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“O tempo não é do construtor, é do destrutor”: Álvaro Siza Vieira

  • Foto do escritor: Mariana Resende, Marta Torres
    Mariana Resende, Marta Torres
  • 26 de abr.
  • 9 min de leitura

Natural de Matosinhos, marcou a história da arquitetura portuguesa e internacional, sendo uma influência para inúmeras gerações. Não se resignou, levou a sua obra além fronteiras e deixou o cunho português no mundo. Álvaro Siza Vieira é, inquestionavelmente, um dos mais destacados arquitetos portugueses, sendo, igualmente, um exemplo, entre tantos, de que a arquitetura é uma das artes mais esquecidas do nosso país. 


Portugal peca por nunca ter dado o devido reconhecimento à cultura. A questão não é atual, não passa despercebida, mas não está a ser resolvida. Formamos estudantes que saem da Faculdade de Arquitetura e enfrentam dificuldades de trabalho. Há um mundo de trabalho que não os valoriza.


É impossível colocar a obra do nosso primeiro Pritzker num museu onde as pessoas a possam contemplar e, talvez desse modo, obter o reconhecimento que lhe é devido. Contudo, foi a sua obra e a de tantos arquitetos que deu às cidades aquilo que as tornou cidades – estética, funcionalidade, identidade. Resta-nos, portanto, a dúvida: afinal, que nação é esta que não valoriza quem lhe projetou os alicerces? 


  1. A arquitetura nasceu como um invólucro protetor, concebido para abrigar o ser humano de perigos externos. Com o tempo, a arte, da qual a arquitetura é parte inseparável, passou a assumir também o papel de mecanismo de revolta, crítica e sátira da sociedade contemporânea, colocando em tensão o bem-estar e conforto do Homem espetador. Diante desse cenário, considera que a dimensão acolhedora e protetora da arquitetura está em vias de extinção ou continua a ser valorizada pela nova geração de arquitetos?


Não, a arquitetura continuará. Nos regulamentos diz-se que a arquitetura é imprescindível, prevê-se, inclusive, uma coisa extraordinária, que consiste no facto de o arquiteto ser obrigado a assinar um termo de responsabilidade pelo trabalho dos engenheiros. Além de ser um absurdo, é mais uma coisa que é atirada para o campo da responsabilidade dos arquitetos. Faz parte destas inovações absurdas que estão em curso e que estão a transformar a arquitetura num inferno. Eu recomendo à juventude que não vá para a arquitetura ou, se tem uma grande paixão pela arquitetura, que vá resolvida a iniciar uma luta que, inexplicavelmente, ainda não começou. Isto porque os direitos dos arquitetos, segundo as indicações da União Europeia, aceites de uma forma incompreensível, estão a ser atacados profundamente. Basta observar que os arquitetos não têm direitos de autor. 


Eu, de vez em quando, recebo uma carta a comunicar que “de acordo com o artigo x, da portaria x, vão proceder a modificações de uma obra da minha autoria” e eu só tenho de respeitar isso. Mas, da última vez que recebi uma carta, censurando-me, vinha explícito que era obrigatório acusar a recepção da mesma, e eu lá escrevi de volta acusando a recepção da mesma. No entanto, escrevi um post scriptum a dizer “por favor, informe-me quando for obrigatório dizer obrigado”. É este o estado da arquitetura na Europa. Tanto é assim, que eu tenho trabalho no Oriente, mas em Portugal não tenho. Algum nem vale a pena, porque são concursos de toda a obra pública feitos entre construtores. O construtor é que vai buscar o arquiteto que bem entende, e há recomendações e práticas no sentido de escolher nesses concursos o projeto mais barato. De maneira que isto está numa degradação galopante, a que não se vê fim.


  1. Encontramo-nos numa era minimalista, valorizando-se a simplicidade, ausência de excessos, o chamado “menos é mais”. Desvaneceu-se a riqueza dos detalhes, a espontaneidade, a imprecisão, e deu-se lugar à funcionalidade. Neste mundo novo, onde é que o arquiteto pode deixar de ser realista? 


Isso só encontrei, não sei se é geral, na China e na Coreia. Na Europa, eu tive bastante trabalho, na Holanda, na Alemanha, na Itália, na França, mas agora eu não tenho nenhum, nem em Portugal. Bem sei que já estou velhinho, já não devo ser muito de confiança. O facto é que as condições de trabalho aqui chegam a ser humilhantes.


Há ainda uma ideia latente e reclamada, que também tem influência nisto, de que ter arquiteto fica caro. Acontece que tudo subiu, a construção subiu brutalmente, não sei quantos por cento. Mas sei que o pagamento de arquitetos nos projetos diminuiu drasticamente, porque é livre. 


