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Erasmus em Madrid

  • Foto do escritor: Manuel Brito e Faro
    Manuel Brito e Faro
  • 23 de abr.
  • 3 min de leitura

Abro o telemóvel, dirijo os olhos à galeria, clico no ecrã e sou transportado a uma realidade que já não é minha, e que parece nunca ter sido. O idealismo que o Erasmus representa é verdadeiro para muitos, eu incluído. Nunca fui uma pessoa que se sente realizada em grupo, desprezando a prioridade dada por outros a estarem sempre rodeados, ainda que mal-acompanhados. De uma criança habituada a habitar espaços com pessoas mais velhas, a adolescente que nunca fez questão de passar muito tempo em atividades extracurriculares, cheguei à faculdade sem grandes pretensões de mudar de personalidade. No entanto, a promessa do Erasmus de viver uma experiência diferente com estudantes de toda a Europa, foi algo que chamou por mim desde o início da minha vida universitária.


Há várias pessoas que viajaram por todo o mundo e têm a mente tão fechada como no dia em que pensaram que o céu era azul por assim ter sido pintado. Ainda assim, parece haver algo no projeto europeu que o diferencia da mera globalização indiferente aos valores: todas as tribos nos obrigam a conformar, quer seja a religião, um clube de futebol ou até o fandom do nosso artista favorito. Mas o projeto europeu abraça precisamente uma característica que sempre respeitei – a valorização do indivíduo.  


Para olhar além das nossas diferenças culturais, é preciso primeiro olhar para nós próprios, onde encontraremos um mar de qualidades, gostos e particularidades que pode ser bem diferente ao do nosso vizinho, mas semelhante ao de outras pessoas que se encontram espalhadas pelos quatro cantos do mundo - pessoas que, em Erasmus, tive oportunidade de conhecer. Em Madrid fiz amigos de todas as partes do mundo, com vidas completamente diferentes da minha, mas que, ainda assim, ouviam a mesma música que eu, viam os mesmos filmes ou partilhavam a mesma opinião sobre a longevidade das relações entre conhecidos casais de celebridades.


A pretensão de me colocar numa caixa para agradar a outros sempre foi, mais uma vez, causa de repulsa para mim, demasiado orgulhoso para me autoidentificar de modo obsessivo com alguma parte de mim. Em Erasmus, pude ser o “nerd” que por vezes sou, percorrendo os museus da cidade e entrando em debates extensos com o meu professor de Direito e Religião, assim como o festeiro que nunca sabe quando “call it a night”, porque o Erasmus se apresentou, mais do que como um momento de aprendizagem de algo em específico, como uma experiência que foi especial precisamente pela oportunidade de descoberta pessoal que me ofereceu.


Madrid revelou-se atrativo pela língua próxima e um interesse pessoal pela cidade. Capital da festa e da cultura para além da nação, aproveitei cada aspeto que a cidade tinha a oferecer. Da vida no bairro de Salamanca, às noites no Sol e Chueca, visitas ao Reína Sofia e ao Prado e aos passeios de barco no Retiro, Madrid deslumbrou-me. 


Posso também destacar a beleza da cidade – convido qualquer pessoa que lá não tenha ido a pelo menos visitar – a movida frenética dos locais que não vi em mais nenhum lugar que já visitei, a não ser talvez Londres, e o facto de ser uma cidade verdadeiramente global, sendo já apelidada de “capital da Hispanidade”, tantos são os latinos que se encontram no dia-a-dia, acrescendo a mais de um milhão de pessoas na cidade. Ao que Madrid falta em oceano, encontramos no mar de gente que compõe a sua população: as minhas roomates: uma portuguesa, outra espanhola, outra guatemalteca, os meus vizinhos peruanos, os meus amigos mexicanos e muitas outras pessoas que fizeram o meu intercâmbio parecer mais Ibero-americano que outra coisa. 


Madrid passou de ser chamada “cidade sem sotaque” para hoje ser a “cidade de todos os sotaques”, uma realidade que fez com que, por mais enferrujado que fosse por vezes o meu espanhol,  me sentisse sempre parte daquela terra. Faço verdadeiramente um esforço para não me tornar um ex-Erasmus insuportável, cujo traço mais distintivo parece ser mencionar incessantemente situações que as restantes pessoas à mesa não viveram e que por isso não terão qualquer interesse em reviver. Espero também, ao me declarar cidadão global, não ser alguém que pretende com isso advogar por um modelo de sociedade onde as raízes afetivas não existem, visto que, em qualquer momento em que esteja deslocado e pense em casa, o meu coração aponta para um único sítio em específico. 


Um lugar onde as cores do céu nunca me deixaram de me deslumbrar, ver o sol pôr-se na serra madrilena assemelhava-se a uma experiência religiosa. Com os pés bem assentes naquela terra, mas os olhos postos no horizonte, recordo esses momentos de Erasmus com ternura- momentos que sabemos que são passageiros, mas cuja transitoriedade é o elemento que os torna tão especiais.


Manuel Faro

Departamento Crónicas


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