Entre a farda e o sonho: Bombazine
- Mariana Resende

- há 23 horas
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Se desde cedo ouvimos que “amigos, amigos, negócios à parte”, os Bombazine vieram provar que não é bem assim. Em 2022, cinco amigos juntaram-se e decidiram revolucionar o indie-pop português, formando uma banda que tem tanto de irreverência como de autenticidade. Vieram provar que a música ainda é um lugar de encontro das nossas vontades, sem necessidade de mudarmos só porque a corrente vai noutro sentido.
O seu sucesso não foi “sol de pouca dura”, tendo vencido, em 2023, o Oeiras Band Sessions, o que lhes permitiu pisar o palco do NOS Alive. Não esperaram que “a sorte mudasse” e chegaram à final do Festival da Canção com “Apago Tudo”, conquistando uma geração que vê no indie português um lugar de conforto.
A bombazine pode ser caracterizada como um tecido versátil, durável e resistente ao desgaste. Tiveram em consideração o significado do termo quando criaram a banda? A relação entre este grupo de amigos aproxima-se dessas características?
Vasco Granate: Começando pelo fim da pergunta, nunca tínhamos pensado nisso dessa forma, mas penso que sim. Aproveitando essas características da bombazine, acho que elas descrevem perfeitamente a amizade da nossa banda. Relativamente ao nome, não tivemos em conta as características do tecido: antes, foi algo que surgiu por acaso. Estávamos prestes a lançar o primeiro EP e a banda ainda não tinha nome. Portanto, chegámos a uma altura em que já só lançámos nomes com base na não oposição (se ninguém se opusesse ficava escolhido o nome). E a dada altura num dos retiros que fizemos no início de 2023 um de nós estava a vestir um casaco de bombazine e foi literalmente isto. Olhamos para o casaco, dissemos “bombazine” e (finalmente) ninguém se opôs.
Manuel Figueiredo: Certo, não é uma história muito elaborada, mas foi assim que surgiu o nome da banda.
O projeto nasceu em 2022 e, desde então, passaram por contextos e públicos muito distintos — do Oeiras Band Sessions ao NOS Alive, passando pelo Festival da Canção. Em todos esses palcos, que emoção gostariam que alguém sentisse ao ouvir, pela primeira vez, uma música vossa?
Manuel Figueiredo: Penso que o que vou dizer é transversal e acho que está relacionado com a característica mais básica da nossa banda: a sonoridade. Nós temos uma sonoridade muito vincada no groove e gostamos de “pôr a malta a mexer”, como costumamos dizer. No fundo, pretendemos que as pessoas dancem e se divirtam, acima de tudo, ao ouvir a nossa música, desde o primeiro EP até ao nosso último trabalho. É também aquilo que pretendemos que se mantenha no futuro.
Sendo uma banda ainda recente, certamente recordam os desafios de iniciar um percurso no mundo da música — da falta de criatividade às divergências internas, passando pelos “nãos” e por projetos que não avançaram. Qual foi, para vocês, o obstáculo mais desafiante até agora?
Manuel Granate: Diria que foi aquilo que é um bocado estereótipo: o sair do estúdio. Alguns de nós já tocavam há alguns anos antes de criarmos a banda e, inclusive, 4 membros tinham um projeto anterior que não chegou a ver a luz do dia para o público geral.
Vasco Granate: Eu acho que a maior dificuldade de uma banda no início é, no fundo, de repente, mostrar-se “nua” ao mundo, e tivemos particularmente essas inseguranças porque tínhamos uma vontade enorme de lançar música, mas não tínhamos propriamente muito tempo livre disponível para investir no projeto, daí acharmos que podíamos estar a lançar algo que não tivesse qualidade suficiente. Todos nós temos outras atividades profissionais e a música acaba por não ser a principal. Tínhamos essa insegurança, mais concretamente em relação a não saber qual ia ser a receção do público.
