Num mundo de memórias e de preparativos para o futuro: Lena d'Água
- Mariana Resende, Marta Torres

- há 2 dias
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Se durante muitos anos foi conhecida como a “filha do Águas”, Lena d’Água rapidamente conquistou o seu nome no país (e reza a lenda que depois do seu sucesso, já era o futebolista que era conhecido como o “pai da Lena d’Água”). Mostrou que a vida pode ser uma “Grande Festa”, num país que ainda descobria o que era a liberdade e que preferia a discrição e o recato ao risco que a felicidade podia trazer.
Lena não é só uma voz, é um marco de irreverência, uma mulher de pulso firme que desafiou os rótulos que lhe eram impostos pela sociedade. Se é certo que nunca seguiu tendências, talvez nos arrisquemos a dizer que as criou, provando a uma geração de novos músicos que não precisam de deixar que a indústria os defina para ter sucesso.
E sucesso foi o que não faltou a Lena d’Água, tendo marcado os anos 80 com êxitos como “Sempre Que o Amor Me Quiser”, “Demagogia” ou “Nuclear Não, Obrigado”. Após um tempo afastada dos discos, regressou quando ninguém estava à espera, com a elegante rebeldia que sempre a caracterizou, lançando “Desalmadamente” (2019) e “Tropical Glaciar” (2024).
Explorando um percurso que não foi linear, mas antes humano, com altos e baixos, o Tribuna esteve à conversa com uma mulher muito à frente do seu tempo. Percorremos a história de alguém que caiu, levantou-se, afastou-se e regressou ainda mais forte e mais livre. Bem vistas as coisas, podemos dizer que viemos dar a “volta ao mundo com a Lena d'Água”.
Platão qualifica o demagogo como o animal que chama boas às coisas que lhe agradam e más às coisas que ele detesta. Em 1982, lança uma música intitulada “Demagogia”, da qual ressaltam versos como “Têm nas mãos uma lata descomunal/Prometem muito pão e vinho”. Mudam-se os tempos, mas nem sempre se mudam as vontades. No contexto político contemporâneo, continuam a surgir discursos sedutores, marcados por promessas exageradas e por uma forte “lábia”. Encara a música como uma forma de intervenção, que lhe permite assumir uma posição crítica sobre a política e aquilo que considera estar errado no panorama nacional?
Claro que sim. Naquela altura, nos anos 80, eu tive a colaboração do grande compositor (que infelizmente já não está cá) Luís Pedro Fonseca. Fazíamos uma parceria imbatível, porque estávamos muito alinhados em relação às coisas, como foi também o caso do “Nuclear Não, Obrigado”, que também integrava o disco Perto de ti, ainda com a banda Atlântida. Eu e o Luís Pedro partilhávamos muitas coisas, muitas ideias. Éramos muito novos e achávamos que tínhamos bastante poder para mudar as coisas em Portugal: mas quem não quer ser convencido não é convencido, quem quer fazer orelhas moucas (que é o que se vê atualmente), faz orelhas moucas.
Na América é a mesma coisa, é aldrabices em cima de aldrabices e o pessoal continua a apoiar os aldrabões, não querem mesmo saber. Fez-me lembrar o álbum “The Wall” dos Pink Floyd, em que o pessoal vai todo atrás como carneirada mole - agora faço uma referência aos Xutos e Pontapés [1]. As pessoas não querem saber, é uma cegueira total, é como se estivessem a apoiar um clube de futebol em que o árbitro está sempre errado quando é contra nós e está sempre certo quando é a favor. Infelizmente, vai havendo umas “celulazinhas”, uns pequenos grupos, uma pessoa, aqui e acolá, que continua a acreditar que é possível. Esta esperança também parte dos artistas, sim, porque têm mesmo de ser os artistas! Apenas uma ínfima parte dos políticos é realmente gente séria e quer realmente fazer aquilo que é suposto um político fazer: defender o bem-estar da maioria dos cidadãos.
A música sempre teve um enorme papel na transformação dos ditames da sociedade, permitindo que nem todos pensemos e ajamos de forma igual. Como disse, “um artista politicamente correto é uma grande seca”. Enquanto mulher, “linda, jovem e irreverente”, com um enorme sucesso nos anos 80 e 90, num país que ainda estava a descobrir a liberdade, em que momentos sentiu mais necessidade de desobedecer?
