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Ode à minha cidade Erasmus

  • Foto do escritor: Vitória Ferreira
    Vitória Ferreira
  • 30 de abr.
  • 3 min de leitura

Se a 10 de setembro de 2025 me questionassem o que é uma cidade, eu diria algo como um aglomerado de prédios, de ruas que os entrecortam nos mapas, de rostos desconhecidos, de sons e cheiros, quase sempre um pouco desagradáveis. Pouco tempo depois a resposta mudaria. Diria agora que uma cidade é, na verdade, um conjunto de momentos, um álbum de memórias, fotografias gravadas a cada esquina, sorrisos presos em cada local, sabores, sons e cheiros que nos moldam. Talvez não seja esta a melhor definição de cidade, talvez me escape um nome mais adequado. É um facto que nem sempre é fácil colocar em palavras o amor que sentimos. No entanto, parece irónico que estivesse mais próxima de chamar de “amor da minha vida” a uma cidade do que a uma pessoa. E que cidade seria essa? 


É uma cidade de muitos nomes, talvez um presságio da multiculturalidade que a preenche. Vestida de canais e casas de outros séculos, pincelada de pontes com dois nomes e decorada por mais bicicletas do que pessoas. Cidade com sabor a casa e cheiro a waffles quentinhos. Pronta a jogar às escondidas com os seus parques, museus e “cafés” e a abraçar-te de neve. Cidade que te faz sorrir com um Natal encantado, rir com cerveja extraordinária e sonhar com o potencial que a tua nova versão ali poderia ter. 


Para os que lá viveram, é claro, falo de Gent. Para aqueles que nunca se deliciaram com a sua presença, espero que a descrição vos tenha feito pensar numa outra cidade. E para todos, espero que esse lugar seja aquele a que chamam casa, sob pena de tal como eu viveram na inquietude de lá voltar. 


Esta minha introdução poderia levar a que pensassem que foi amor à primeira vista e, talvez, de facto, tenha sido, mas um livro de memórias não se cria instantaneamente e esta história de amor (permitam-me chamar-lhe isso) também não. 


A experiência numa nova cidade é uma coisa curiosa, porque não obstante não ser desprovida de peripécias, todas elas acabam rotuladas como “uma boa história para contar”. É assim que a água quente deixa de ser requerimento obrigatório, banhos de chuva se tornam motivo de gargalhada e comboios errados, aventuras. 


A par disto e tendo esta crónica por objeto retratar a experiência de Erasmus, cabe-me descrevê-la do melhor modo possível. Reconheço que comumente a experiência revela-se em inúmeras viagens, numa longa lista de amigos internacionais, na criação de uma comunidade de portugueses, saídas noturnas e um certo rancor ao estudo exigido. Não direi que esta descrição é totalmente errónea, mas também não me consigo rever facilmente nela. As viagens aconteceram, sem dúvida, principalmente patrocinadas pelo excelente e acessível serviço de comboio belga, permitindo-me conhecer um pouco mais da Flandres em viagens de meio-dia nos sábados de descanso. Quanto aos amigos, a lista foi curta, mas é daquelas em que ficas a marcar os futuros casamentos no calendário. Amizades que, no meu caso, vêm tanto das Américas como da Bélgica (porque não, os belgas não são frios e distantes quando realmente os conheces). Devo ainda dizer que não obstante algumas saídas e bastante diversão, a melhor parte, sob pena de ser rotulada como nerd, foram mesmo as aulas. As aulas que compunham os programas de Mestrado e LLM da faculdade foram das melhores aulas que alguma vez tive, com alguns dos professores mais extraordinários, que só por si faziam valer a pena a experiência. Sim, mesmo com os cerca de 150 assignments que tive durante o semestre.


Por último, em jeito de conclusão e num pseudo conselho, digo que talvez o mais importante da experiência tenha sido sentir a cidade, não só a cidade em si, por tudo o que já referi, mas por aquilo que ela significa, pela cultura que comporta, pelas pessoas que lá habitam em jeito volante ou permanente, por aquilo que me ensinou… 


Viver numa nova cidade é como se reaprendêssemos a viver, como se fôssemos crianças novamente. Damos por nós com uma nova e extensa lista de “primeiras vezes”, de pequenos acidentes e de risos nervosos. Por vezes, a diversidade linguística leva-nos a crer que talvez tenhamos de aprender a falar novamente, desafiando-nos a desenrascar-nos com gestos e onomatopeias. É um sentimento agridoce, acarreta um certo desconforto e inquietude, mas também por esse motivo nos faz felizes. 


E foi assim que, em cinco meses, a “tomatensoep en broodje met kaas en groeten” tornou-se o meu almoço preferido, a “mattentaart” a sobremesa de eleição e a “la chouffe” a melhor recordação (ou talvez seja das memórias que os acompanham, mas fiquemos por aqui). 


Tot later!


Vitória Ferreira

Departamento Grande Entrevista


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