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“Ensinar Direito, Preparar o Futuro: A Visão de Quem Forma Juristas”, com Fernando Pereira e Diana Silva

  • Foto do escritor: Beatriz Nunes e Martinha Carneiro
    Beatriz Nunes e Martinha Carneiro
  • 16 de abr.
  • 6 min de leitura

Caros leitores,


O percurso académico em Direito é marcado não apenas pelo estudo da lei, mas também por dúvidas e expectativas quanto ao futuro profissional. Estaremos verdadeiramente preparados para o mercado de trabalho? Que caminhos podemos seguir? O que nos espera além das portas da faculdade?


Para refletir sobre estas questões, reunimos duas perspetivas complementares do universo jurídico: o Professor Fernando, que nos oferece a maturidade e a profundidade de quem já trilhou um longo caminho na profissão, e a Professora Diana, que nos traz a energia e a experiência de quem vive os primeiros anos de carreira, transformando a teoria em prática.

Entre experiência e descoberta, esta conversa pretende esclarecer, inspirar e aproximar-nos da realidade que em breve será a nossa.

 

1. De todos os caminhos possíveis que poderia ter escolhido depois do fim do  ensino secundário, o que a fez escolher Direito? E, posteriormente, o que a  levou a seguir uma carreira no ensino universitário? 


Fernando Pereira: Quando terminei o ensino secundário, tinha muitas dúvidas sobre que caminho seguir. Pensei em fazer o curso de jornalismo, já que gosto muito de escrever. Mas uma professora aconselhou-me a cursar Direito, uma vez que teria um leque mais amplo de saídas profissionais, disse-me: se tirares o curso de jornalismo, não poderás ser jurista, mas, se tirares o curso de Direito, poderás vir a ser jornalista. Eu não tenciono abandonar a carreira de professor universitário, para me dedicar ao jornalismo mas, na altura, este argumento pareceu-me bastante convincente. Por outro lado, tinha vários amigos, muito próximos, que iam tirar o curso de Direito, na FDUP, o que constituía um aliciante para mim. 


Confesso que comecei o curso de Direito sem qualquer expectativa, e sem saber que carreira seguir: diziam-me, durante o secundário, que tinha bom poder argumentativo, que parecia um advogado. Não tinha muito mais em cima da mesa por esta altura. Durante o curso, sobretudo a partir do segundo ano, descobri o gosto pelo Direito e pelo seu método. Sentia-me muito seguro com a sua aplicação. Comecei a discutir esta ou aquela matéria com colegas de curso, que procuravam a minha opinião. Foram os meus pares que primeiro notaram a minha vocação. Mais tarde, percebi duas coisas: o enorme gosto pela investigação, e o facto de, a aquisição de conhecimento, ser acompanhada por uma igual vontade de o transmitir. Acho que é nisto que se traduz a vocação universitária.”


Diana Silva: “Por volta dos meus 10 anos de idade comecei a sentir que o meu caminho profissional  passaria pelo Direito. Talvez por isso não consiga recordar um momento em que tenha  desejado seguir um trajeto diferente. Foi como se esta escolha sempre tivesse feito parte  de mim. O contacto com as pessoas, o sentido de justiça e a crença, talvez ilusória e até  ingénua, de que seria capaz de fazer algo de bom pelos outros - ainda que nem sempre  estejamos do lado certo - motivaram esta escolha. Mas não só. Ao longo do meu  crescimento, o Direito e, em concreto, a advocacia, estiveram sempre presentes na minha  vida, nomeadamente através da minha irmã mais velha. Acompanhar a sua formação  académica e o seu ingresso na vida profissional foi o impulso de que precisava para  perceber que esta é, de facto, a minha vocação. Hoje sei que fiz a escolha certa: fui feita  para o Direito e não poderia ser de outra forma. 


Por outro lado, não posso negar que seguir a vida académica nunca esteve nos meus  planos, nem sequer nos meus melhores sonhos. Ainda assim, quando o convite surgiu,  não hesitei em aceitá-lo. Hoje, olho para essa decisão como uma das melhores escolhas  que poderia ter feito. Entrar numa sala de aula é, para mim, recuperar o oxigénio que  muitas vezes a advocacia me tira. É olhar para os estudantes e reconhecer neles o reflexo  da paixão que eu própria sentia quando, não há muito tempo, era eu que estava ali sentada.”


2. Iniciar a vida profissional é, compreensivelmente, algo muito assustador  para a maioria dos estudantes, que se sentem intimidados e pouco  preparados para “mergulhar na vida adulta”. No seu caso, qual foi o maior  desafio que enfrentou nessa transição ou ao longo da sua carreira? E,  atualmente, qual considera ser o maior “obstáculo” para o ingresso dos  jovens juristas no mercado de trabalho? 