Foi antes do 25 de Abril, quando eu estava no Liceu Maria Amália Vaz de Carvalho, um liceu feminino, onde só havia funcionárias, alunas, professoras... não havia sequer um jardineiro. Se calhar, na altura, não havia muitas mulheres a fazerem jardinagem nos sítios públicos. Vocês não fazem ideia do que era a pressão constante e o aperto que se sentia nas aulas e nos corredores do liceu. A vontade de desobedecer era gigante, mas eu era uma miúda e não tinha coragem! (risos).
Apanho o 25 de Abril com 17 anos, tinha acabado o liceu em 1973, um ano antes.
Eu gostava de estudar e gostava de várias coisas diferentes. Quando chegou a altura de decidir entre as letras ou as ciências (bolas… como eu gostava de letras e de ciências), escolhi a alínea G (na altura era por alíneas), que era a única que conjugava as duas.
Depois dava para Sociologia, mas só se fosse para Évora. Vivendo em Lisboa e, naqueles anos, sendo dispendioso para o meu pai, porque ele era um antigo jogador de futebol (muito mal pagos naquele tempo), para além de sermos 3 filhos a estudar. Mas mesmo que não fosse dispendioso, alguma vez eu poderia ir viver para Évora, com 17 anos, para estudar? Não, nem pensar.
Entrei na faculdade no final do ano de 1973, e o suposto era eu fazer três anos de económicas. Só no quarto e no quinto é que eu tinha as cadeiras que me interessavam – eram tudo cenas de “logia”, para saber mais e estudar.
Então era a Paleontologia, a Etnologia, a Arqueologia (eu desde miúda sempre fui apaixonada pela Arqueologia). Mas pronto, fui salva de três anos de Económicas no ISCTE pelo 25 de Abril, porque quando percebi que aquilo ia demorar muito tempo até voltar a haver aulas e professores (os alunos iam para lá jogar xadrez, damas e às cartas e depois passavam administrativamente). Foi assim nos primeiros tempos. E percebi que não me apetecia nada estar ali. Resolvi esquecer a faculdade.
Alguma vez, já depois do 25 de Abril, sentiu que estava a pagar um preço muito alto pelo facto de ser mulher a entrar no mundo da música?
A entrar? E então agora? Acham que alguma coisa mudou? Não, ainda há pouco estava em casa a fazer scroll e apareceu-me um festival com vários dias de espetáculos. Não havia uma única mulher nos cerca de sete ou oito artistas, só homens. Isto continua e é uma grande chatice, portanto a luta não se passou só quando entrei, a luta continua.
Quando saí da faculdade, acabei por encontrar certas pessoas que foram muito importantes na minha vida, ligadas ao teatro. Entrei numa pequena oficina de teatro independente e montámos um espetáculo chamado ‘A Viagem à Íris’, que rodámos por vários espaços em bairros pobres nos arredores de Lisboa, na então chamada Campanha de Dinamização Cultural. Em relação à música, também já tinha a minha violinha desde os 14 anos.
A música sempre foi uma coisa muito presente na minha vida. Lá em casa havia um gira-discos e uma telefonia, o meu pai comprava imensos discos quando andava em digressão com o Benfica e com a Seleção. Durante a minha infância, a nossa casa foi sempre uma casa de música, e de música bastante internacional, com Frank Sinatra, ou Nat King Cole, os preferidos do meu pai. Cá dos nossos era o Tony de Matos, que era um cantor romântico incrível, tinha uma voz linda de morrer.
A minha mãe gostava mais das músicas da Igreja. Ela era catequista, católica progressista, não era daquelas à moda antiga, era uma mulher muito especial.
A música foi o meu berço, no fundo. Nunca tive grande queda para o desporto, gostava de nadar, adorava jogar badminton, mas, de resto, era a música.
Os Beatles apareceram neste mundo quando eu tinha 10 ou 11 anos, através da tal telefonia que ainda tenho aqui, foi com ela que cresci e conheci os Beatles. Eu não sabia inglês, porque tinha tido só umas primeiras pinceladas, uns bocadinhos de inglês e uns bocadinhos de francês, no externato. Mas eu queria aprender as letras para poder cantar com eles. Começaram a aparecer os singles – tenho 16 singles dos Beatles –, alguns vinham sem capa, vinham só com aquele papel que parece reciclado, e eu desenhava com as canetas de feltro os corações e os nomes deles. Então, eu colocava as músicas a tocar e aquilo que eu ouvia, escrevia, numa linguagem inventada, para poder cantar com letras.
