instrumental, o seu ouvido de ouro, a sua paixão pelo que fazia, tornaram-no um símbolo de excelência negra. Deste modo, mesmo que já não se encontre entre nós, o nome e a figura de D’Angelo perdurarão para sempre no legado que ele construiu e que nos deixou.
André Mota
Departamento Cultural




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