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Educação com “E” minúsculo

  • Foto do escritor: Madalena Almeida
    Madalena Almeida
  • 28 de fev.
  • 2 min de leitura

“Não sei quando volto a ter biologia.” Foi o comentário que me fez prestar atenção à narração que a minha irmã fazia do seu quotidiano. Quase ao mesmo tempo, sem esperar pela explicação desse acontecimento, de algum canto lá de casa soou uma resposta imediata:“Já toda a gente sabe que esses professores não querem trabalhar. É uma vergonha.”. É uma frustração compreensiva. Afinal, é mais dinheiro que sai do bolso para pagar explicações, que já passaram de uma simples ajuda extra para uma inegável colmatação da gritante falta de professores nas escolas.


Já não é, de todo, um assunto novo o facto de o Ensino em Portugal estar a passar por uma crise cada vez maior, numa desvalorização tão grande da carreira que, simplesmente, não é um futuro que os jovens prevejam que lhes traga estabilidade e, como tal, não existe uma renovação geracional suficiente para manter estável este setor. Afinal, cada vez mais o mesmo professor chega a educar duas ou três gerações durante uma carreira ingrata e mal remunerada. No entanto, ao lado dos fatores materiais, atrevo-me a dizer que o problema se enraíza em algo mais profundo: nos ideais transmitidos de geração em geração.


Correndo o risco de parecer uma velha a falar, posso dizer que ainda cresci numa geração em que se tinha um mínimo de receio dos professores, vindo de um respeito que era incutido desde casa. Talvez por ser oriunda de uma cidade mais pequena, ou por ter avós bastante presentes, havia esta tradicional visão de uma “elite” constituída por Professores, Médicos, “Doutores” em geral. E, fosse porque eles tinham esse estatuto, fosse porque nos era ensinada a importância de estudar, no mínimo dos mínimos, havia a necessidade de manter o civismo na sala de aula, de não fazer má figura à frente dos Senhores Professores. 


Acontece que os seis anos de diferença que tenho com a minha irmã mais nova são o suficiente para as morais dos alunos sofrerem uma tremenda reviravolta. De repente, é o professor que tem de justificar aos pais as más notas e o mau comportamento do aluno. É normal vociferar contra o docente se ele se atreve a repreender, acusá-lo de roubo se ele confiscar um telemóvel, ameaçá-lo com a intervenção dos pais por tudo e por nada. Se há algo em que as gerações criadas pelo mote “quero-logo-posso” são autodidatas é em impor o berço de ouro onde nasceram. São tantas e tão absurdas as situações que me chegam aos ouvidos através da minha irmã, que só não a convidei para escrever o meu artigo porque ia sair daqui com um livro.


A algum ponto da história começou a ser incutido este desprezo pelo Ensino, tanto pela perspetiva profissional, como face às pessoas que o praticam. Chegámos ao ponto em que a mera ideia de vir a ser professor é motivo para fazer as gerações mais jovens estremecer, quase cuspindo para o chão, como que para afastar algum mau olhado. Se é uma profissão que já não cativa nem pela remuneração nem pelo estatuto, é porque a sociedade simplesmente assim não o quer!

Cultivemos educação, para salvar a Educação!


Madalena Almeida

Departamento Crónicas

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