Todos os membros da banda vivem uma espécie de vida dupla: à noite, são artistas e, durante o dia, exercem atividades ligadas a outras áreas do saber. Sabemos, inclusive, que pelo menos dois elementos da banda têm ligação à área do Direito. De que forma essa diversidade de percursos contribui para o processo criativo do grupo? E que parte de vocês, que talvez não apareça diretamente nas músicas, está sempre presente nos concertos?
Manuel Protásio: Todas as pessoas que estão ligadas à área do Direito precisam de um escape criativo ou, pelo menos, deviam procurar um, para não enlouquecer (risos). Na verdade, pensamos que toda a gente, vinda ou não da área do Direito, poderia beneficiar de um escape criativo. Penso que nesta área as pessoas têm maior facilidade em falar em público e, apesar de eu não falar nos concertos, penso que para o Vasco, como advogado, isso foi uma vantagem - permitiu-lhe saber falar melhor com pessoas. Embora a linguagem dos concertos e a linguagem que se usa numa reunião, por exemplo, sejam diferentes entre si, saber o que dizer ou não dizer em certos contextos acaba sempre por ser vantajoso.
Manuel Granate: O nosso ganha-pão não é a música, e penso que isso nos retira alguma pressão para estar sempre a lançar músicas, dando a abertura necessária para termos uma maior liberdade criativa, porque temos a segurança que deriva do nosso trabalho principal.
Vasco Granate: Acho que há aqui um ponto relevante que não tem só a ver com a nossa área que é o facto de termos tido uma experiência profissional antes da música. Acabamos por utilizar as nossas skills para termos uma abordagem o mais profissional possível na área da música, é quase uma ideia de project management. Eu e o Manuel Figueiredo, que tem experiência na área financeira, acabámos por utilizar esse know-how na gestão da empresa que temos e até em termos de organização da banda, pelo que acreditamos que isso nos deu algumas credenciais no mercado. Se calhar, a visão mais clássica de um músico é a de alguém que não tem grande foco nas questões mais de gestão, mas acho que nós, derivado da nossa experiência profissional, temos alguma alavancagem nesse aspeto.
Manuel Protásio: Acima de tudo, considero que, tendo todos nós trabalhos diurnos, não poderíamos funcionar de outra forma. Temos de ter muito foco relativamente ao tempo que dedicamos à criação de música, na medida em que é algo sempre pós-laboral. Se não nos dedicarmos com alguma objetividade e se tivermos, talvez, uma perspetiva mais boémia da música, não conseguimos fazer nada.
Vasco Granate: O nosso percurso foi um pouco ao contrário: tivemos tempo para ganhar experiência profissional e só depois é que nos dedicámos à música. Há 10 anos, estávamos a ir esporadicamente ao estúdio enquanto estudávamos na faculdade e, se calhar, não íamos ter a produtividade que temos hoje. Uma das aprendizagens que acabámos por retirar é que quanto menos tempo livre temos, melhor o aproveitamos.
No fim do secundário estava num dilema: ou seguia Direito ou ia estudar Música. Ainda cheguei a falar com os meus pais da possibilidade de ir para Londres estudar música, mas rapidamente fui persuadido no sentido de perceber que seria mais viável garantir primeiro a “carteira de táxi”- o curso de Direito - e deixar as coisas fluir.
Acabei por gostar da advocacia e já trabalho nesta área há já 10 anos. Ainda assim, a verdade é que sempre tive este sonho da música adiado. A conciliação entre as duas áreas é difícil, mas acredito que é possível.
O mundo do Direito não é totalmente avesso à criatividade - até na redação das peças surge um bichinho literário, bem como nas questões mais estratégicas. Há sempre também algumas interpretações criativas que as pessoas acabam por fazer das leis, etc. Os escritórios de advocacia por vezes também têm um papel cultural, organizando, por exemplo, exposições de arte ou outros eventos de beneficência como o Rock N’ Law.
A questão de praxe passa por saber quais são as vossas inspirações nacionais e internacionais. Mais concretamente, que artistas vos inspiraram mais pelo percurso do que pela sonoridade?