Fernando Pereira: O início na vida profissional foi muito duro. Comecei por fazer o estágio de advocacia, na altura de três anos. Apesar de ter sido um aluno meritoso, sentia-me inseguro no início do estágio. Lembro-me de ter passado semanas a rever as matérias de direito civil, procurando antecipar o que, o meu patrono, me poderia pedir para fazer no primeiro dia de estágio. Estudei a teoria geral, as obrigações, o processo civil... No primeiro dia, o meu patrono pediu-me para elaborar um pequeno parecer, que envolvia a matéria do direito marítimo. Foi uma experiência muito esclarecedora: devia confiar na formação que tivera, e que me permitiu, inesperadamente, resolver o problema de Direito Marítimo.


Realizei uma parte do estágio no Porto, e outra em Lisboa, para onde fui à procura de melhor remuneração (a que tinha, na altura, era pouco mais do que simbólica). Olhando para trás, sinto que houve alguma exploração do meu trabalho. Mas também observo que, esse trabalho, me viria a abrir portas no futuro. 


Eu creio que existe um excesso de licenciados em Direito. Os Estudantes da FDUP têm, no entanto, a vantagem de provir de uma instituição, que mantém padrões de elevado rigor, e reconhecida como tal pelos seus pares. Seja como for, o mercado de trabalho está a sofrer, e sofrerá previsivelmente tamanhas transformações, em virtude do desenvolvimento da inteligência artificial, que, nem eu próprio sei, daqui a uma década, se ainda haverá quem queira assistir às minhas aulas. Não sei também se uma máquina poderá alguma vez ter vocação universitária. Isto abre caminho para a última pergunta.


Diana Silva: Entrar no mercado de trabalho é, sem dúvida alguma um grande desafio, sobretudo,  para quem sonha ser advogado. Apesar de acreditar que esta é uma carreira feita de  superações e obstáculos, independentemente da idade ou da experiência, a verdade é que  nada se compara ao estágio da Ordem dos Advogados. Esse foi, para mim, o momento mais exigente de todo o percurso. Funciona quase como uma antecâmara do mercado de  trabalho onde somos postos à prova todos os dias. Questionei-me muitas vezes se teria  sido feita para isto. Houve momentos em que quis desistir e, muitos outros em que senti  as minhas capacidades constantemente desafiadas. A prática é profundamente diferente  da teoria. E é precisamente por isso que se torna tão importante aproximar a academia da  realidade da advocacia. É nesse encontro de realidades que verdadeiramente começamos  a aprender. 


O início de qualquer carreira profissional é inevitavelmente penoso, mas permitam me opinar sobre a realidade que melhor conheço: a advocacia. A alteração ao Estatuto da  Ordem dos Advogados que obriga atualmente à remuneração dos advogados estagiários  será, sem dúvida alguma, o maior desafio daqueles que sonham ser advogados. Muitas  portas se fecharão e as que se mantiverem abertas vão escolher os melhores dos melhores.  Isto é de facto preocupante. Não há dúvidas que a profissão precisava de ser  regulamentada, mas à custa disso, muitos sonhos vão ficar pelo caminho.  


3. Para terminar, gostaríamos que, ao refletir sobre tudo o que viveu até este  momento, nos dissesse qual é o seu maior conselho para quem se encontra no  nosso lugar? 


Fernando Pereira: O conselho que posso dar aos estudantes, como resultado da minha experiência, é este: procurarem um equilíbrio, muitas vezes doloroso, entre: esforçarem-se ao máximo, darem o melhor de si, e, não se sujeitarem a fazer uma coisa que não gostam, ou a estarem numa situação que não é boa. Aconselho, pois, os Estudantes a serem inconformistas. A cultivarem o inconformismo. Eu acredito que uma pessoa que se comporta dessa forma, e que seja resiliente, acabará por fazer ou por estar no lugar em que deve estar. O destino ocupa-se disso. Aconselho também os estudantes a procurarem ter uma formação integral. a cultivarem-se. Isto é da máxima importância. O "mercado", enquanto tal, pode nem existir daqui a alguns anos. O mais importante, portanto, é saber para onde vão. 


Diana Silva: Deem sempre o vosso melhor. Procurem ser, todos os dias, a vossa melhor versão e,  acima de tudo, acreditem em vocês próprios. Se têm um sonho, não o deixem ficar apenas na gaveta: corram atrás dele e agarrem-no. Com o fim da licenciatura, terão à vossa espera  inúmeras oportunidades- algumas melhores, outras mais desafiantes-, mas todas elas farão  parte do vosso caminho. É apenas o início. Têm uma vida inteira pela frente para crescer,  para aprender e para chegar exatamente onde querem estar.


Concluindo, esperamos que a exposição das perspectivas de ambos estes docentes, em muitos pontos semelhantes e noutros divergentes, como expectável, sirva de bálsamo para aqueles colegas que mais temem o futuro.

Importa também  relembrar que temos muito mais do que apenas matéria a aprender com eles e que mesmo quem atualmente admiramos, com impressionantes carreiras e tanto para ensinar, já estiveram na nossa posição.


Beatriz Nunes

Martinha Carneiro

Departamento Mundo Universitário


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