Quando acontece o 25 de Abril, ainda houve pessoas que pensavam “ah, mas e se isto for de direita?”. Nunca nos passou pela cabeça semelhante coisa.
Porque para nós, naquela idade, havia a guerra no Ultramar. Eu tinha dois amigos na guerra e dois amigos que tinham saído a salto do país por causa da guerra. O meu primo tinha 18 anos e aos 19 anos aquilo era automático, eras chamado para a inspeção e incorporado. A não ser que arranjasses maneira de ir embora. Isto era uma coisa que pesava em cima de nós. Tinha de haver aquela mudança e seria para melhor, tínhamos a certeza disso.
Primeiro, em 1974, fiz a tal experiência com o teatro, foi muito giro. E, depois, no ano seguinte, resolvi fazer o curso do Ministério Primário (hoje, o Instituto Superior de Educação).
Quando me apaixonei pelo pai da Sara (Ramiro Martins), que era músico, começámos a namorar e aquilo foi uma coisa assim tipo “WOW”. Foi uma grande paixão – nós conhecemo-nos, fiquei à espera de bebé, casámos e a Sara nasceu, tudo no mesmo ano.
No verão de 1975, eu estava já à espera de bebé e resolvi fazer a admissão ao Magistério Primário, que era (e penso que continua a ser) a única escola pública em que as pessoas aprendiam a ensinar.
Adorei fazer aqueles três anos. Foi um curso piloto, porque até lá era só preciso ter o quinto ano (que hoje é o nono) e fazer mais dois anos. A partir daquele ano, de 1975, era preciso o liceu completo e o curso começou a ser de três anos. Sobretudo, os primeiros dois anos foram incríveis, porque estávamos a mudar o paradigma do professor que ensina e dos meninos que estão ali a comer tudo.
Todo o nosso curso foi feito com a intenção de depois fazermos aquilo com as crianças. Todos os trabalhos, todos os estudos, tudo era feito em grupos de quatro a cinco. Nós próprios, os futuros professores, fazíamos, fosse qual fosse a disciplina, todos os trabalhos de preparação em grupo. Para aprendermos isto ou aquilo, fazíamos sempre o trabalho de grupo, como iríamos fazer depois no nosso futuro, na escola, com as crianças.
Eu acabei por ser atropelada pela música, de maneira que apenas fiz dois estágios em duas escolas (no Pendão, Queluz, e nos Olivais). Nos trabalhos de grupo, quem tinha mais queda para umas coisas ficava responsável por essa área. Eu, inevitavelmente, fiquei com a parte da música, movimento e drama, e os miúdos das escolas começaram a chamar-me “Lena da Música”.
Eu senti-me livre, logo e sempre. Com o meu pai, ainda tivemos (eu e a minha irmã) uns percalçozitos, porque, quando tínhamos 13, 14 ou 15 anos, os rapazes não podiam olhar para nós, que ficávamos logo de castigo se disséssemos um adeus ao longe.
Em relação a escolher uma profissão, os nossos pais deram-nos toda a liberdade para fazermos as nossas escolhas.
Desobedecer agora mais recentemente, sim. Tenho desobedecido imenso, vocês nem sonham!
Os anos 90 foram uma época difícil e as pessoas sabem disso, porque decidiu falar. Apesar de toda a tragédia na sua vida, continua a sorrir (desalmadamente!), sendo a autenticidade, a fuga à conformidade e às expectativas alheias uma marca muito forte da sua imagem. Considera desafiante ser autêntica, sobretudo no meio artístico?
Cada pessoa é como é, e eu não conseguiria ser de outra maneira, não faço de propósito, entendes? Eu fechei a porta à droga em 1998 e, passado poucos anos, já neste milénio, resolvi falar disso, porque achei que era importante falar. Precisava de desabafar e mostrar que nós (artistas) também passamos grandes dificuldades, e vocês (público) nem imaginam!