É claro que depois há alguns que o aceitam e arranjam dinheiro de outra maneira, através dos construtores – uma coisa que antes era proibida, até levar ao extremo da expulsão da Ordem dos Arquitetos, mas que hoje é livre. 


Aparece, de vez em quando (agora já praticamente não aparece ninguém), alguém a pedir um projeto e uma proposta. Eu faço uma proposta de acordo com o que era desde os anos 50 – as regras obrigatórias dos arquitetos e que já não existem. A pessoa diz “Sr. Arquiteto, eu arranjo isso por metade” e eu digo “felicidades”. A situação é esta. 


Fala-se como nunca da arquitetura, em publicações, conferências, seminários, comentários, livros ou revistas, mas a situação do arquiteto é a do “capacho do construtor”.


  1. Em 1954, é concretizado o seu projeto “4 Casas em Matosinhos”, desenvolvido quando ainda se encontrava a frequentar a Escola Superior de Belas Artes do Porto. Em 2022, essa mesma obra é classificada como Monumento de Interesse Municipal, permanecendo, contudo, como objeto de polémica devido à sua audácia e ao carácter inovador que apresentava para o contexto da época. De que modo a opinião externa pode influenciar a reinterpretação e a valorização de uma obra?


Foi o projeto de um jovem de vinte e um anos, que era inexperiente, tinha muito entusiasmo para a arquitetura e fazia muitas perguntas aos construtores - na altura, ainda era permitido falar com os construtores.


Eu aprendi muito com os construtores, nem foi concretamente com o encarregado. Aprendi muito com o pedreiro, o carpinteiro, o trolha, que eram muito bons e completavam o que a faculdade (a Escola de Belas Artes) não dava (e nem poderia dar) em termos de experiência, de controle dos materiais e da maneira de os usar. Isso, hoje, acabou! Senti isso quando, na primeira vez que trabalhei na Alemanha, em Berlim, fui à obra num edifício de apartamentos e o construtor fazia um pavimento em mosaico de uma determinada maneira - era um edifício que tinha uma certa irregularidade octogonal. Eu disse-lhe que fazer o pavimento daquela forma multiplicava os problemas dos cortes do mosaico e que era melhor fazer o que fazia eu (e outros), que era cortar o mosaico na diagonal, porque dessa forma era mais fácil ajustar à irregularidade do terreno. E o empreiteiro disse-me “Em Berlim, não fazemos assim” e eu disse “Está bem. Eu dou-lhe o conselho de fazer assim” e acabou por ali a conversa. Quando cheguei ao escritório em Berlim - na altura tinha-me associado a um outro arquiteto - recebi um telefonema furibundo do diretor dos empreiteiros dizendo que, se eu quisesse fazer modificações na obra, não poderia falar com o operário, só podia falar com ele. E eu percebi, naquele momento, que este contacto tão instrutivo, lógico e de criação de bom ambiente de trabalho estava para acabar, e realmente, pouco tempo depois, em Portugal, iniciou-se o mesmo processo. 


  1. Vivemos tempos de guerra, em que praticamente vale tudo. Todos os dias vemos na televisão imagens de cidades completamente destruídas, edifícios históricos que ruíram, pessoas desabitadas. No seu ponto de vista, qual é o papel da arquitetura na reconstrução de um espaço que foi afetado por uma crise e na mitigação do elemento “trágico” que lhe é inerente depois das catástrofes?


O papel do arquiteto é aprender, ouvindo as notícias (que não faltam). Já não há regras na arquitetura, nem há na vida mundial. Portanto, hoje, pode matar-se tranquilamente. Não há direitos internacionais e, na arquitetura, com menos dramática consequência, mas também dramática, acontece a mesma coisa, realmente não há regras.


Em compensação, há montanhas de burocracia, o que faz com que, por exemplo, em Veneza, eu tenha ganho um concurso para um projeto de habitação social na Judeia, que ainda não está pronta e que começou há 43 anos.


Uma das regras praticadas é entregar a obra, sobretudo a obra pública, ao mais barato possível. O construtor mais barato dá um preço impossível, ganha o concurso, e, a seguir, quando já não dá para fazer mais, abre falência, abandona a obra e faz-se outro concurso, que demora seis meses, pelo menos. Vem outro e, nesse caso de Veneza, repete-se a cena outra e outra vez. 


Em Portugal, o normal é 10 anos. O último projeto que eu fiz aqui para o Porto, que aliás não está construído, esteve na Câmara três anos – só ao fim de três anos é que veio o parecer. Isto é assim, a menos que seja de algum amigo.


Esse projeto nunca foi chumbado, nem podia ser, porque era uma recuperação em que simplesmente se melhorava o que estava degradado, mas demorou três anos a chegar o parecer para se aprovar. Agora, está parado há um ano, porque não há empreiteiro que o queira fazer. É uma coisa pequena, há coisas maiores para fazer, e há falta de empreiteiros – os empreiteiros querem obras de outra dimensão.