Vasco Granate: Relativamente à questão do percurso, não conseguimos olhar para referências internacionais, porque os mercados são muito diferentes e pelo facto de a abrangência da língua inglesa ser completamente diferente - nós cantamos em português, logo o nosso público-alvo é o mercado português. Mas é, naturalmente, inevitável estar atentos ao panorama indie nacional. Há muitos artistas que admiramos, desde logo os Ornatos Violeta, GNR, Diabo na Cruz, e referências como Os Capitão Fausto são incontornáveis, especialmente naquilo que é a ambição de percurso de uma banda que está no panorama indie português.
Manuel Protásio: Temos também uma referência com uma história particularmente engraçada por trás. Os Madrepaz são também uma das bandas que mais inspiraram este projeto. No ano passado, e na preparação do último concerto da tour, surgiu a ideia de os desafiar a tocar connosco, apesar de eles já não atuarem há cerca de sete anos.
Antes disso, já tínhamos trocado algumas mensagens com eles pelo Instagram, numa lógica puramente de fãs. O mais incrível foi que aceitaram o convite e, a partir daí, criamos uma relação com uma banda que sempre idolatrámos. Foi, sem dúvida, um dos marcos mais relevantes do nosso percurso: conseguir tocar com uma banda que tanto admiramos.
Manuel Granate: Não tenho grande noção de que bandas começaram nos nossos termos, mas, desviando um pouco o objetivo da pergunta, nós temos influências musicais que são transversais a todos os membros, tal como os Red Hot Chili Peppers ou os Vulfpeck, que apresentam um estilo mais groove, mais dançável.
“Até três”, que integra o álbum de longa duração “Samba Celta”, apresenta uma sonoridade alegre e festiva, reunindo diversos pensamentos sobre a descoberta como uma jornada pessoal. Versos como “Já fui a tantas festas noutras vestes de aprendiz/ Mas nunca me curaram e fiquei com cicatriz” dialogam com as inquietações de “Cartago”, quase como uma resposta às reflexões anteriores. O erro assume, frequentemente, um papel importante no desenvolvimento da personalidade humana. Sentem que o “erro” exerce um papel semelhante no vosso processo de criação musical?
Filipe Andrade: O que estamos a fazer é o que faz sentido para nós neste momento, então acho que aquilo que corre menos bem nunca pode ser considerado um erro. Além disso, trata-se de algo muito subjetivo - enquanto uma coisa para nós pode parecer certíssima, para aqueles que nos ouvem pode não fazer sentido nenhum. Por isso, para mim, o erro não tem importância nenhuma.
Vasco Granate: Para mim o erro está mais presente na vertente da performance. Acho que a música ao vivo anda de braço dado com o erro e isso é algo que todos os músicos entendem - muitas vezes, são erros impercetíveis para o público. Mas acabamos sempre um concerto a saber onde errámos.
Manuel Granate: Voltando àqueles anos em que nos reuníamos para tocar, mas em que os projetos nunca saíram da sala de ensaios, provavelmente houve muitos erros, aprendizagens ou abordagens que descartámos, porque não faziam tanto sentido, e, entretanto, fomos aprimorando-as para este projeto.
Manuel Figueiredo: Aliás, nós temos uma música no álbum Samba Celta que seguia um pouco essa lógica (“Semtempo”). Tínhamos guardada “na gaveta” a melodia do refrão desta canção e conseguimos pegar nisso, rearranjar e fazer uma música à nossa medida e à medida do projeto que temos. Portanto, foi um erro mais na medida do reciclar e rearranjar uma melodia feita uns anos antes e não tanto um erro na composição.
Vasco Granate: Nós próprios somos muito autocríticos relativamente ao nosso trabalho, portanto, acho que o erro tem esse papel, mas para o futuro. Muitas bandas olham para trás e tentam perceber o que podiam ter feito de forma diferente e tentam usar isso para outras criações.
O erro enquanto tema lírico está presente a todo o momento. A verdade é que muitas músicas nossas refletem sobre o crescimento, e penso que refletir sobre o crescimento é identificar erros e saber que eles acontecem. Há um tom de autocrítica nas músicas típico de uma análise feita por alguém que está a crescer.
Mariana Resende
Departamento Grande Entrevista

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