Não é por sermos mais ou menos conhecidos e famosos que não passamos por certas dificuldades comuns à pessoa vulgar. Nunca me arrependi de ter falado publicamente sobre essa época, mas, ao fim de cerca de trinta anos, ainda há, de vez em quando, na página da artista Lena d´Água, que é aberta, pessoas a dizer coisas do género “coitada, desgraçou-se toda com a droga”.
Quando recebi o Globo de Ouro de “Melhor Intérprete”, no ano passado, fiquei toda feliz. Entretanto, apareceram no Facebook alguns comentários como “Aquele vestido? Que horror, coitada!” ou “aquela coitada não teve dinheiro”. O vestido em causa era de uma jovem estilista e foi escolhido de entre várias possibilidades que tinha. Tinha uma cor laranja, viva! Aliás, comprei agora um estore com aquela cor, porque gostei muito (risos).
Passados uns poucos dias saiu a minha entrevista do “Alta Definição”, com o Daniel Oliveira, e, de uma semana para a outra, apareceram magotes de gente a dar-me imensa força, porque tinha assumido que também fui vítima de violência doméstica. Apesar disso, eu não me considero bem uma vítima, porque o episódio de violência só aconteceu uma vez e eu voltei de imediato para casa dos meus pais, não dei segunda chance.
Quer dizer, passei da drogada, louca, coitada, que não tem dinheiro para se vestir, para a coitadinha que também levou porrada. Isto é uma coisa, é mesmo em manada (risos).
O meu Facebook está um bocadinho em vias de extinção, mas gosto da minha página pessoal, porque tenho lá uma data de amigos e amigas que escrevem muito bem e eu gosto muito de ler os seus textos. Sigo imensa gente ligada ao cinema, ao teatro, à música, ao jornalismo, à literatura, e reconforta-me saber que há pessoas inteligentes que ainda pairam por ali. Se não fosse o Facebook, como é que eu ia juntar aquelas pessoas que eu estimo e gosto de acompanhar, estando cada um no seu sítio, na sua área? De maneira que o Facebook, para mim, serve para isso. Tem os seus inconvenientes e as suas vantagens, mas o importante é filtrar esse mundo mais rasteiro.
Todos nós já tivemos momentos em que sentimos medo de falar ou de agir, por causa das consequências das nossas palavras ou ações, e acabamos por ficar a remoer nos “e se’s”. Numa viagem ao passado, pesou-lhe mais dizer aquilo que sentia ou guardar aquilo que ficou por dizer? Há alguma coisa que ainda gostasse de dizer para “não deixar nada aí a remoer”?
Durante a maior parte da minha vida não havia esta acessibilidade à vida pessoal de cada um de nós, mas tínhamos sempre os nossos amigos. E eu, com as minhas pessoas amigas, sempre fui muito aberta e franca, às vezes, até bruta. Está na minha maneira de ser.
Eu tenho, do tempo do liceu, um caderninho que, no final do ano, corria pelas turmas todas. Cada folha do caderno tinha uma pergunta e, depois, as nossas colegas iam respondendo. Uma das últimas perguntas era “agora que nos vamos separar, o que gostavas de dizer acerca de mim?” e houve mais do que uma das minhas colegas que disse “és muito amiga, de ajudar, mas às vezes sofres de uns repentes, às vezes tens um mau génio” (risos). Eu tinha 14 anos e era tímida, mas já tinha mau génio... Mas era boa aluna, acabei o liceu no quadro de honra, com média de 15.
Um dos meus grandes amigos da música é o Mário Delgado, um grande guitarrista, tocou na minha banda entre 1987 e 1993, toca com os maiores, é incrível. Ele, desde que começámos a tocar juntos, até aos dias de hoje, me chama carinhosamente de “alma danada”.
Eu tenho feito terapia ao longo dos anos, na altura da droga também, mas, na altura, aquilo era tudo muito incipiente e fraquinho. Em relação a isso, tinhas de te virar. A parte física ficava resolvida em três tempos, mas depois tinhas de recuperar a tua vida – voltar a combinar ir ao cinema com amigos, dar uma voltinha no fim de semana, ir até à praia...
Essas coisas que tu deixas de fazer… Ficas num sítio fechado, fazes aquilo que é necessário para continuares a fazer a tua vida, a tua profissão, mas fora isso era tudo muito apertado, muito fechado. E foi bastante difícil, mas lá fui conseguindo - felizmente nunca mais olhei para trás.