  1. É sabido que o que é nacional é bom, contudo, em Portugal, parece persistir uma consciência limitada quanto ao papel público da arquitetura. Reconhecemos o serviço que ela presta, mas raramente valorizamos verdadeiramente o estatuto do arquiteto. Infelizmente, ninguém, nem mesmo Álvaro Siza, parece ter poder para mudar este cenário atual. A seu ver, que condições continuam por criar para que a arquitetura encontre o devido reconhecimento público?


Eu não tenho poder. O poder normal, ou melhor, o tratamento e o reconhecimento da necessidade do arquiteto normal são dados no Oriente. Em Portugal, nem obra tenho! Aliás, o que interessa não é o poder, é a relação normal que sempre existiu na convergência dos intervenientes na construção. 


Para diminuir a burocracia existente e redescobrir a valorização da arquitetura em Portugal era preciso dar um murro na mesa muito violento. Mas só podia dar esse murro a Ordem dos Arquitetos, é uma coisa que individualmente é impossível, e a Ordem dos Arquitetos não o faz. Apetecia-me dar murros, mas não era na mesa!


Esta situação não se verifica só em Portugal, mas também na Espanha, França e em toda a parte. Na Suíça, o mesmo não acontece, porque é um país que não integra a União Europeia. Na Albânia - que também não pertence à União Europeia -, eu também tenho projetos, mas é uma candidata a entrar e, portanto, será outro país perdido para a arquitetura, provavelmente. A Alemanha, que é mais forte, deu um murro na mesa. Não aceitou, por exemplo, o facto de os arquitetos não terem direitos de autor, como já referi anteriormente. Lá ainda há direitos de autor! 


É evidente que em Portugal, em princípio, não se faz exatamente o mesmo no Alentejo ou no Minho, por razões práticas várias, mas também por razões culturais e de sensibilidade ao contexto. Assim como quem trabalha no Japão encontra um ambiente diferente. O impulso criativo na arquitetura vem muito do contexto (físico, climático, humano, de investimento, etc.) em que se trabalha. É diferente trabalhar num sítio ou noutro, mesmo na cidade de Porto é diferente. Aliás, deveria, poderia e foi diferente trabalhar na Foz ou na Avenida dos Aliados, por razões óbvias. 


  1. Quão mais bela A Gioconda desde que a não pudéssemos ver! E se quem a roubasse a queimasse, quão artista seria, que maior artista que aquele que a pintou” (Livro do Desassossego). O que é que permanece na arquitetura quando a obra desaparece? 


Em certos casos, até não é mal destruída. Mas quando é uma pena destruí-la, há uma perda e há que reconstruí-la, com o mesmo ou com outro programa, de preferência melhor – o que é muito difícil, por razões várias – e medindo as diferenças evidentes. 


É claro que, hoje, só com muito esforço – só os americanos é que o têm feito, quase – se faz um Pártenon, e será um Pártenon muito diminuído na sua qualidade. Fazem-se outras coisas com outros materiais, outras exigências de conforto, etc. Se uma obra desaparece, se for por razões óbvias e aceitáveis, há que fazer outra, ou não fazer nada e deixar o espaço livre – os espaços livres também são necessários e menos procurados do que os espaços construídos.


Se é caso de se construir outra coisa, é preciso ter o cuidado pertinente, ultrapassar penosamente a montanha de regulamentos, hoje uns muito justificados, outros não – a burocracia sobretudo –, e as circunstâncias em que o projeto é reprovado, ou não, que são, por vezes, muito estranhas. 


  1. Há ainda algum projeto que gostasse de fazer, que ainda não conseguiu realizar


Não, mas há muitas obras que não se fizeram. A Avenida da Ponte, fiz agora o terceiro projeto. Quando fiz o primeiro, que foi aprovado, tinham antes sido reprovados 42. Depois, fiz o segundo, em 2001, que foi aprovado numa primeira Comissão, mas depois a Câmara arranjou outra comissão, que o chumbou. O terceiro estou certo de que não se vai realizar. Na Câmara havia um vereador interessado pela obra que saiu e depois nunca mais se falou nada. Está lá o projeto.


Não digo “que pena não ter feito” –  por exemplo, nunca fiz um estádio, e isso para mim não é um desgosto, porque tenho outros projetos e eles são todos interessantes. Uns podem ter mais impacto público, mas não é verdadeiramente nisso que está interessado um arquiteto, acho eu. 


Cada obra é uma obra, que tem o seu interesse e que provoca o seu entusiasmo, às vezes tirado a ferro do fundo da alma, porque não há muitas razões para o entusiasmo. Em imensos países que eu citei, o entusiasmo vem do próprio dono da obra, e, portanto, alimenta o entusiasmo do arquiteto. 


Mariana Resende

Marta Torres

Departamento Grande Entrevista

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