E se pudéssemos viver até aos 100?
- Guilherme Alexandre
- 7 de nov. de 2022
- 4 min de leitura
Caro Leitor, se parece uma crise, já está numa. Neste artigo proponho que reflita sobre as características da nossa estrutura demográfica, as condições que a definiram e os seus impactos: as nossas ambições enquanto humanos, como organizamos a justiça intergeracional enquanto Estados e as consequências materiais e sociais resultantes. Por outras palavras, falarei de porque é que viver, da forma que vivemos, traz problemas muito graves.
Na nossa saga pela melhoria da qualidade de vida e longevidade, através da ciência e da tecnologia, acabamos por consumir muito mais recursos do que aconteceria se a esperança média de vida fosse inferior. Aquilo que, em primeira análise, é um objetivo comum a todos — viver mais e melhor — é, em simultâneo, uma receita para problemas demográficos, económicos e humanitários.

@ Nishant Choksi
É assim que temos estado nos últimos séculos, e é assim que provavelmente iremos continuar. Porquê? Porque estamos cada vez mais perto de acabar com o cancro, com a SIDA e com a diabetes. Porque promovemos hábitos alimentares mais saudáveis e estilos de vida mais ativos, combatendo as doenças cardiovasculares. Milhões de pessoas viram as suas vidas melhoradas e prolongadas, e não proponho lamentar isso, mas há consequências.
É imensamente difícil fazer oposição a estas ambições, dado que todos queremos viver mais e melhor, e queremos o mesmo para os nossos familiares, amigos e concidadãos. Afinal, a morte é horrível e a morte de quem amamos é ainda pior. O sentimento e vontade são semelhantes em todos os povos, em Estados diversos e com diversas necessidades sociais e económicas, que os impedirão de ter determinadas preocupações, nomeadamente ambientais e de sustentabilidade.
Segundo as Nações Unidas, a população mundial deverá atingir os 9,7 mil milhões em 2050. Quando escreverem sobre isto, nesse ano, quais serão as previsões para 2070?
Quaisquer que sejam, são motivo de preocupação, porque já sentimos, hoje, os efeitos da sobrepopulação. Muito embora a economia de mercado tenha permitido inovação tecnológica e melhor aproveitamento dos recursos globais, levando a uma gigante diminuição dos níveis de pobreza extrema no mundo, não podemos percecionar o problema meramente por percentagens. São, ainda, muitos milhões de pessoas em condições indignas, a quem não são assegurados os direitos humanos mais básicos. Além disso, podemos aproveitar os recursos de forma cada vez mais eficiente e inovar cada vez mais, mas os recursos acabarão ou, no melhor cenário, tornar-se-ão intoleravelmente escassos, o que, por si só, já gera problemas. Em todo o caso, será necessário um esforço contínuo e de enormes proporções para alterarmos o nosso caminho rumo ao apocalipse climático.

@BC Fórum Brasil.
Imagens de satélite da progressão da seca em locais diversos da França, Alemanha e Estados Unidos da América.
Aqueles, entre nós, com mais preocupações de justiça social e de repartição da riqueza, muito embora tendo abordagens diferentes de como as solucionar, notam que não existe apenas uma preocupação futura. A divisão atual dos recursos financeiros e do poder político já condiciona em demasia os recursos disponíveis para o usufruto de cada um, e, por força destes, os direitos que cada um vê efetivados. Em muitas sociedades, incluindo a nossa, é crucial nascer numa família rica ou politicamente influente para se ter uma vida plena e de autorrealização, principalmente porque a mobilidade social é muito limitada, estando o próprio sistema meritocrático corrompido.
Um dos fatores que pode levar à situação de pobreza é, desde logo, a incapacidade de gerar rendimentos, quer por conta própria, quer por conta de outrem, inclusive quando fatores como a idade dificultam o processo. A idade na qual saímos do mercado de trabalho pouco tem aumentado e pouco mais poderá aumentar. De forma simplificada, devido a razões neuropsicológicas e contextuais (como a falta de acesso à educação contínua ou falta de atividades desafiantes) as pessoas deixam de ser criativas, adaptáveis e capazes para ser tão produtivas quanto eram. Com a entrada no mercado de pessoas mais novas e melhor capacitadas, impõe o raciocínio económico que exista uma substituição.
Estamos organizados enquanto Estado para forçar contribuições dos trabalhadores para os pensionistas. Não se fala apenas da Taxa Social Única, pois a Segurança Social é (já) insustentável sem transferências do Orçamento do Estado. Este modelo está em risco, pois, além de nascerem cada vez menos pessoas (nos Estados desenvolvidos), as pessoas que queremos sustentar irão viver, previsivelmente, mais tempo do que os seus ascendentes.
A par da escassez de recursos, importa referir que mais pessoas tenderão emitir mais gases poluentes, a consumir mais energia, mais plástico, mais roupa (não que falte roupa no mundo, mas existe quem prefira a Shein quando tem uma Humana no fundo da rua dos Bragas), etc.
Podemos levantar muitos cartazes contra o aumento da temperatura, mas falhamos em responsabilizar os nossos governantes pela má gestão das florestas. Não que Portugal seja relevante, em termos relativos, quando comparado, por exemplo, aos incêndios na Califórnia, onde arderam quase 2 milhões de hectares (cerca de 25% do território português), contrariam 16 anos de esforços de redução de emissões do dito Estado federado, segundo a UCLA. Ainda, o pensamento global tem de resultar em ação local, e a nossa ação local é continuar a plantar eucaliptos e tentar viver 100 anos enquanto tomamos 36 comprimidos por dia.
O que podemos esperar? Uma contínua luta de classes em cenário de apocalipse ambiental. A classe trabalhadora pagará mais de metade do seu salário para sustentar a classe política e a classe pensionista. Os mais ricos (experientes em códigos fiscais convenientemente complexos) surfarão a onda do transumanismo e biohacking rumo à imortalidade e omnisciência, vendo na exploração espacial a fuga perfeita para os problemas aos quais os nossos tetranetos não conseguirão sobreviver.
Para concluir, no parágrafo que havia deixado reservado para sugerir soluções para estes problemas, deixo apenas os meus pensamentos e orações. Ou podem sugerir a idade mais adequada para declararmos o game over, mas não contem comigo para isso, nunca gostei do trolley problem — talvez se todos ignorarmos o dilema a culpa não seja de ninguém.
Guilherme Alexandre
Departamento Fazer Pensar
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