A vida é assim, põe-nos em situações de “ah, está bem, bora lá experimentar”. Já era mulher, já tinha 30 anos e foi um bocado isso, um bocado de arrogância, achar que podes experimentar, porque agora já tens 30 anos. Aquilo é veneno, ponto final!
Naquele milénio (risos) havia uma liberdade indescritível por não haver telemóveis, vocês não imaginam. Eu só tive telemóvel em 1998 e foi a minha filha quem me obrigou a tê-lo. Eu já tinha 42 anos. Vivi até aí só com telefone fixo.
Na primeira fase toda da minha vida (como era bom…), era “mãe até logo” e ia até ao café, para estar com os amigos. O meu bairro, o bairro de Santa Cruz em Benfica, era um sítio maravilhoso, parecia uma ilha, uma aldeia na cidade.
Encontrávamo-nos na Gastronómica, que era uma pastelaria ao pé da mata (o parque Silva Porto), e juntávamo-nos com as nossas violas acústicas e os nossos livros de poesia nos vários jardins que havia lá no bairro.
Depois, chegava a casa e na entrada da casa havia um movelzinho com o telefone em cima e um caderninho com um lápis.
“Lena, tens aí os recados ao lado do telefone. Telefonou não sei quem, pede para ligar, deixou o nome e número de telefone”. Eu aguardava pela chamada da pessoa que tinha ligado quando estava fora, ou então ligava logo. Chegava a casa e tinha ali tudo escrito no papelzinho com lápis – era assim.
Depois havia sempre imensas notícias e novidades para contar, porque hoje em dia chegas ao pé de alguém e toda a gente já sabe, porque tu publicaste (risos).
É, incontestavelmente, uma das figuras mais icónicas da música portuguesa, contando com inúmeras distinções notáveis, nomeadamente o Globo de Ouro de Melhor Intérprete (2025), o Prémio José Afonso (2021) e os dois Prémios Play - Prémio da Crítica e Melhor intérprete Feminina (2020). Estes prémios não pagam contas, mas não deixam de ter importância. Que papel figuram no seu percurso?
Fiquei muito feliz com os prémios destes últimos anos.
Quando recebi o prémio José Afonso fiquei muito comovida, porque o Zé Afonso foi - a par do Zé Mário e do Sérgio - o rei, era como se fosse uma espécie de tio para mim. Eu ainda estive com ele uma vez. Ia fazer uns coros num estúdio em Campolide e ele estava a acabar umas gravações no mesmo estúdio com a sua boina preta e, não sei ao certo, se foi ele que me abriu a porta ou não, mas eu entrei e fiquei pasmada. Disse-lhe que também cantava e que se ele precisasse de uma voz para fazer coros, podia contar comigo e ele escreveu lá num caderninho dele o meu nome e o meu número, mas nunca me telefonou. Quando eles me telefonaram da Câmara da Amadora a contar do prémio, eu nem conseguia falar porque estava a chorar. Receber esse prémio foi um sentimento muito forte.
Depois, os prémios “Play”, que aconteceram naquela fase da pandemia. Fomos lá tocar a canção “Grande Festa” e a nossa apresentação - gravada três dias antes do direto - foi fantástica, com aquele vestido giríssimo e uma banda fantástica (a banda do álbum Desalmadamente). Eu ganhei o prémio da categoria “Melhor Artista Feminina” e, quando já estava com vontade de fugir, porque o Coliseu estava muito quente e nós estávamos a ser “cozidos” (porque uma das coisas que se dizia na altura era que o ar-condicionado ajudava a transmissão do vírus e então estávamos ali horas ao calor), tinha duas câmaras mesmo perto de mim, e eu não sabia o que ia acontecer. Estava toda a gente com máscara e longe uns dos outros, e eu estava a dizer adeus à pequenina (Bárbara Tinoco), que eu acho que foi a revelação nesse ano.
Vem uma pessoa da produção e disse que aquilo não ia demorar muito tempo até acabar. Afinal, eu ainda tinha um outro prémio “Play” para receber, que era o “Prémio da Crítica”!! Esse é que me apanhou completamente desprevenida. Fiquei tão contente, sobretudo porque, durante aquela fase da minha vida em que eu era super famosa e fazia imensos concertos com as minhas bandas, a crítica nunca foi boa para mim. Aliás, eram horríveis. A maior parte das vezes ignoravam-me, faziam de conta que eu não existia.
Portugal é um país muito velho, é muito antigo e tudo demora muito tempo a acontecer. Mas depois tivemos o 25 de Abril e eu fui de comboio para o Rossio para estar mais perto.
Em 1975, eu e a minha mãe votámos juntas pela primeira vez nas primeiras eleições em que as mulheres tiveram direito a votar. Foram tempos muito emocionantes.
Depois claro, a coisa começou logo a descambar, porque no Partido Comunista e no Partido Socialista - não digo os dirigentes, porque esses (Álvaro Cunhal e Mário Soares, respetivamente) eram maravilhosos, incríveis, cultíssimos e lindos -, ao fim de uns meses via-se toda a gente chateada, zangados, tudo ao estalo. É o grande mal da política: não põem o bem do povo como missão, elevam apenas as picardias e os interesses. E atualmente então, é uma falta de cultura! O povo achou sempre que não tinha de fazer nada, que os políticos é que tinham de resolver as coisas, e deixou-se ficar à espera de que os políticos as resolvessem e a coisa não é bem assim. Os políticos não resolvem e o povo fica todo revoltado.
Cheguem-se à frente, exerçam a vossa cidadania! A Helena Roseta foi e continuará a ser, para mim, uma inspiração enorme. Eu não tenho muitos livros dela, mas adoro-a. O conceito de cidadania é, simplesmente, fazer! Andavam por aqui, na aldeia, a meter glifosato e tive de escrever cartas para a Junta de Freguesia e fui à Câmara Municipal dizer que não queria o veneno à volta da minha casa. E consegui.
Um dos grandes conselhos que ouvimos quanto ao envelhecimento é o de que apesar das dores de costas que possam surgir, ou do joelho que já não dobra corretamente, a mente deve manter-se nos 20 anos. Nos dias em que o corpo pede repouso e a mente exige voar, quem deve ganhar o confronto?
O corpo. A partir de uma certa altura – eu tenho sentido bastante nos últimos 6/7 anos – tens de dar descanso, porque, se o teu corpo está exausto e cansado, é um cansaço geral.
É preciso ter esperteza, por exemplo: ir para a cama mais cedo, sair do sofá e não acordar com o pescoço virado. (risos). Tens de cuidar do teu corpo, porque o corpo é a base do resto, a mente está sempre cá, a cabeça e as memórias.
Entretanto, dou por mim a preparar a minha saída de cena desta vida. Quero deixar tudo como deve ser, tudo organizado, para que depois se possa fazer a pesquisa sobre o que foi a minha vida e o meu trabalho. Quero deixar isso tudo organizado e limpinho, mas ainda tenho mais coisas para fazer!
Se quando somos jovens só queremos estar onde não estamos e ir para onde não vamos, chega uma altura em que no meio do “tempo que nós perdemos e no escuro em que mergulhamos, há sempre uma luz que vemos”. No presente, ainda sente aquela vontade juvenil de fugir e procurar o seu lugar no mundo, ou já encontrou conforto em estar exatamente onde está?
Ah sim, já. Aliás, já aconteceu cantar o “estou além” e dizer “mas eu hoje estou onde quero estar”, quando acabo de cantar. E as pessoas aplaudem.
Eu adorei conhecê-lo (o António Variações), uma pessoa tão querida e tão discreta. Ele saía de casa vestido como se fosse entrar em palco, mas falava baixinho, era a coisa mais doce! A minha mãe, que na altura era uma senhora já de 50 e tal anos, adorava vê-lo na televisão.
O António estava na mesma editora que eu, a Valentim de Carvalho, e foi por isso que estive com ele várias vezes, em várias situações. Encontrávamo-nos no estúdio, nos escritórios, na rádio. Era um homem muito lindo e muito doce, que me chamava “Aguinha”. Escrevia letras incríveis, parecia surrealismo mas não era bem. Aquilo era meio onírico, mas já com previsões de futuro, era incrível aquele homem. E juntava em si uma personagem da Renascença com uma coisa que ainda não existe, a que ainda não chegámos.
Mariana Resende
Marta Torres
Departamento Grande Entrevista

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